O Senhor de Matosinhos ou o Bom Jesus de Matosinhos (**)
Resumo para Leitores Apressados
A identidade de Matosinhos nasceu da fusão entre a subsistência do Rio Leça e uma profunda devoção marítima. Originalmente um vale agrícola romano e medieval, a zona da foz transformou-se radicalmente no século XIX com a construção do Porto de Leixões, a maior obra de engenharia da época em Portugal. Em paralelo à evolução industrial, a cidade cresceu em torno do culto ao Senhor de Matosinhos, uma raríssima escultura românica em madeira do século XIII (patrocinada pela Infanta D. Mafalda) que a lenda dizia ter sido esculpida por Nicodemos e trazida pelo mar no ano 124. No século XVI, o eixo religioso mudou-se de Bouças para o centro de Matosinhos e, no século XVIII, o arquiteto Nicolau Nasoni transformou o templo num dos maiores monumentos do barroco português, financiado pelo ouro dos emigrantes no Brasil, onde o culto também se fixou e gerou um património mundial da UNESCO.
1. O Rio Leça e a Origem de Matosinhos
Evolução Geográfica e Económica
A evolução do rio Leça e da sua foz é marcada pela transição de um cenário natural e agrícola para um dos maiores complexos portuários de Portugal. Na época romana, a configuração local era muito diferente: o atual porto era um vasto areal e o rio era navegável até às proximidades do Castro do Padrão. As águas do Leça tornavam as terras da Maia extremamente férteis, permitindo a criação de gado para o abastecimento das frotas que navegavam para o sul.
Neste período, surgiram dois povoados distintos e frequentemente rivais:
Leça: na margem norte.
Matosinhos: na margem sul (mencionada como “Matesinus” em registos do século XI, onde já se assinalava a existência de salinas e a exploração económica dos recursos costeiros).
O Estuário como Porto de Abrigo
Antes da construção do porto artificial, o estuário do rio Leça servia como alternativa estratégica à perigosa barra do rio Douro, oferecendo refúgio aos navios em dias de mau tempo. Contudo, a navegação enfrentava a ameaça constante dos “Leixões” — rochedos abruptos no mar que representavam um grande perigo para as embarcações.
2. A Génese e o Impacto do Porto de Leixões
O Projeto e a sua Construção
A ideia de unir os rochedos no mar (Leixões) através de uma muralha para criar um porto seguro remonta ao século XVIII, no reinado de D. João V. No entanto, o projeto foi sucessivamente adiado devido aos custos elevados e à oposição dos comerciantes do Porto, que preferiam centralizar as mercadorias nos seus armazéns no Douro.
A decisão definitiva só avançou após uma tragédia em 1852: o naufrágio do vapor Porto, que vitimou várias figuras proeminentes da sociedade portuense. Após décadas de debates e falta de verbas, a construção do molhe começou por volta de 1890, no final do século XIX.
Transformação da Paisagem e do Rio
Sendo a maior obra de engenharia realizada em Portugal no século XIX, a construção utilizou guindastes colossais chamados “Titãs” para colocar pedra sobre pedra. Esta intervenção transformou profundamente a região:
O Areal: O extenso areal de Matosinhos, que se prolongava por quilómetros a norte da Foz do Douro, foi drasticamente alterado.
Monumentos Ocultos: O Senhor do Padrão, que antes se erguia isolado na praia como local onde surgiu o famoso Bom Jesus de Matosinhos, ficou integrado e “escondido” na malha urbana e portuária.
O Leito do Rio: Nas décadas de 1930 e 1940 (século XX), o antigo leito do Leça foi transformado em grandes docas para responder às necessidades industriais, servindo, por exemplo, para o transporte de algodão das colónias para as indústrias do Vale do Ave.
3. História Sagrada: Lendas e Milagres
A identidade de Matosinhos está profundamente ligada a narrativas místicas e eventos trágicos.
A Lenda de Cayo Carmo e a Origem do Nome
A explicação lendária para o nome “Matosinhos” remonta ao ano 44 d.C. Diz-se que, durante o casamento do senhor romano Cayo Carmo (ou Cocar) na praia, passava ao largo o barco que transportava o corpo de Santiago para a Galiza. O cavaleiro e o seu cavalo entraram no mar em direção à embarcação e, ao regressarem à terra, estavam totalmente cobertos — ou “matizados” — de conchas de vieiras. O local ficou conhecido como a “praia do matizadinho”, evoluindo mais tarde para Matosinhos.
O Aparecimento do Cristo e o Papel de Nicodemos
Segundo a tradição popular, no dia 3 de maio do ano 124 (Dia da Santa Cruz), as águas da praia trouxeram à terra a imagem do Bom Jesus. A lenda atribui a escultura a Nicodemos que, junto com José de Arimateia, retirou o corpo de Jesus da cruz (cena hoje esculpida no altar-mor da Igreja de Matosinhos). Movido pela emoção, Nicodemos teria esculpido o rosto de Cristo com base nas feições do Santo Sudário. Para proteger a obra das perseguições de romanos e judeus, lançou-a ao mar, cruzando o Mediterrâneo e o Atlântico até à foz do Leça.
O imaginário popular varia sobre a sua produção: uns dizem que esculpiu três, cinco ou doze imagens (uma das versões aponta quatro peças espalhadas pela Síria, Itália, Galiza e Matosinhos); outros afirmam de forma poética que desbastou uma floresta inteira para esculpir. Na realidade, existem mais de 20 representações semelhantes no Mediterrâneo e no Atlântico. Embora sem base histórica, a Igreja Católica escolheu de Cristo imagens no Concílio de Niceia como ferramentas pedagógicas e de devoção.
O Milagre do Braço Descoberto
A imagem apareceu na praia sem um dos braços. Passados 50 anos, uma mulher pobre que recolhia lenha no areal encontrou um pedaço de madeira. A sua filha, surda-muda de nascença, sinalizou que se tratava do braço em falta e, nesse instante, começou a falar e a ouvir. O braço foi levado à igreja, encaixando-se perfeitamente na escultura. Foi o primeiro milagre do Senhor Bom Jesus de Matosinhos e obviamente que tal não aconteceu.
O Senhor do Padrão e a Fonte Santa
O local exato do achado da imagem é assinalado pelo Senhor do Padrão (século XVIII), um zimbório classificado como Monumento Nacional. Ao lado, a Fonte Santa (1726) protege uma nascente de água doce que, segundo a lenda, brotou após as preces de uma mulher com uma doença de pele incurável, que ficou miraculosamente curada ao lavar-se ali.
4. A Realidade Histórica e Científica da Escultura
O Mosteiro de Bouças e a Infanta D. Mafalda
Antes de ser transferida para a atual localização no século XVI, a imagem era venerada no medieval Mosteiro de São Salvador de Bouças (núcleo original de Matosinhos, com registos desde 944), sendo conhecida como o Bom Jesus de Bouças.
Embora a lenda a situe no ano 124, a investigação histórica comprova que a imagem foi encomendada no século XIII pela Infanta D. Mafalda (filha de D. Sancho I). Em 1196, a infanta recebeu o padroado do mosteiro e, por volta de 1249, reformou a instituição, integrando-a na Ordem de Cister como comunidade feminina. A imagem de tamanho natural servia para dignificar o mosteiro neste período de expansão.
Análise Laboratorial e Características Técnicas
O processo de restauro confirmou cientificamente a cronologia da imagem, classificada como Imóvel de Interesse Público:
Datação por Carbono-14: O abate da madeira (salgueiro – Salix Sp) ocorreu em 1210 ± 30 d.C., situando a execução final em meados do século XIII.
Dimensões e Estrutura: Mede 204 cm (ligeiramente superior à escala real 1:1). Originalmente tripartida (tronco/membros inferiores e dois braços), foi mais tarde cortada abaixo da cintura para travar uma fissura, unida por cavilhas de madeira e grampos metálicos. É escavada (oca) para reduzir o peso.
Iconografia e Detalhes Estilísticos
A peça enquadra-se no estilo românico medieval do “Cristo Majestade” ou “Cristo Triunfante”, que se caracteriza por demonstrar rigidez e serenidade em vez de agonia:
Os Quatro Cravos: Fixado com quatro cravos (um em cada extremidade), mantendo os pés separados, uma solução iconográfica arcaica anterior à transição europeia para três cravos.
Fisionomia: Apresenta corpo esquemático com marcas artificiais de costelas, mãos espalmadas com dedos longos e olhar duplo (um olho fito a terra e o outro o céu, fruto de repintes tardios). A barba exibe sulcos paralelos que se enrolam nas pontas em forma de vírgula. A coroa baixa original, entalhada na madeira, foi mutilada no século XVIII para uso de cabeleira postiça, tendo sido revertida para o molde medieval no restauro recente.
Perizonium: O cristo é pudico com o pano de pureza é assimétrico e desenha um “S” alongado, descendo até ao tornozelo esquerdo e revelando o joelho direito, rematado por um nó volumoso.
Comparações Internacionais
A escultura de Matosinhos partilha profundas semelhanças formais e anatómicas com duas obras europeias de referência (datadas entre os séculos XI e XII): o Cristo de Courajod (no Museu do Louvre, em Paris) e o Cristo do Museu da Ópera do Duomo (Pisa). Embora a peça portuguesa seja ligeiramente mais tardia (meados do século XIII), mantém fielmente estes modelos arcaizantes, integrando um grupo restrito de cerca de trinta esculturas medievais de madeira em tamanho natural sobreviventes na Europa.
5. A Mudança Institucional e a Nova Igreja (Século XVI)-O Padroado da Universidade de Coimbra
Em 1541, o rei D. João III anexou os rendimentos do degradado Mosteiro de Bouças à Universidade de Coimbra para sustentar os seus professores (lentes), medida reconhecida por Roma em 1542. A Universidade recebeu também o padroado da região, assumindo a gestão dos locais de culto.
Construção do Novo Templo
Devido às ruínas de Bouças e à crescente importância socioeconómica de Matosinhos ligada à construção naval e expansão marítima, a Universidade iniciou em 1542 a construção de uma nova igreja no centro da vila (cerca de 750 metros do antigo mosteiro). O projeto foi confiado ao arquiteto João de Ruão em 1559, com obras executadas entre 1560 e 1579, e concluídas por Tomé Velho. Com a transferência da imagem medieval para o novo espaço, esta perdeu o nome de “Bouças” e passou a chamar-se Senhor de Matosinhos. Dessa matriz quinhentista, restam no altar-mor as estátuas de Nicodemos, José de Arimateia, Virgem Maria e São João, esculpidas em 1572 por Tomé o Velho.
6. A Metamorfose Barroca de Nicolau Nasoni (Século XVIII)
Embora preserve a estrutura interna dos cinco arcos quinhentistas assentes em colunas jónicas, a igreja foi profundamente remodelada no século XVIII pelo arquiteto italiano Nicolau Nasoni, que lhe conferiu uma linguagem barroca requintada:
Fachada Cenográfica: Desenho que acentua a horizontalidade com um frontão quebrado, duas torres sineiras, nichos para S. Pedro e S. Paulo e um medalhão com uma concha de vieira na porta principal.
Alterações de Volume: Alteamento das paredes laterais para a abertura de grandes altares e ampliação da capela-mor a partir de 1743.
Talha Dourada: O interior foi enriquecido com talha setecentista. O retábulo do altar-mor, de Luís Pereira da Costa (encomendado em 1726), foi integrado na estética de Nasoni. No transepto, destacam-se os retábulos da Capela do Santíssimo Sacramento e do Senhor dos Passos (1746–1750).
O Órgão Histórico: No coro-alto encontra-se um órgão de tipologia nórdica e fachada hamburguesa (canaria distribuída em três castelos e quatro painéis). Construído em 1685 pelo mestre Michael Hensberg (dos Países Baixos) para o Mosteiro dos Lóios no Porto, foi mais tarde transferido para Matosinhos e remodelado em 1859.
Todo este surto renovador foi financiado pelas esmolas da gente do mar e, em grande parte, pelas fortunas enviadas por emigrantes radicados no Brasil.
7. A Romaria e o Impacto Internacional
As Festas do Senhor de Matosinhos
As Festas do Senhor de Matosinhos (celebradas no Domingo de Pentecostes, tendo substituído a antiga festa do Espírito Santo) são uma das maiores romarias do país. O seu alcance é histórico: já em 1342 há registos de peregrinos da Galiza que deixavam testamentos ao então “Crucifixo de São Salvador de Bouças”.
A comunidade piscatória local mantém uma forte ligação ao culto para agradecer a salvação em tragédias marítimas — como o Naufrágio de 1947 (a maior tragédia da costa portuguesa, com 152 mortos em várias embarcações, hoje imortalizada na praia por um monumento de José João Brito baseado num quadro de Augusto Gomes).
O Museu da Misericórdia local conserva uma vasta coleção destes ex-votos (pinturas e miniaturas de barcos).
Historicamente, em momentos de grande crise, a imagem saía em procissão solene até à cidade do Porto (registado entre 1526 e finais do século XVII).
Influência no Brasil
A devoção atravessou o Atlântico com os emigrantes e os fluxos coloniais e a peregrinação à Igreja de Congonhas (Minas Gerais) tornou-se a mais popular do Brasil colonial. Três cidades brasileiras foram fundadas sob a invocação do Bom Jesus e, inspirado no modelo português, ergueu-se o Santuário de Congonhas do Campo, classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO em 1985.
Conclusão
A história de Matosinhos e do Rio Leça reflete uma simbiose perfeita entre o desenvolvimento industrial e a preservação da memória coletiva. A transição do pacato vale agrícola para o imponente complexo portuário de Leixões acompanhou a evolução de uma comunidade cuja identidade se alicerça na fé profunda ao Senhor de Matosinhos. Entre as lendas medievais de Nicodemos, o valioso património artístico deixado pela Infanta D. Mafalda e por Nicolau Nasoni, e a projeção internacional do seu culto na América Latina, Matosinhos consolidou-se como um território onde o dinamismo económico e a herança cultural e marítima caminham lado a lado.
Linha do Tempo:
Época Romana (Século I a.C. – Século IV d.C.)
Século I-O Rio Leça é navegável até ao Castro do Padrão. O atual porto é um vasto areal e as terras da Maia abastecem as frotas que navegam para o sul.
Ano 44-Segundo a lenda, o cavaleiro romano Cayo Carmo entra no mar durante o seu casamento e regressa coberto de vieiras após avistar o barco com o corpo de Santiago. Origina-se o nome “Matosinhos” (matizadinho).
Ano 124-A tradição popular dita que, no dia 3 de maio, a imagem do Bom Jesus (esculpida por Nicodemos e lançada ao mar para ser salva) dá à costa na praia de Matosinhos sem um braço.
Primeiros Registos de Bouças e Salinas
Séculos X – XI-Em 944 surgem os primeiros registos do Mosteiro de São Salvador de Bouças. Em 1065, há referências escritas a salinas em Matosinhos (“Matesinus”).
Cerca de 1210-A Infanta D. Mafalda assume o padroado de Bouças e encomenda a escultura do Cristo (confirmado por testes de Carbono-14 na madeira de salgueiro). A peça insere-se na arte românica medieval europeia.
1342-Fazem-se os primeiros registos de testamentos de peregrinos da Galiza que deixam verbas ao “Crucifixo de São Salvador de Bouças”, provando o alcance ibérico da devoção.
1541–42-D. João III anexa os rendimentos de Bouças à Universidade de Coimbra. Devido às ruínas do mosteiro e à ascensão marítima de Matosinhos, a Universidade inicia a construção da nova igreja no centro da vila. A imagem passa a chamar-se Senhor de Matosinhos.
1560-79-Decorre a construção principal da igreja renascentista/maneirista. Em 1572, são esculpidas as estátuas do altar-mor que ladeiam o Cristo.
1685-Michael Hensberg constrói o órgão de tubos de tipologia nórdica para o Mosteiro dos Lóios (Porto). O instrumento seria transferido para Matosinhos mais tarde e remodelado em 1859.
1743-O arquiteto italiano Nicolau Nasoni inicia a remodelação da igreja, criando a famosa fachada cenográfica e ampliando a capela-mor. A obra é financiada pelo ouro do Brasil e pela gente do mar.
1852-O trágico naufrágio do vapor Porto na barra do Douro mata figuras ilustres e força os decisores políticos a avançar com o projeto (adiado desde D. João V) de um porto artificial em Leixões.
Cerca de 1890-Inicia-se a construção dos molhes do porto com os guindastes colossais “Titãs”. O areal de Matosinhos é modificado e o Senhor do Padrão fica rodeado pela malha urbana.
1930-40-O antigo leito natural do rio Leça é escavado e transformado em docas comerciais para abastecer, entre outras, as indústrias têxteis do Vale do Ave.
1947-Na noite de 1 para 2 de dezembro, um terrível naufrágio faz 152 mortos na comunidade piscatória local, marcando profundamente a identidade e a memória de Matosinhos.
1985-O Santuário de Congonhas do Campo (Minas Gerais), cuja devoção e festejos coloniais nasceram diretamente dos emigrantes dedicados ao Senhor de Matosinhos, é classificado como Património Mundial da Humanidade.




