Real Fabrica do Gelo (Cadaval) (**)

A Real Fábrica do Gelo, localizada na encosta norte da Serra de Montejunto (no concelho do Cadaval), é um Monumento Nacional e um exemplar único de arqueologia industrial em Portugal e na Europa. Construída no século XVIII para contornar as dificuldades de abastecimento a partir da neve da Serra da Estrela e da Lousã, esta estrutura pré-industrial produzia gelo natural de forma regular para abastecer a corte real, os cafés e os hospitais de Lisboa.

História e Evolução

Fundação (1741): A primeira referência documental da fábrica remonta a 1741, quando os investidores João Rose e Pedro Francalanza se aliaram ao francês Trofimo Paillete (neveiro do rei D. João V), investindo entre 40 000 a 45 000 cruzados na sua construção. Em 1748, o arquiteto Carlos Mardel examinou a fábrica durante uma visita e recomendou a sua expansão.

A Expansão de Julião Pereira de Castro (1782): Em 1782, o complexo foi adquirido e substancialmente ampliado pelo neveiro-mor da Casa Real, Julião Pereira de Castro, iniciando a sua fase de maior força industrial.

Declínio e Abandono (1885): A invenção do frigorífico em 1850 ditou o declínio do comércio do gelo natural. A fábrica encerrou em 1885. Embora se chamasse “Real”, a fábrica sempre pertenceu a privados (família de Julião de Castro) até ser expropriada em 1930. Em 1956, a construção de infraestruturas da Força Aérea destruiu parte das ruínas (um armazém e vários tanques). O espaço foi recuperado e aberto ao público como sítio museológico em 2011.

O Processo de Produção

O funcionamento da fábrica combinava engenharia hidráulica sofisticada com o microclima frio e húmido da serra, a cerca de 600 metros de altitude. O complexo dividia-se em três áreas funcionais:

Captação e Elevação de Água: Através da Casa da Nora, a água subterrânea era extraída de poços por tração animal e acumulada num grande reservatório de pedra com capacidade para cerca de 151 000 litros, que alimentava os tanques por gravidade.

Tanques de Congelação: A água era espalhada por 44 tanques de pedra rasos sequenciais, onde a profundidade da água se mantinha a apenas 10 a 15 centímetros para facilitar a congelação rápida durante as noites frias de inverno (entre setembro e abril).

Armazenamento e Compactação: Ao amanhecer, o guarda tocava uma corneta para convocar operários das aldeias vizinhas, que disputavam os postos diários de trabalho árduo. Estes quebravam as placas de gelo com barras de ferro, colocavam-nas em caixas de madeira e levavam-nas para a área de conservação.

O gelo era depositado em dois poços (silos) subterrâneos profundos — o maior com 10 metros de profundidade e 346 metros cúbicos de volume. Lá dentro, os operários calcavam e compactavam o gelo com pesados maços de madeira até obter um bloco monolítico e denso, de modo a minimizar as perdas por derretimento.

Para manter as condições de higiene, os poços eram periodicamente branqueados com cal produzida no próprio forno de cal da fábrica, cujos vestígios ainda são visíveis no local. Além disso, o fundo dos poços tinha um piso de madeira inclinado sobre pedras soltas que permitia escoar de imediato a água da fusão, evitando que esta dissolvesse o gelo restante.

A Logística da Rota do Gelo

No verão, os blocos eram retirados, serrados e envolvidos em palha e serapilheira. Eram transportados em mulas pela encosta sul da serra, seguindo depois de carroça até à Vala do Carregado. Ali, eram embarcados em barcos especiais — os “barcos da neve” — que navegavam Tejo abaixo até ao Terreiro do Paço, em Lisboa.

Para compensar e acelerar esta complexa e urgente operação logística, a Casa Real concedia privilégios e isenções aos profissionais do transporte. Em Lisboa, o gelo destinava-se à Corte Real, a fins terapêuticos no Hospital de Todos os Santos e a prestigiados cafés, como a histórica Casa da Neve (hoje restaurante Martinho da Arcada, aberto em 1778) ou o posterior Café Gelo no Rossio.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top