Parque do Barrocal (***) – Castelo Branco

Parque do Barrocal: Onde o Granito se fez Memória e o Tempo se fez Paisagem na Origem dos Deuses

Antes de mais comecemos o nosso texto com as medalhas deste magnífico espaço. Faz parte do Geoparque Naturtejo que está classificado pela UNESCO e em 2020 venceu o prémio internacional de arquitetura nos World Architecture News Awards na categoria de Paisagem Urbana.

Olhar para o Parque do Barrocal é, antes de mais, um exercício de humildade perante o tempo. Estamos perante rochas que não pertencem ao nosso relógio apressado; foram geradas nas entranhas profundas do planeta e, com a paciência de centenas de milhões de anos, a tectónica e o clima encarregaram-se de as trazer à luz, moldando-as como quem esculpe um corpo. É um cenário que nos transporta imediatamente para os Barruecos de Malpartida, em Cáceres, onde a pedra parece ter ganho vontade própria.

Não é apenas um jardim; é uma lição de geologia viva integrada no Geoparque Naturtejo. Ali, a natureza não é um cenário estático, mas um ser que nos encanta e deslumbra pela sua resistência. O Parque do Barrocal mais do que um ponto de passagem; é um convite. Um convite para desfrutarmos de uma natureza que tem tempo, algo que o homem moderno parece ter perdido na sua correria sem destino.

Surpreende a forma como este caos granítico se ergue, quase com um desdém majestoso, à margem dos bairros recentes de Castelo Branco. É como se o Barrocal quisesse manter a sua distância sagrada da urbanização, preservando a sua identidade.

Castelo Branco organiza-se em torno de quatro pilares de sacralidade e história: a zona do Castelo e o morro de São Martinho, sentinelas na sua rocha quartzítica, e depois a proteção espiritual da Nossa Senhora de Mércoles e a força da natureza do nosso Barrocal. São lugares onde a terra e o céu parecem tocar-se com uma clareza que só a Beira possui.

I-A fascinante Geologia Magmática

Recuar 310 milhões de anos exige um fôlego que a nossa escala humana raramente alcança. O Maciço Granítico de Castelo Branco é, no fundo, uma cicatriz monumental da formação do supercontinente Pangeia. Imagine-se o choque colossal de placas tectónicas — a chamada Orogenia Varisca — fundindo a crosta para dar lugar a uma massa magmática gigantesca. Ali, a 30 quilómetros de profundidade, o granito do Barrocal começou a sua lenta gestação.

O Maciço Granítico de Castelo Branco está associado à instalação de uma gigantesca massa magmática há cerca de 310 + 1 Ma e localizada originalmente a uma profundidade estimada de 30 km e com uma temperatura de cristalização iniciada aos 750˚C. O Maciço Granítico de Castelo Branco é constituído por cinco tipos diferentes de fácies graníticas, dispostas concentricamente.

Sim, não foi um nascimento apressado. A natureza, ao contrário de nós, não tem pressa de existir. Este granito de duas micas— onde a biotite e a moscovite convivem em equilíbrio — levou cerca de quatro milhões de anos a cristalizar. É um processo de uma paciência infinita, que deixou para trás uma herança de cristais de apatite, zircão e andaluzite, como pequenas joias incrustadas na dureza da pedra.

As rochas são as páginas onde a Terra escreve a sua autobiografia. O Barrocal, com os seus 390 km², é um desses capítulos. É curioso pensar que o que hoje vemos como formas arredondadas e dóceis à superfície, foi outrora um inferno líquido e viscoso no coração das trevas geológicas.

Esta transição do caos profundo para a paisagem serena convida-nos a refletir sobre a própria condição do passado e do presente. Aquilo que nasceu na pressão e no calor extremo é hoje o refúgio onde procuramos o silêncio e o contacto com o que é perene.

O granito do Barrocal surge como uma afirmação de força.

II- As formas caprichosas do Granito

Naquela que é uma verdadeira dança das placas tectónicas, o Granito do Barrocal foi finalmente empurrado para a luz do dia. Mas não chegou intacto; trouxe consigo as marcas de um longo e minucioso trabalho de cinzel. Antes de se expor ao sol da Beira, foi limado” e retocado pela erosão silenciosa das águas que, gota a gota, exploraram as suas fraquezas e fissuras.

O resultado é um museu de formas ao ar livre. No domo do Barrocal, a pedra parece ter ganho plasticidade: encontramos as bolas (aqueles enormes “ovos” de pedra que parecem prestes a rolar), os blocos pedunculados que desafiam a gravidade como cogumelos minerais, e os blocos fendidos, onde o tempo abriu feridas profundas. Há formas que desafiam a nossa imaginação, como as formas em chama ou os blocos penitentes, que parecem figuras em prece, vergadas sob o peso dos milénios.

Para o olhar mais atento, o lajeado, as pias e as caneluras são como rugas na pele da terra. E aquele pequeno tor? Nestas esculturas que aproveitam fraquezas estruturais como diáclases, a água, o vento, a crioclastia e os seres vivos substituíram o cinzel do artista.

Mas o Barrocal guarda ainda segredos da sua juventude impetuosa. Estão lá, gravados na rocha, os encraves e as evidências de fluxo magmático. São as reminiscências de quando este granito era um rio de magma incandescente em movimento telúrico, a dezenas de quilómetros de profundidade. Ver estas marcas hoje, no silêncio do parque, é um lembrete poderoso da força brutal que nos sustenta os passos.

Esta paisagem, é um palco onde o passado profundo da Terra se torna presente. Olhar para estas formas é perceber que o mundo está em constante mutação, mesmo quando nos parece tão sólido e imóvel como estes barrocos.

III- O mundo vegetal é o manto

Esta transição da pedra nua para a vida pulsante é, no fundo, a vitória da persistência. Onde o olhar menos treinado veria apenas a crueza do granito, a natureza tece uma tapeçaria de uma delicadeza absoluta.

No Barrocal, assistimos a um encontro de geografias. É o abraço entre o domínio continental, personificado pela resistência do Carvalho-negral, e a alma mediterrânica que nos chega no vigor do Sobreiro e na sobriedade da Azinheira. É um território de fronteira, não apenas administrativa, mas botânica.

Caminhar por ali é ser assaltado por aromas que nos devolvem a uma memória ancestral. O Rosmaninho e a Esteva — perfumam o ar, enquanto o Pilriteiro e a Silva oferecem as suas bagas, pequenos tesouros comestíveis.

E depois, há a farmácia natural que brota das fendas: o Hipericão, o Mentrasto… plantas que as nossas avós conheciam pelo nome e pela cura.

A primavera no Barrocal não pede licença; impõe-se. As Giestas, brancas e amarelas (as nossas “Maias”), pintam a paisagem com uma vivacidade que faria inveja a qualquer paleta de pintor. É a cor a triunfar sobre o cinzento da rocha. E no meio desta explosão, surgem os residentes exclusivos: o Codesso e outros endemismos ibéricos, lembrando-nos que este chão é único, irrepetível.

Quem percorre os passadiços e trilhos do parque, atravessa quatro mundos distintos:

1-A sombra cúmplice da floresta mista;

2-O calor aromático dos matos mediterrânicos;

3-O milagre dos charcos de água doce (autênticos oásis de vida microscópica e anfíbia);

4-E a suavidade dos prados naturais, que surgem como tapetes estendidos entre os barrocos.

Esta diversidade botânica não é um mero acaso estatístico. Estes habitats são o resultado de milénios de adaptação. A planta que cresce na fenda do granito não está apenas a sobreviver; está a contar a história da sua resiliência.

No fundo, o Barrocal ensina-nos que a vida é especialista em frestas. Onde o granito parece impenetrável, a raiz encontra o caminho. Não será esta, também, uma bela metáfora para a nossa própria existência?

IV- As Aves que Cruzam o Céu

Entramos agora no domínio do ar, onde a densidade do granito dá lugar à leveza das asas. Se o Barrocal é o esqueleto e a flora é o manto, as aves são, sem dúvida, a alma sonora deste lugar.

Aqui, essa magia acontece no céu, transformando o silêncio das pedras e o leve rumor do vento numa sinfonia de encontros.

Na Primavera, o Barrocal deixa de ser um lugar de contemplação muda para se tornar um palco de galanteio. As aves, conspícuas e vibrantes, preenchem o ar com cantos nupciais, transformando cada fenda de rocha ou ramo de sobreiro num berço potencial. É o triunfo do instinto sobre a dureza da paisagem.

Mas o Barrocal é também uma estação de serviço na grande autoestrada dos céus. Ao longo do ano, o elenco muda, como se o parque fosse um hotel de luxo para viajantes transcontinentais:

Os Passageiros de Outono: Durante a migração, o discreto Papa-moscas-preto faz aqui a sua paragem técnica, recuperando forças para a longa jornada.

Os Residentes de Inverno: Quando o frio aperta na Europa do Norte, o Barrocal acolhe a Petinha-dos-prados, o Tordo-pinto e, claro, o omnipresente Pisco-de-peito-ruivo, que com o seu peito de fogo parece querer aquecer as manhãs gélidas da Beira.

Estas aves, que não conhecem fronteiras nem tratados, ligam o Barrocal a geografias distantes, tornando este parque de Castelo Branco um ponto nodal na teia da vida global.

Olhar para um Pisco sobre um bloco de granito de 310 milhões de anos é um choque de escalas que nos faz pensar: o que é a nossa efémera passagem humana perante a persistência destes ciclos?

Às vezes, basta parar um pouco, deixar o telemóvel no bolso e ouvir. O Barrocal não é apenas para ser visto; é para ser escutado. É um diálogo entre o tempo profundo da geologia e o tempo frenético do bater de asas.

V-O Turno da Luz e a Dança dos Sentidos dos Animais

No Parque do Barrocal, o dia não nasce apenas com o sol; nasce com uma rendição de guardas. Antes mesmo de o primeiro raio de luz beijar o granito frio, há um mundo que se retira. O Noitibó-de-nuca-vermelha, a Coruja-do-mato e o Mocho-galego, senhores da penumbra, recolhem aos seus esconderijos, deixando para trás o eco dos seus voos silenciosos.

É o momento em que os mamíferos — os vultos discretos do Texugo, da Raposa ou do Ouriço-cacheiro — buscam o repouso. Até a Salamandra-comum, com a sua pele de verniz sensível ao rigor do estio beirão, se deixa ficar sob a humidade cúmplice de um tronco ou de um muro de pedra.

E então, o Barrocal acorda para os adoradores do Sol.

O ar, antes mudo, satura-se com a polifonia do Melro-preto, da Cotovia-de-poupa e do Verdilhão. É uma azáfama que nos recorda que a paisagem é um organismo vivo, nunca estático. As borboletas — com nomes tão poéticos como a Borboleta-carnaval ou a Maravilha — iniciam a sua busca frenética pelo néctar, garantindo que o ciclo da vida, esse eterno sortilégio se perpetue por mais uma geração.

No alto, o céu ganha outra densidade. As aves de rapina, como a Águia-de-asa-redonda ou a Águia-cobreira, descrevem círculos de paciência à procura de um deslize entre as giestas. E, num contraste absoluto entre o selvagem e o urbano, as Cegonhas-brancas cruzam o horizonte, ligando os seus ninhos nos telhados da cidade aos campos de alimento.

Esta coexistência é fascinante. O Barrocal é o ponto de encontro entre o tempo geológico, parado na rocha, e o tempo biológico, frenético no bater das asas. É a prova de que a natureza não precisa de grandes florestas impenetráveis para se manifestar em toda a sua glória; basta-lhe este caos granítico, onde cada fenda é uma casa e cada charco um universo.

O Barrocal não é um terreno baldio; é uma reserva de vitalidade que resiste mesmo à sombra dos prédios que o espreitam.


VI-Homem, a Pedra e o Sentido do Sagrado

Houve um tempo em que o homem, ao deparar-se com este caos granítico, não via apenas rocha. Via deuses petrificados, forças telúricas, um alfabeto mágico que exigia resposta. Que mãos gigantes teriam empilhado aqueles barrocos? Perante o inexplicável, nasceu a transcendência. Se nos Barruecos de Malpartida, essa escala monumental nos remete para o misticismo visual de um Kubrick em 2001: Odisseia no Espaço, aqui, no Parque do Barrocal, o sentimento é mais contido, mas igualmente denso.

A litolatria — o culto das pedras — moldou o nosso processo cognitivo. No Barrocal, o sagrado não precisa de catedrais góticas; basta-lhe um templo rupestre ou aquele menir natural onde mãos humanas, há milénios, afeiçoaram pequenas escadas para chegar mais perto do céu.

A arqueologia albicastrense confirma-o: o Barrocal é um lugar paradigmático. Na Pré-história este não era um lugar ermo. Durante o Bronze Final, entre o séc. XIII/XII a.C. e finais do séc. XI/ VIII a.C., o Barrocal teve uma ocupação humana indissociável do local.

O local era ocupado, com cariz prático com o trabalho da terra e nos abrigos nas rochas em simbiose perfeita com santuários rupestres onde se adoravam deuses desconhecidos.

O que hoje chamamos Parque do Barrocal é, na verdade, um último reduto natural da cidade de Castelo Branco. É a parcela sobrevivente de um mar de blocos que outrora abraçava toda a cidade de Castelo Branco.

O tempo, esse escultor implacável tudo dilui, mas a língua resiste e a toponímia preservou nomes como a Barroca dos Castelhanos ou a Barroca das Vespas. São fósseis linguísticos que nos dizem que o homem sempre deu nome ao que temia ou amava.

Localizado a nascente, afastado das muralhas medievais, o Barrocal manteve durante séculos a sua aura de lugar remoto. Enquanto a cidade crescia em pedra e betão, aquele permanecia imóvel, guardando os segredos de quem ali viveu há 30 séculos.

A nossa identidade nacional não se fez apenas de reis e tratados, mas desta continuidade invisível entre o camponês do Bronze e o habitante de hoje que percorre estes trilhos. Ambos olham para o mesmo barroco e, por um breve segundo, partilham o mesmo espanto. O Barrocal é, no fim de contas, o lugar onde o tempo das pedras e o tempo dos homens se reconciliam.

VII-A Paisagem Onde o Olhar se Perde

Do alto do Barrocal, a vista é um privilégio de deuses. À nossa frente, abre-se a vastidão das campinas da Idanha. É ali que a geografia nos prega uma partida: a falha do Ponsul, como um degrau gigantesco esculpido pela tectónica, faz baixar a terra, transformando aquela campina num espelho do que encontramos a sul do Tejo. É a Beira a querer ser Alentejo, numa horizontalidade que descansa o espírito.

Mas se voltarmos o olhar para as proximidades, a verticalidade impõe-se. Vêem-se as cristas quartzíticas de Castelo Branco — o Castelo e o morro de São Martinho — como sentinelas de pedra que guardam a cidade. E o horizonte não termina aí. Mais além, desenham-se em cristas sucessivas: Monforte, as Portas de Ródão (onde o Tejo se faz pequeno perante a rocha), Penha Garcia e, lá ao fundo, a Serra de São Mamede e a espanhola Sierra de San Pedro. É o triunfo do quartzito, essa pedra teimosa que se recusa a desaparecer com a erosão.

A oeste, o cenário muda de tom. Ergue-se a Cordilheira Central, a espinha dorsal da nossa terra. A sul e a este do Zêzere, o relevo suaviza-se, mas mantém a sua majestade na Serra da Gardunha, com os seus 1227 metros de altivez, e na Serra de Alvelos. Ali, o Cabeço da Rainha vigia os concelhos de Oleiros, Sertã e Proença-a-Nova, recordando-nos o que Ribeiro chamava de “mar de cabeços” de xisto, onde a vida se faz com esforço e paciência.

Esta paisagem não é apenas cenário; é a nossa casa comum. Ao olhar para esta imensidão, percebemos que Castelo Branco não é apenas uma cidade; é o ponto de equilíbrio entre a dureza da cordilheira e a paz da campina. O Barrocal no presente, preservá-lo é garantir que o futuro possa, também ele, continuar a ler este livro aberto de ciência e sentimento.

VIII- O fim e o início dos ciclos

Chegados aqui, percebemos que o Parque do Barrocal não é apenas um espaço verde ou um capricho do urbanismo moderno. É, antes de mais, um ato de resistência, estas pedras erguem-se como o último reduto da nossa autenticidade. É o lugar onde a cidade de Castelo Branco se reencontra com a sua matriz mais profunda, aquela que não se apaga com o betão.

Ao percorrer estes trilhos, não estamos apenas a fazer turismo; estamos a honrar a mão que esculpiu os degraus no menir há três milénios e a respeitar o voo da águia que hoje vigia o mesmo horizonte. A preservação deste espaço é a nossa vitória contra o esquecimento. É a prova de que a inteligência humana pode, finalmente, abraçar a força da natureza sem a querer destruir.

O Barrocal é uma lição de continuidade. Se o granito levou milhões de anos a cristalizar e as aves cruzam estes céus em ciclos sem fim, a nossa responsabilidade é garantir que o amanhã não seja um deserto de significados. A paisagem é o reflexo da alma de um povo. E a alma da Beira, tal como este parque, é feita de uma dureza que protege uma imensa delicadeza.

Que o Barrocal continue a ser essa chave que abre as portas do nosso espanto. Que cada visitante, ao sentir o calor da pedra ao fim do dia, perceba que faz parte de algo muito maior: uma história escrita em magma, cinzelada pelo tempo e guardada, agora, pela nossa própria humanidade. Afinal, as pedras não são mudas; elas apenas esperam que tenhamos o silêncio necessário para as ouvir.

Notas adicionais- Site do Parque do Barrocal

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