Sortelha: A Sentinela Medieval
Para quem tem o passo apressado mas não quer deixar de conhecer a alma desta aldeia, aqui fica o essencial de Sortelha em 11 pontos rápidos:
Uma Vista de Gigantes: Do topo das muralhas, avistas um Portugal de contrastes: o frio da Serra da Estrela, a fertilidade da Cova da Beira e o início do horizonte mediterrânico do Sul. A 760 metros de altitude, onde o ar é mais fino e o silêncio mais pesado, esta aldeia não é apenas um conjunto de casas de granito. É uma sentinela que se esqueceu de sair do posto.
Uma Sentinela de Granito: Situada a 760 metros de altitude, foi desenhada para ser uma fortaleza inexpugnável na defesa da fronteira contra os reinos de Leão e Castela e contra o Sabugal, que pertencia anteriormente ao reino Leonês e Castelhano.
O “Anel” de Pedra: O nome Sortelha parece vir de sortija (anel), uma alusão tanto ao formato oval das suas muralhas como a antigos jogos medievais de cavalaria ou escolha das parcelas agrícolas (“tirar às sortes”).
Tempo Cristalizado: Ao contrário de outras vilas que cresceram e mudaram, Sortelha “parou” no século XVI. O que vês hoje é um retrato de uma vila medieval e manuelina.
O Castelo Roqueiro: É um dos mais puros castelos românicos de Portugal, construído diretamente sobre o granito, fundindo a obra do homem com a da natureza.
Segurança Máxima: A entrada principal tem um balcão de matacães (a Varanda de Pilatos), de onde se lançavam pedras e líquidos a ferver sobre quem tentasse entrar sem convite.
As Medidas da Honestidade: Na ombreira da Porta Nova, ainda podes ver os sulcos da “vara” e do “côvado”, usados nos mercados antigos para garantir que ninguém era enganado no tamanho dos tecidos.
O Beijo Eterno: Duas rochas gigantescas (os penedos do beijo) guardam a lenda de uma princesa cristã e um príncipe mouro que foram petrificados por um feitiço de uma mãe bruxa.
Herança Manuelina: Espalhados pela aldeia, encontras brasões com a esfera armilar e o escudo real, marcas deixadas por D. Manuel I quando renovou o foral em 1510.
Refúgio de Foragidos: No século XIV, para combater o despovoamento, a vila foi um “couto de homiziados”, um lugar onde quem tinha problemas com a justiça podia recomeçar a vida.
Aldeia Histórica de Portugal: É uma das 12 Aldeias Históricas de Portugal- Aldeias Fortificadas históricas na fronteira de Portugal entre os rios Douro e Minho.
Classificada como Aldeia Histórica de Portugal em 1994, ela faz parte de um restrito “clube” de dez povoações que, durante séculos, foram os dentes da nossa fronteira. Imagine-se a vida aqui, entre o Douro e o Tejo, numa região onde a geografia não deu grandes ajudas. Não há rios em canhão nem montanhas intransponíveis a separar-nos de Espanha. Aqui a fronteira, essa linha invisível e tantas vezes traiçoeira, era defendida por homens e por estas pedras.
Sortelha nasceu com um propósito claro: vigiar Leão. Antes do Tratado de Alcanices, em 1297, a fronteira passava ali mesmo ao lado, no rio Côa. Do alto deste cabeço, olhava-se de frente para o castelo leonês do Sabugal. Era um jogo de xadrez em tamanho real, onde o granito era o tabuleiro e as peças eram as vidas de quem lá morava.
E que granito! Em Sortelha, a pedra é tudo. Constrói casas, igrejas e o castelo; pavimenta as ruas estreitas e, aqui e ali, funde-se organicamente com a rocha natural. A malha urbana não luta contra o terreno; ela abraça-o, adaptando-se maravilhosamente às irregularidades do solo. A muralha medieval do século XIV fecha este mundo, criando uma cápsula onde o tempo parece ter decidido tirar uma sesta prolongada.
Houve ainda umas pinceladas manuelinas e uns retoques no século XVII, mas a verdade é que, a partir daí, Sortelha perdeu o seu fulgor militar. O burgo cristalizou. O que para os estrategas da época foi uma decadência, para nós, hoje, é uma bênção.
É um lugar para ir sem pressas. No fundo, Sortelha é Portugal na sua forma mais pura: resistente, orgulhoso e profundamente belo.
Origem da toponímia- Sortelha
toponímia de Sortelha é um novelo de lã onde a história e a lenda se enrolam com uma vontade férrea de nos confundir. Não há certezas absolutas, apenas trilhos que a memória foi deixando.
No foral de 1228, outorgado por D. Sancho II — um rei que a história maltratou, mas que aqui deixou marca —, o nome surge como Sortilia. Já soa a algo antigo, a pedra lavrada.
Dizem uns, com o romantismo que o granito inspira, que o nome vem de Sortija ou Sortela. Um anel, portanto. Mas não um anel qualquer de dedo fino. Seria o anel de um jogo medieval de cavalaria, onde os cavaleiros, no galope da sua vaidade e destreza, tentavam enfiar a lança. É uma imagem mental poderosa: o som dos cascos no empedrado e o brilho do metal a procurar o alvo.
Outros, com o olhar mais preso ao chão, olham para a muralha. O traçado do aglomerado urbano é oval, quase um anel circular que aperta o cabeço granítico. É a geografia a desenhar o nome na própria pele da terra. Uma forma anelada que protege quem lá mora.
Claro que a ciência etimológica, sempre mais pragmática e menos dada a festas de cavalaria, aponta para outra direção. A hipótese que colhe mais peso académico é a de que derive do termo medieval sortícula. Tratava-se de uma pequena parcela agrícola, um pedaço de chão que a sorte — ou a partilha — destinava a alguém. É a raiz da terra, o sustento que vinha antes da glória das armas.
Mas convenhamos, para quem sobe estas ruas, Sortelha rima com sortilégio. É quase impossível não sentir o feitiço. O anel, esse, lá continua, firme no brasão da aldeia, como se quisesse garantir que a lenda nunca perca para a burocracia das definições.

Sortelha na Pré-história
A origem de Sortelha é um enigma.
No afloramento granítico que sustenta o campanário, encontramos umas “covinhas” intrigantes — as fossetes. Para muitos, são marcas de mãos humanas em busca do sagrado; para outros, apenas o resultado do génio caprichoso da erosão. Se tentarmos manter a racionalidade num lugar que convida tanto ao misticismo, podemos dividir as hipóteses em três caminhos:
Primeiro, a explicação da terra. Na geomorfologia do granito, estas cavidades têm o nome sugestivo de “pias”. Podem ser puramente naturais, esculpidas pela paciência da água e do vento, ou talvez formas naturais que o ser humano decidiu “corrigir” e afeiçoar para um uso qualquer.
Depois, temos a tese do quotidiano. Há quem veja nelas utensílios rudimentares para moer cereais ou armazená-los por breves instantes. É uma ideia prática, embora esbarre na pouca profundidade destas marcas, que mal chegariam para uma merenda farta.
Por fim, entramos no domínio do espírito. A hipótese de terem servido para atos religiosos pagãos, em tempos pré-cristãos, transforma aquele rochedo num altar. Olhando em redor, o cenário ajuda à crença: o monólito ciclópico da “Cabeça da Velha” — que parece vigiar-nos com um rosto de pedra — e as “Pedras do Beijo” sugerem espaços de uma antiga litolatria, onde a rocha não era apenas matéria, mas uma divindade a quem se prestava culto.
Nas terras que rodeiam a freguesia, os sinais são claros. Encontraram-se vestígios que recuam às idades do Bronze e do Ferro, além de materiais que denunciam a presença romana na região. No entanto, o “alto” de Sortelha — aquele promontório onde hoje o castelo domina o horizonte — guarda um silêncio teimoso sobre esses tempos mais recônditos. Até agora, nada se encontrou lá em cima que nos permita traçar uma linha contínua até à pré-história.
Mas o passado tem formas subtis de se manifestar. Se o solo do cabeço se cala, as pedras dos templos falam. A peça mais célebre deste período é uma ara romana, descoberta curiosamente no muro da Igreja de Nossa Senhora das Neves.
Esta ara é uma espécie de bilhete de identidade espiritual. Está dedicada a Vordio Talaconio, uma divindade local. Foi consagrada por um cidadão de nome Marcus Cornelius conforme as leituras mais atentas dos especialistas (Osório, 1999) e por acaso até existe próximo o Monte Cornélio, com uma antiga ermida.
Ara votiva de granito da região, foi identificada em Junho de 1997, nas obras de reabilitação muro do adro da Igreja de Nossa Senhora das Neves, em Sortelha durante os trabalhos de acompanhamento arqueológico no Centro Histórico de Sortelha. Atualmente, encontra-se guardada na Câmara Municipal do Sabugal. (1)

Sortelha na Idade Média
D. Sancho I, o Povoador, não deu o nome ao cargo por acaso. Em 1187, mandou ocupar este cabeço de granito, onde é muito provável que o vento já soprasse sobre as cinzas de povoações mais antigas.
A vida administrativa, essa coisa de leis e papéis para organizar o caos da fronteira, ganhou corpo com D. Sancho II, que lhe deu o primeiro foral em 1228. Mais tarde, já com a Renascença a bater à porta e o estilo Manuelino a querer decorar as pedras brutas, D. Manuel I renovou as regras do jogo com um foral novo em 1510.
Mas o senhor absoluto aqui é o castelo roqueiro orgânico. A a sua missão era vigiar a “raia”, essa linha que então passava ali mesmo ao lado, no rio Côa. Do outro lado do rio, o mundo era outro: era o Reino de Leão.
E por falar em vizinhos, temos o Sabugal. Diz Pinho Leal que foi fundado por Afonso IX de Leão por volta de 1224. Imagine-se a tensão: dois castelos, dois reis, um rio no meio e uma vontade mútua de não ceder um palmo de terra.
E sempre o rei dom Dinis
O Sabugal só se tornou “nosso” em 1282, e não foi pela força das armas, mas pelo menos pelo contrato. Veio no dote da Rainha Santa Isabel quando casou com D. Dinis.
O “Rei Lavrador”, deu foral a Sabugal em 1296 e mandou levantar um castelo com uma torre de menagem pentagonal, altíssima, que ainda hoje parece querer espreitar o que se passa em Sortelha.
É curioso pensar que estas pedras, hoje tão silenciosas e visitadas por turistas de máquina fotográfica ao peito, foram outrora o limite entre dois. Uma fronteira feita de uma vigilância constante sobre as águas do Côa.
Sortelha e o olhar de D. Dinis são indissociáveis. Em 1285, o “Rei Lavrador” — que aqui foi mais arquiteto de guerra do que semeador de trigos — mandou reconstruir o castelo e levantar a muralha que ainda hoje abraça o burgo.
Mas a política tem destas ironias. Por labor do rei e dos seus validos, o mapa mudou no dia 12 de setembro de 1297, com a assinatura do Tratado de Alcanices. Foi um “xeque-mate” diplomático. Portugal esticou o braço para lá do rio Côa e agarrou o território do Riba-Côa. De um momento para o outro, castelos que antes nos olhavam de lado, como o Vilar Maior, Almeida, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Castelo Bom, e San Felice de los Galegos passaram a falar português. Até Olivença, Ouguela e Campo Maior entraram nesta dança de fronteiras. De acordo com o estabelecido nesse tratado, o rei desistia da posse de Aiamonte, Esparregal, Valência e Aracena.
O Tratado foi o triunfo da visão estratégica de Dinis sobre a confusão interna de Castela. Mas, para Sortelha, o sucesso do rei foi o início da sua reforma antecipada. Ao ganhar o Riba-Côa, D. Dinis empurrou a fronteira para longe. A aldeia, que vivia da adrenalina de ser o primeiro bastião de defesa, viu-se subitamente na retaguarda.
D. Dinis ainda tentou dar-lhe um novo fôlego. Em 1306, concedeu-lhe Carta de Feira, tentando substituir o som das espadas pelo burburinho das trocas comerciais. Queria transformar o posto militar num centro de vida.
No entanto, o destino estava traçado nas pedras: afastada da linha de fogo, a importância estratégica de Sortelha começou a murchar. Tornou-se uma sentinela que já não tinha ninguém para vigiar de perto. Ficou ali, entre o céu e o granito, a ver a história passar ao largo, protegida pelo próprio isolamento que a preservou até aos nossos dias.
A geografia é, muitas vezes, o destino de um lugar. Por estar a meros cinco quilómetros do Sabugal, Sortelha viveu décadas de braço de ferro com a vizinha pela definição dos seus limites. Era a velha questão de saber onde acabava o meu quintal e começava o teu. Esta contenda, que decerto deu azo a muitas discussões à beira do caminho, só foi resolvida em 1341 por D. Afonso IV. O “Bravo” sentenciou a paz usando o curso do rio Côa como régua natural para separar as jurisdições.
Mas não bastava ter terra; era preciso ter gente. E Sortelha, já então, sentia o fantasma do despovoamento.
Em 1377, o concelho, pediu a D. Fernando as mesmas mercês de que gozavam o Sabugal e Castelo Rodrigo. O rei, num gesto de oxigenação fiscal, isentou os moradores da vila do pagamento de fintas e talhas. Basicamente, deu-lhes um alívio nos impostos para que a vida entre aquelas pedras fosse menos dura.
A medida mais drástica veio dois dias depois. Para combater o vazio das casas, D. Fernando transformou Sortelha num couto de homiziados. O que é isto? No fundo, era um “perdão” real: quem tivesse contas a ajustar com a justiça (os chamados homiziados, incluindo os que andavam fugidos em Castela) podia estabelecer-se ali e recomeçar a vida sob proteção régia. A aldeia tornou-se um refúgio de homens rudes em busca de uma segunda oportunidade.
Para fechar este pacote de sobrevivência, o monarca confirmou ainda a isenção de portagens e costumagens em todo o reino. Era o “livre trânsito” da época, um privilégio que já vinha dos tempos de D. Sancho II e que permitia aos homens de Sortelha circular e negociar sem deixar moedas em cada barreira alfandegária. Durante as guerras Fernandinas, o rei deve ter remodelado a cerca defensiva.

E sempre o rei o dom Manuel I
Com a subida ao trono de D. Manuel I, Sortelha ganha um novo fôlego estético e administrativo. Em 1510, o rei renova a carta de foral e, com ela, chega o perfume da modernidade da época. O castelo recebe benefícios, e erguem-se os símbolos do poder local: o pelourinho, esguio e autoritário, e a Casa da Câmara.
Esta última é um retrato fiel dos tempos: no piso superior, decidia-se o destino da comunidade; no piso térreo, a prisão lembrava aos mais incautos que a lei tinha dentes. É a justiça e o governo sob o mesmo teto.
As marcas desta era estão por todo o lado, como se o rei tivesse querido deixar a sua assinatura pessoal na aldeia. Se levantarmos os olhos, encontramos os brasões manuelinos no castelo e na fachada da Câmara. Até na Igreja Matriz o rei marcou território: lá estão a esfera armilar — aquele instrumento náutico que se tornou o logótipo de um império e o seu símbolo — e o escudo português, reafirmando que, mesmo ali na Beira, o reino estava ligado aos confins do mundo.
É uma Sortelha que se enfeita, pela elegância da pedra lavrada. Estas pedras não são apenas construção; são propaganda real, mostrando que o poder central chegava até ao mais remoto cabeço rochoso.
O conde de Sortelha
O século XVI trouxe a Sortelha uma nova dignidade: a de Condado. Em 1531, D. João III elevou a vila a esta categoria para recompensar um dos homens mais sofisticados do seu tempo, D. Luís da Silveira.
Imagine-se a figura: Luís não era apenas um político; era um poeta — com rimas gravadas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende — e um negociador de mão cheia. Foi ele quem costurou o casamento de Carlos V com a infanta D. Isabel, irmã do rei. Quando voltou dessa missão diplomática de alto risco, trazia o título de Conde de Sortelha na bagagem.
Mas a vida na corte tem as suas sombras. Por razões que a história não explica totalmente, este homem influente, Guarda-mor e Vedor das obras públicas, decidiu trocar o brilho de Lisboa pelo isolamento de Góis. Ali, tornou-se um verdadeiro mecenas. Ergueu ponte, capela e remodelou a Igreja Matriz, onde hoje descansa num dos mais belos túmulos da Renascença portuguesa, esculpido na macia pedra de Ançã. Foi um homem que, até no último desejo, quis superar a concorrência: deixou escrito que o seu túmulo deveria ser superior em qualidade ao de qualquer outra figura da época. A vaidade, afinal, também é eterna.
A linhagem dos Silveiras não era coisa de pouca monta. O sangue vinha de longe, de D. Aniara da Estrada, que recebeu o senhorio de Góis ainda no tempo de D. Afonso Henriques e D. Teresa. Antes de haver condes, já havia homens como Nuno Martins da Silveira, que escrevia os segredos de D. Duarte como Escrivão da Puridade.
O título passou depois para o filho, D. Diogo da Silveira, o 2.º Conde. Diogo foi um homem de continuidade, servindo três reis (de D. João III, D. Sebastião e do cardeal D. Henrique).
A Casa dos Condes de Sortelha tinha e mandava num espólio interessante. Em Góis, palacetes em Lisboa, quintas como a da Pipa ou de Calhariz. Mantinham um pé na terra e outro no céu, administrando capelas e mantendo vínculos estreitos com mosteiros em Xabregas e Évora.
Contudo, nada dura para sempre. Em 1617, o Condado de Sortelha extinguiu-se. O título desapareceu, mas o nome ficou para sempre cravado na história da vila.
Sortelha na Guerra da Restauração e nas Invasões Francesas
A Guerra da Restauração, entre 1640 e 1668, foi aquele momento em que Portugal teve de voltar a olhar para as suas velhas cicatrizes de pedra com olhos de urgência. Sortelha, que andava a dormitar numa reforma dourada desde o Tratado de Alcanizes, viu-se subitamente sacudida pelo som dos tambores.
O castelo, que o tempo e o abandono tinham começado a desgastar, foi requalificado. Era preciso dar dentes à montanha outra vez. A 760 metros de altitude, a vila deixou de ser apenas um burgo pitoresco para voltar a ser o que o granito lhe destinou: um ponto de observação implacável. Dali, o horizonte não é uma paisagem, é um mapa de ameaças.
Não se pense que Sortelha foi palco de uma daquelas batalhas campais épicas, com milhares de homens a perderem-se nos vales. A guerra aqui era outra. Era uma dinâmica de incursões, de vigia constante, de pequenos confrontos na “raia” que exigiam que esta sentinela da Beira Interior estivesse de olhos bem abertos contra as tropas de Castela.
A Terceira Invasão Francesa trouxe a Sortelha o amargo sabor do fim de festa — mas que festa terrível foi essa e do alto das suas muralhas, talvez se visse o fumo dos canhões. No dia 3 de abril de 1811, a Batalha do Sabugal selou o destino das tropas de Napoleão em solo português. Foi o “xeque-mate” num tabuleiro de lama, sangue e nevoeiro.
Depois do fracasso estrondoso frente às Linhas de Torres Vedras, o Marechal Massena bateu em retirada. Imaginem milhares de homens famintos e desmoralizados arrastando-se em direção a Espanha, numa fuga pontuada por escaramuças constantes. O clímax aconteceu nas margens do Rio Côa, ali mesmo ao lado, no sítio do Gravato.
O General Reynier, que comandava o 2.º Corpo francês, foi apanhado de surpresa pelas divisões anglo-lusas de Wellington. O cenário parecia saído de um romance trágico: uma manhã de nevoeiro tão cerrado que mal se via a ponta da baioneta. A Divisão Ligeira britânica não quis saber do clima; atravessou o rio e caiu sobre as posições francesas com uma fúria decisiva. Reynier ainda tentou resistir, mas a derrota foi inevitável. Os franceses deixaram para trás cerca de 760 homens.
Esta vitória aliada foi o empurrão final. Massena não teve alternativa senão cruzar a fronteira para Ciudad Rodrigo e dizer adeus a Portugal.
Mas a glória militar tem sempre um reverso sombrio. Para aldeias como Sortelha, a passagem destas tropas em retirada foi um pesadelo vivo. Não houve batalhas dentro das muralhas, mas houve algo quase pior: o saque sistemático. A volta de Sortelha as colheitas foram destruídas, os celeiros vazados e, num golpe de misericórdia contra a memória local, os arquivos foram reduzidos a cinzas. Sortelha ficou nua, sem comida e sem os papéis que contavam a sua história.
Hoje, entre Alfaiates e Aldeia da Ponte, um monumento recorda as vítimas desses dias de ferro e fogo. Sortelha sobreviveu, como sempre, agarrada ao seu granito, mas as feridas de 1811 ficaram gravadas na alma da gente da Beira. Foi o último grande suspiro de um império que tentou dobrar esta raia e acabou por quebrar nela.

A extinção do concelho de Sortelha até ser uma Aldeia Histórica de Portugal
O final do século XIX trouxe a Sortelha um golpe de caneta que doeu mais do que muitas batalhas. Em 1885, por um decreto de 24 de outubro, a autonomia que vinha dos tempos de D. Sancho II foi-se. Sortelha, tal como Castelo Mendo e Vilar Maior, viu o seu concelho ser extinto e o seu destino passar a ser decidido no Sabugal.
No entanto, o tempo tem formas curiosas de fazer justiça. Se a política lhe tirou os poderes, o património deu-lhe a imortalidade. Em 1910, o seu castelo — aquele guerreiro de granito que nunca se rendeu — foi classificado como Monumento Nacional. Era o reconhecimento de que aquelas pedras não eram apenas velhas, eram sagradas para a memória do país.
Mas a glória não enche a barriga, nem trava o abandono. Durante décadas, Sortelha foi-se esvaziando, tornando-se uma sombra de si mesma, quase moribunda sob o peso do esquecimento e da emigração. Parecia condenada a ser uma ruína bela, mas muda.
A salvação chegou em 1994. Com a criação do programa das Aldeias Históricas de Portugal, Sortelha foi redescoberta. As casas foram recuperadas, as ruas limpas e a dignidade devolvida. Não foi apenas uma obra de restauro; foi um ato de respiração assistida que permitiu à aldeia voltar a ter um futuro.
Sim, foi o turismo que lhe lançou a boia de salvação. Entre muralhas, a vida doméstica quase se extinguiu; o que resta são janelas fechadas. Já cá fora, na “Sortelha nova”, o cenário muda: surgem casas modernas, algumas delas alimentadas diretamente pelo fluxo de quem visita Sortelha
Aquela imagem pitoresca dos “lagartixos” — os antigos moradores que, no rigor dos invernos beirões, saíam de casa para “beber” o sol e aquecer a alma junto às pedras — faz agora parte de um álbum de memórias que não volta. Hoje, quem se aquece ao sol são os turistas, máquinas fotográficas em riste, que dão algum oxigénio à economia local enquanto percorrem o empedrado.
O Castelo e a Muralha da Vila medieval de Sortelha
Quando queremos encontrar o paradigma da vila medieval fortificada em Portugal, o pensamento voa, quase sem resistência, para Sortelha. É a imagem mental perfeita: um castelo que não apenas domina a paisagem, mas que serviu de semente a um povoado que cresceu à sua sombra, protegendo-se com uma cerca muralhada e torres de vigia — como a do Facho — para garantir que o jovem reino português não perdesse o fôlego perante as ameaças da raia.
Estamos perante um dos exemplares mais puros do românico militar português. Não há aqui artifícios desnecessários; há a crueza e a elegância da pedra que cumpre a sua função.
Para entrar no recinto interior, temos de passar por uma porta que impõe respeito, guardada por um belíssimo balcão de matacães. O povo, sempre criativo, chama-lhe “Varanda de Pilatos” ou “do Juiz”. Era dali que, num último recurso de hospitalidade hostil, se lançava de tudo sobre os assaltantes, desde pedras a líquidos a ferver, aproveitando o ângulo de disparo vertical. Mais tarde, no século XVI, o castelo teve de se modernizar para não ser atropelado pela história e as muralhas ganharam troneiras, adaptando-se ao rugido das armas de fogo.
Lá dentro, este castelo roqueiro é uma autêntica lição de “didatismo medievo”. Tudo o que lemos nos livros de História está ali, ao alcance do toque: a cisterna silenciosa que garantia a vida em tempo de cerco; a Torre de Menagem, orgulhosamente inacessível e isolada das muralhas, com a sua porta elevada que obrigava a usar escadas de madeira; as seteiras que espreitam o horizonte e a porta falsa, pensada para fugas discretas ou ataques surpresa.
As muralhas moldam-se, num abraço orgânico, aos afloramentos graníticos, aproveitando cada pilar natural para erguer a defesa. No século seguinte à fundação do castelo, a cerca da vila completou o conjunto, permitindo que os moradores se se recolhessem e protegessem — dentro daquele anel de granito.
Para entrar em Sortelha, o ritual começa na Porta da Vila. O seu arco quebrado e as arestas biseladas são o cartão de visita de uma estética que não precisa de adornos para ser nobre. Se pararmos um pouco e deixarmos os olhos correrem pelo granito, descobrimos um exército silencioso de pedras sigladas — marcas deixadas pelos pedreiros medievais, como se fossem autógrafos de quem, há séculos, domesticou a rocha.
A lenda dos amantes petrificados
Antes de atravessar a porta, repare-se a esquerda duas pedras a beijarem-se e que deu origem a uma lenda negra.
Diz a voz do povo que, nos tempos em que a Reconquista desenhava a ferro e fogo as fronteiras das Beiras, Sortelha era governada por um alcaide cristão. A sua esposa, vulto misterioso e sombrio, era tida por bruxa ou fada, senhora de artes ocultas. Tinham uma filha de uma beleza tão solar que parecia impossível ter nascido entre pedras tão frias. Estava prometida a um nobre da região, mas o destino, como se sabe, às vezes não lê os contratos dos pais.
Quando os mouros cercaram o castelo, o perigo trouxe consigo o proibido. Entre as vigílias do cerco e os olhares lançados por cima das ameias, a donzela e o príncipe mouro apaixonaram-se. Era um amor que florescia no intervalo dos gritos de guerra. Trocavam mensagens e presentes em segredo, alimentando uma paixão que pretendia ser mais forte que a fé ou a linhagem.
Mas a mãe, com os seus sentidos apurados pelo feitiço, vigiava. Numa noite de lua, os amantes marcaram o seu primeiro encontro. No momento em que se entregavam ao primeiro beijo, a mãe surgiu das sombras. Ergueu o braço num gesto terrível e o feitiço estalou no ar: o casal não fugiu, nem morreu — cristalizou. No lugar da carne e do osso, surgiram dois penedos de granito, unidos para sempre num abraço mineral.
Diz-se que os mouros, sem o seu príncipe, levantaram o cerco e partiram. O alcaide, com o coração desfeito, terá fundado uma nova povoação no vale, incapaz de encarar diariamente o castigo pétreo da filha. Hoje, quem sobe à muralha ainda encontra as Pedras do Beijo Eterno, testemunhas mudas de que, em Sortelha, até os sentimentos mais fugazes acabam por se tornar eternos como a rocha.
Ao atravessar este umbral, somos recebidos por um casario com uma harmonia de pedra que nos faz sentir, de imediato, que o tempo ali tem outra densidade.
O coração da aldeia pulsa ao longo do seu eixo principal. Tudo começa no Largo do Curro, um espaço que guarda ecos de festas antigas e de touradas “à vara larga”, onde o povo se amontoava para ver a valentia dos homens frente ao bicho. É um largo que respira, dominado por um enorme e majestoso lodão. O pobre da árvore, coitado, bem pede água para manter aquela copa de respeito, mas não precisa de procurar longe: ali ao lado, o velho poço recorda-nos que, nesta aldeia altaneira, a água de nascente nunca foi um luxo, mas uma presença fiel.
Deste largo parte a Rua da Fonte, que depois se prolonga pela Rua Direita. É a espinha dorsal de Sortelha, um caminho de pedra que nos conduz, num passeio fluido, entre a Porta Nascente e a Porta Nova. Esta última, aberta com confiança, vira-se para o horizonte da Serra da Estrela e para outro domínio paisagístico.
No coração da aldeia, o cenário é de uma harmonia rara. O pelourinho coroado pela esfera armilar, a Casa da Câmara e a Igreja Matriz — que esconde um teto mudéjar — estruturam o burgo. O casario vai-se espalhando em pequenos largos ao longo da Rua Direita, num desenho urbano que parece ter sido feito para ser descoberto devagar.
Na porta Nova é aqui que a história se faz medida. Se passarmos a mão pelas suas ombreiras, sentimos os sulcos gravados no granito — o côvado (66 cm) e a vara (110 cm). Eram as “fiscais” de outrora, onde os mercadores de panos mediam as suas peças para provar que a honestidade era tão firme como a rocha.
Era nesta zona que o mercado medieval ganhava vida. Ainda hoje, as pias artificiais esculpidas no solo e a calçada medieval, conservada, nos permitem imaginar o burburinho de trocas que ali acontecia. Fora de portas, o tempo foi menos clemente: restam apenas vestígios de monumentos desmantelados, como a antiga Igreja de São João e o Hospital da Misericórdia, memórias de uma assistência que já não mora ali.
A paisagem de Sortelha
Mas é a paisagem é uma visão comovente, selvática e rude, onde o granito manda em tudo. Sortelha é um estímulo à meditação; um lugar onde o silêncio ajuda a pensar na própria essência do país.
Olhando do alto desta sentinela, no extremo das serras da Malcata e da Gata, percebemos que Portugal não é um bloco único. Existe um país do litoral, atlântico e verde; um interior norte isolado; e o Sul, de horizontes largos e sol mediterrânico. Sortelha está no limite, num ponto de transição onde o mundo românico do Interior Norte espreita as influências mediterrânicas do sul.
Lá de cima, vigiados pela enigmática Cabeça da Velha, o olhar perde-se numa geografia de gigantes: a Serra da Estrela na margem direita do fosso tectónico do rio Zêzere com a fertilidade da Cova da Beira e a silhueta da na margem esquerda do dito rio que é Serra da Gardunha.
Sortelha é, talvez, um bom lugar para percebermos que Portugal é muito mais do que um retângulo num mapa; é um diálogo milenar entre a montanha e a planície.
Textos variados sobre Sortelha
Texto de Júlio Gil, retirado do livro “As Mais Belas Vilas e Aldeias de Portugal”-Editorial Verbo
“Ao redor a pedra granítica domina a paisagem, dando pouco lugar a limitadas manchas de centeio e pequenos soutos apertados por barrocos. Lá para baixo os, os verdes do vale estreito. Sobre uma escarpa vertical, dominador, romântico, o castelo. Aqui não há grandes casas- mesmo as brasonadas são de dimensão modesta e tocante simplicidade, perfeitamente integradas num conjunto de excecional valor decorativo devido ao indiscutível valor desta gente. Em cada momento se encontram motivos de graça e espírito – uma porta, uma pequena escada, um brasão, um altar, o Pelourinho…Da praça entramos diretamente no castelo, numa sequência de identidades que não permite entender-se quem inspirou a quem, tal a harmónica integração de formas.
À beira do Pelourinho- com um arco no capitel, relacionado talvez com o topónimo Sortelha, que significaria “anel ”-ergue-se um sino sobre o beirado da Junta de Freguesia, velha casa da Câmara, deliciosa e sóbria arquitetura de reduzidas dimensões, parapeito lajeado na varanda de entrada, lojas semienterradas, miúdas vidraças nas janelas de guilhotina. Domina o encantador largo para o qual também se volta outra antiga fachada de idêntico carácter. A austeridade arquitetural da igreja matriz contrasta com o seu precioso teto mudéjar e mais com o decorativismo barroco do altar-mor. Se tudo na povoação é espantosamente sóbrio e severo, acrescentando ainda por mais sobriedade e severidades neste cerco de fragas mulltiformes – onde nem faltam perfis que estimulam a identificações, caprichos graníticos -, tudo é também paradoxalmente terno, acolhedor, lírico”.1
Texto de José Saramago- Viagem a Portugal – Editorial Caminho, 1981 “De Belmonte (**) vai o viajante a Sortelha por estradas que não são boas e paisagens que são de admirar. Entrar em Sortelha é entrar na Idade Média, e quando isto o viajante declara não é naquele sentido que o faria dizer o mesmo entrando, por exemplo, na Igreja de Belmonte (2), donde vem. O que dá carácter medieval a este aglomerado é a enormidade das muralhas que o rodeiam. A espessura delas, e também a dureza da calçada, as ruas íngremes, e, empoleirada sobre pedras gigantescas, a cidadela, último refúgio de sitiados, derradeira e talvez inútil esperança. Se alguém venceu as ciclópicas muralhas de fora, não há-de ter sido rendido por este castelinho que parece de brincar”.
Texto de Alexandre Herculano-Apontamento de Viagem, 28 de Agosto de 1853– Círculo de Leitores. “Visita à vila contida dentro da cerca. Calçada que sobe por entre ela do arrabalde: à direita rochedos enormes sobrepostos uns aos outros; à esquerda despenhadeiros para um valeiro profundíssimo, entra-se a porta da cerca: à esquerda fica o castelo edificado sobre picos de rocha: é um pequeno recinto de forma oblonga: a vila fica em anfiteatro para a direita numa altura superior ao castelo: o muro que a cerca é torreado e vem prender com o do castelo: o agregado de penedias sobrepostas umas à outras em que este assenta é semelhante a um pão de açúcar: tem penedos de mais de três braças de alto. Sobre a porta um balcão com um buraco para lançar matérias inflamáveis, etc. Ficamos no arrabalde: à noite tomo notas. Na ombreira de uma das portas da cerca a medida de vara e côvado”.
Memórias Paroquiais de 1758
As Memórias Paroquiais do antigo concelho de Sortelha, baseando-se num inquérito enviado em 1758 pelo Marquês de Pombal a todas as freguesias do reino para serem respondidas pelos párocos.
Memórias Paroquias
1 – Fica esta villa de Sortelha na provincia da Beira, bispado da Guarda, comarqua de Castello Branco termo da mesma villa freguezia de Santa Maria das Neves, e esta he orago da matris igreja; que tem dentro de seus muros.
2 – Algum dia era esta Comenda de Santa Maria das Neves Condado, e ainda o era no tempo dos Senhores Reis Felipes, quando este reino estava sugeito a Espanha, e de prezente se acha o Padroado Real, e não tem outro Senhorio, mais que Sua Magestade que Deos guarde, e o he de prezente.
3 – Tem esta freguezia duzentos, e onze fogos; pessoas maiores quinhentas, e trinta, e nove; e menores cento, e vinte e duas; ignocentes cento e trinta.
4 – Está situada esta dita villa, em o cume de hum monte, agreste por todas as partes, só pela do nacente não he tam greste,como pelas outras.
Desta dita villa se avistão as povoaçois seguintes: a villa da Covilhan que dista desta coatro legoas, a villa de Belmonte, que dista duas legoas, a villa de Monsanto, que dista cinco para seis legoas; a villa de Castello Branco, que dista des legoas; o lugar do Casteleiro, que dista meia legoa; o lugar da Bendada, que dista Huma legoa.
5 – Tem termo proprio, o qual consta dos lugares seguintes: O lugar do Casteleiro…O lugar de Santo Estevão…O lugar da Orgueira…O lugar de Malcata…O lugar de Agoas Bellas…O lugar de Penalobo…O lugar da Bendada
6 – Está esta Parochia dentro dos muros e tem as aldeyas seguintes:
A Quinta de Santo Amaro, A Q uinta de Quarta Feira, Quinta do Clerigo, Quinta do Dirão da Rua E Quinta do Espinhal.
7 – O Orago desta freguezia he Nossa Senhora das Neves.
Tem cinco altares: o altar do Santissimo Sacram ento, o altar das almas, o altar da Senhora do Rozario, o altar do Divino Spirito Santo, o altar de São Francisco X avier, asim se chamão por nelles estarem colocadas as ditas imagens,não tem senão sua nave que he huma, ou corpo da igreja com seu arco muito bem feito, tem a Irmandade das Almas, e a Irmandade dos Congregados de São Francisco Xavier e a Confraria da Senhora do Rozario, e a do Santissimo Sacramento.
8 -O Parocho he Vigario, aprezentaçam he de Sua Magestade que Deos guarde, a renda que tem são quarenta mil reis, e dous para vinho, e dous por ensinar a doutrina, e cinco alqueires de trigo, e hum aratel de sabam para lavagem dos corporais mais nada.
11 – Tem huma caza a que chamão Hospital, que serve para se recolherem alguns pobres, que vem de passagem, administrada pelos irmãos que servem na Meza da Santa Caza da Mizericordia, porem não tem renda alguma.
12 – Tem Caza de Mizericordia; a sua origem foy no anno de mil, e seiscentos, e vinte, e seis, que a fizeram os homens nobres desta freguezia de huma igreja, que algum dia foy matris que fica fora dos muros, que antigamente se chamava a Igreja de São João,
o que tudo consta de hum termo feito no dito anno. Tem de renda huns annos pelos outros trinta mil reis. Tem a dita igreja tres altares, o de São João, o do Santo Christo, e o de Santa Ritta, e esta imagem he muito prefeita, e milagrosa.
13 – Tem esta freguezia as hermidas seguintes: a de São Tiago extra-muros, a de São Sebastião tambem fora dos muros, a de Santa Catharina, fora dos muros, a de Santo Amaro que dista meya legoa, a de Santa Bárbara que dista meya legoa, a de São Marcos que dista legoa e meya, a de Nossa Senhora da Graça que dista duas legoas, e esta Senhora he muito prefeita, e milagroza, e a Cappella de São Comelio que está feita de novo, e se ha de colocar o dito Santo nella para Septembro que vem no dia do dito santo.
Fica esta Cappella de São Comelio no cume de hum monte, para hirem os materiais para se fazer se levou tudo às costas por não poder la chegar besta nem carro e foy feita com esmolas; que athe os tempos prezentes esteve o Santo sempre em huma la-pa que fica no mesmo cume do dito monte chamado o Outeiro de São Cor-
nelio, e não ha memoria de como aparecesse o dito Santo na lapa, he muito milagrozo, e advogado das sezois, e concorre gente de varias partes, e ainda de fora do reino em romagem como he de Espanha, que dista deste monte sette legoas. Dis-se que algumas
vezes se tinhão levado o santo da dita lapa para a Cappella de San- ta Bárbara, e que ao outro dia achavão o Santo outra vez na sua lapa aos temporais pois quando chove também chove na dita lapa.
14 – Ainda, que vem gente em romagem, não tem dias detreminados. Só à Capela de São Marcos no dia do dito Santo por serem Ladainhas vay a cruz de Agoas Bellas, e a gente de freguezia acompanhando-a e a cruz do lugar da Orgueira e sua freguezia. E a cruz das Quintas de São Bartholameu com sua freguezia, e no dito dia se faz feira junto à dita capela, não dura mais que hum dia que he vinte, e cinco de Abril.
15 – Os frutos que se recolhem nesta terra são centeyo, vinho, azeite.
16 -Tem esta villa Juis Ordinário, e dous Vereadores, e hum Procurador do Conselho, que são os que governão a terra, tem mais Juis dos Orphaos, Escrivão dos Orphaos, e dous Escrivains do Publico. Tem Caza da Camera com suas Armas Reais, não está sugeita a outra justiça mas estes ditos são a que governão a Republica. O Provedor e Corregedor desta comarqua vem a esta villa em correição.
17 – He cabessa de todo seu term o e nelle poem as mais justiças que são precizas como Juizes Espadanos nos lugares do termo, e esta Camera os faz, e livra quando he justo.
19 – Tem tres feiras na freguezia que são a de São Marcos como fica dito, a vinte, e cinco de Abril, que dura hum dia, que he na Quinta do Espinhal; e as duas mais são na Quinta de Santo Amaro hum dia cada huma, e estas são huma a quinze de Janeiro, e
outra, a segunda outava da Pascoa, e dentro dos muros não tem feira alguma.
20 – Não tem correio; serve-sse ordinariamente do correio da cidade da Guarda, que chega na segunda feira de tarde, e parte na sesta feira de madrugada, e dista desta villa coatro legoas.
21 – Dista da cidade capital do bispado que he a cidade da Guarda coatro legoas, e de Lisboa capital do reino quarenta, e seis legoas.
22 – Tem os moradores desta villa, e seu termo privillegio de não pagarem portagem neste reino, asim das couzas que comprarem como das que venderem, concedido pelo Senhor Rey Dom Manoel, que a Santa Gloria haja.
Tem esta mesma villa de Sortelha por contrato muito antigo hirem os Officiais da Camara hum dia em cada hum anno à villa do Sabugal com suas varas e lhe dam os Officiais da Camara da dita villa do Sabugal hum jantar e no fim delle o Procurador da dita villa do Sabugal paga hum tostão de EI Rey Dom Manoel ao Procurador desta villa de Sortelha, que lhe oferece em huma salva de prata perante todos, e os Vereadores e Procurador da dita villa do Sabugal, servem a meza aos Officiais da Camara desta villa de Sortelha, o que tudo consta do foral da Camara desta villa de Sortelha, e do Tombo do Concelho feito no anno de mil e seiscentos, e quinze.
Tambem esta villa tem Alcaide Mor, que aprezenta o dito Alcaide, e Carcereiro da Cadeia desta villa, e terá de renda cada hum anno pouco mais ou menos sesenta mil reis, e de prezente o he Manoel Bemardo de Mello e Castro morador na cidade de Lis-
boa.
25 – Esta he murada seus muros são todos de cantaria, tem duas torres huma dentro do castello, que tem fichado com bastante fortaleza por ser hum arife, e despinhadeiro muito agreste, que o faz invencivel principalmente pela parte do sul, e a dita torre he
muito alta, e forte toda de cantaria. Tem outra torre tambem de cantaria, que fica para a parte do poente tambem muito forte, E tem tres portas a Porta do Concelho, e a Porta Nova e outra que está tapada desde o tempo das guerras, e as duas são por onde se serve esta villa, não he praça de armas mas mostra que o foy nos tempos antigos, e dizem o hera, no tempo em que não estavam as terras de Sima Coa sugeitas a Portugal, o que bem mostra pela formalidade com que está feita.
Os muros desta villa tem tres portais porem nenhum dá ainda passagem de pé, Tem huma torrinha que asim se chama porem esta se acha já meia aruinada por ficar arumada a hum dos ditos portais, que fica para a parte do nacente.
Tem mais a Cappella de São Gens extra muros, e a Cappella e Santo Antonio, as coais são de particulares.
26 -Não padeceo esta terra estrago algum pela mizericordia do Altissimo.
(em relação ao sismo de 1755)
- Em relação as perguntas 9,10, 18,23 e 24
Pergunta 9: Inquiria se existiam na paróquia outros benefícios eclesiásticos, como abadias ou conezias, além da própria igreja matriz. O Vigário respondeu que “não tem”.
Pergunta 10: Questionava sobre a natureza da paróquia (se era colegiada, ou se o pároco era apresentado por alguma ordem religiosa ou universidade). O Vigário respondeu “não tem” (visto que, na resposta 8, já havia indicado que o pároco era apresentado diretamente pelo Rei).
Pergunta 18: Pedia informações sobre factos históricos memoráveis, memórias antigas ou antiguidades que não tivessem sido mencionadas anteriormente. A resposta foi “nada”.
Pergunta 23: Referia-se à existência de lagoas ou pântanos notáveis no território. Dado que Sortelha se situa no cume de um monte agreste, a resposta foi “nada”.
Pergunta 24: Questionava se a vila possuía porto de mar ou estaleiro de navios, o que, pela localização interior e montanhosa de Sortelha, resultou na resposta “nada”
Notas adicionais:
(1)-http://www.museusabugal.net/bibliog/osorio_11.pdf
Créditos Fotográficos: As fotografias foram amavelmente cedidas pelo excelente site de fotografia: matarbustosfotografias.




