Serra de Montejunto (Cadaval e Alenquer) (**)

A Serra de Montejunto assume uma relevância extraordinária em diversas vertentes, dividindo-se entre a sua importância ecológica, o seu valor geológico e hidrológico, e o seu vasto património histórico, arqueológico e industrial:

-Importância Geológica e Hidrológica: Elevando-se a 666 metros de altitude, constitui o miradouro natural mais alto da província histórica da Estremadura. Geologicamente, representa um bloco calcário estrutural que faz parte do Maciço Calcário Estremenho. O seu relevo cársico típico desempenha um papel ambiental crucial como uma área de recarga de aquíferos, facilitando a infiltração de águas pluviais que alimentam cursos de água locais de carácter sazonal, como o rio Real e o rio Ota.

-Riqueza Ecológica e Biodiversidade: Classificada como Paisagem Protegida desde 1999 e integrando uma Zona Especial de Conservação (ZEC), a serra abriga habitats protegidos e espécies de flora raras ou endémicas adaptadas a solos calcários, tais como a rave-do-Sado (ou Arave-de-compridas-folhas), Silene-de-Sintra (ou Silene-de-cílios-compridos), Junco-de-valvas (ou Junco-valvado), Couve-de-Sintra ou o Narciso-dos-calcários (ou Narciso-calcícola)

-Além disso, o seu sistema cársico subterrâneo oferece um refúgio essencial para a fauna, destacando-se uma gruta classificada como Abrigo de Importância Nacional para Morcegos, que acolhe milhares de morcegos da espécie (morcego-de-peluche) e outras espécies em hibernação durante o inverno.

-Património Histórico-Industrial (A Fábrica do Gelo): Um dos maiores símbolos da serra é a Real Fábrica do Gelo, classificada como Monumento Nacional em 1997. Construída na encosta norte para aproveitar o microclima frio e húmido da serra, esta estrutura pré-industrial do século XVIII produzia gelo natural de forma regular para abastecer a corte real em Lisboa, hospitais (como o Hospital de Todos os Santos) e os cafés da capital.

-Património Arqueológico, Religioso e Rural: A ocupação humana na serra remonta à pré-história, tendo como principal testemunho o sítio arqueológico do Castro de Pragança, um povoado fortificado habitado continuamente desde o Neolítico e Idade do Cobre até à sua posterior romanização. Adicionalmente, as cumeadas da serra destacam-se por apresentar uma das maiores concentrações de moinhos de vento tradicionais da Península Ibérica, outrora utilizados para moer cereais das férteis planícies circundantes, incluindo variedades antigas como o trigo Barbela. O maior destaque é o Moinho de Avis (construído em 1810 e restaurado em 2008), o maior moinho com velas de madeira operacional em Portugal.

Ruínas do Convento Dominicano: do seculo século XVIII

Capela da Nossa Senhora das Neves.

Ecoturismo e Investigação Científica: Atualmente, a Serra de Montejunto funciona como um polo fundamental para a educação ambiental, investigação científica e recreação ao ar livre, sendo percorrida por trilhos e caminhos históricos que valorizam a simbiose entre as suas características geológicas e culturais.

A Serra de Montejunto é um território de extraordinária riqueza visual, combinando uma topografia imponente com um valioso património cultural, industrial e natural.

Vistas Panorâmicas de Grande Alcance: Por ser o ponto natural mais alto da província histórica da Estremadura (666 metros de altitude) e possuir uma proeminência topográfica marcante de 536 metros (a maior do distrito de Lisboa), a serra oferece vistas desimpedidas de longo alcance. Destacam-se as amplas panorâmicas sobre o vale de Alenquer a partir do Trilho dos Moinhos e as vistas das suas encostas norte e ocidental. Devido ao seu isolamento de mais de 53 km em relação à elevação mais próxima (a Serra de Aire), destaca-se vigorosamente na linha de horizonte regional.

O Efeito “Serra das Neves”: Quando observada à distância, a tonalidade clara do seu maciço calcário exposto confere-lhe uma cor esbranquiçada muito característica, assemelhando-se a uma cobertura de neve perpétua — detalhe que deu origem à designação histórica local de “Serra das Neves”.

A Qualidade da Paisagem

A paisagem da Serra de Montejunto é definida por um contraste dramático, transitando rapidamente das planícies aluviais baixas da bacia do rio Tejo para os picos cársicos escarpados e acidentados da reserva protegida.

Mosaico de Microclimas e Encostas: A orientação física da serra (eixo sudoeste-nordeste) atua como uma barreira que retém os ventos húmidos do Atlântico. Por este motivo, as encostas orientadas a norte e nordeste são significativamente mais húmidas (recebendo cerca de 100 mm adicionais de precipitação anual) do que as encostas viradas a sul e sudoeste, refletindo-se em paisagens vegetais muito diferenciadas em cada vertente.

Estratificação Ecológica em Cinturas: A vegetação distribui-se em cinturas altitudinais bem definidas:

-Nas zonas baixas de solos arenosos, surgem sobreirais

-Nos solos de transição calcária e vales frescos, desenvolvem-se os carvalhais de carvalho-cerquinho “medronhais”

Nas superfícies rochosas e severamente carsificadas do cume, dominam os matos de carrasco e comunidades de plantas rupestres que crescem nas fendas das rochas

Marcas de Perturbação e Resiliência: A qualidade da paisagem é também o reflexo de séculos de intervenção humana (pastoreio, moinhos e agricultura). Algumas encostas exibem marcas visíveis de incêndios florestais recorrentes, típicos do clima mediterrânico; no entanto, a serra é descrita como um excelente laboratório para observar a notável capacidade de recuperação e regeneração natural da vegetação mediterrânica pós-fogo.

Infraestruturas Modernas: Em contrapartida, a paisagem do topo sofreu algumas alterações visuais devido à instalação de antenas de telecomunicação, do centro de transmissão de televisão e da antiga base da Força Aérea Portuguesa (construída nos anos 1950, que alterou algumas linhas de água e hoje constitui uma zona militar restrita

Importância Geológica, Geomorfológica e Hidrogeológica

A Serra de Montejunto, elevando-se a uma altitude máxima de 665,8 metros (ou 666 m), representa o miradouro natural mais alto da província histórica da Estremadura. Sob a perspetiva das Ciências da Terra, o seu valor é extraordinário e divide-se em três pilares interligados: Geologia, Geomorfologia e Hidrogeologia.

Geologicamente, a Serra de Montejunto é um bloco estrutural calcário com cerca de 15 km de comprimento e 7 km de largura, constituindo o limite sudoeste do Maciço Calcário Estremenho.

Estratigrafia e Litologia: A sua ossatura é composta essencialmente por espessos afloramentos de rochas carbonatadas que remontam ao período Jurássico. A sequência inicia-se no Jurássico Médio (Dogger) progredindo para o Jurássico Superior (Oxfordiano ao Titoniano) com com calcários sublitográficos, corálicos e compactos), margas e argilas, calcários oolíticos e recifais e grés e margas. Discordâncias erosivas marcam o preenchimento de cavidades por sedimentos detritos do Cretácico e depósitos do Terciário (Miocénico e Paleogénico) nas suas orlas.

Origem Tectónica (Push-up e Transpressão): A estruturação do maciço deu-se no decurso da Era Cenozoica (com especial incidência do Miocénico ao Quaternário Inferior), sob o efeito da convergência entre as placas Africana e Eurasiática. O maciço originou-se como um com sistema de falhas em desligamento esquerdo com uma componente inversa. A sismicidade moderada, tanto histórica como instrumental registada na região, reflete a continuidade destas pressões tectónicas profundas.

A geomorfologia de Montejunto é profundamente controlada pela interação entre a tectónica ativa (soerguimento e compartimentação) e a carsificação.

Superfícies de Aplanamento e Neotectónica: O relevo apresenta-se estruturado em degraus ou escadarias altimétricas desde os 600 m até aos 120 m.

Carsificação e Modelado Glaciar Ancestral: A dissolução química do calcário originou formas cársicas típicas: campos de lapiás, dolinas de fundo plano, algares (poços verticais) e um complexo sistema de grutas subterrâneas. Nas vertentes mais inclinadas, ocorrem extensas cascalheiras geradas por gelifração (fragmentação por gelo/degelo) durante os ciclos glaciais do Pleistoceno Superior.

Do ponto de vista hidrológico, a Serra de Montejunto possui um funcionamento hidráulico duplo que opõe os processos superficiais aos subterrâneos:

Ausência de Escoamento Superficial Contínuo: Devido à elevada permeabilidade dos calcários e à densa rede de fraturas e cavidades cársicas, a maior parte da precipitação infiltra-se imediatamente, alimentando a circulação subterrânea. Por esta razão, o maciço funciona como uma área crucial de recarga de aquíferos regionais.

Nascentes Cársicas e Sazonalidade: O aquífero subterrâneo alimenta várias nascentes cársicas que dão origem a cursos de água locais de carácter fortemente sazonal e descontínuo, tais como o rio Real (que nasce na Rocha Forte), o rio Ota (no vale do Furadouro) e a ribeira do Judeu (no Cercal). Estes cursos de água apresentam sumidouros (onde a água desaparece no subsolo) e exsurgências/ressurgências (onde volta a emergir).

As grutas da Serra de Montejunto

As grutas da Serra de Montejunto assumem uma grande importância nas, constituindo elementos vitais para a conservação e o equilíbrio do ecossistema da serra:

Formação Geológica e Hidrogeologia Cárstica: A litologia maioritariamente calcária da serra propicia o desenvolvimento de um relevo cársico típico. A dissolução química do calcário promovida pela infiltração das águas pluviais ao longo de eras geológicas esculpiu um complexo sistema subterrâneo caracterizado por campos de lapiás, dolinas, algares (poços verticais) e uma intrincada rede de grutas. Este sistema subterrâneo desempenha um papel fulcral na recarga de aquíferos regionais, viabilizando a infiltração rápida das águas pluviais que posteriormente alimentam as nascentes e cursos de água locais.

Santuário e Abrigo Nacional de Quirópteros: Classificadas sob a tipologia de habitat de “grutas não exploradas pelo turismo” (Habitat 8310), estas cavidades funcionam como abrigos subterrâneos de importância nacional para várias populações de morcegos cavernícolas. A serra é uma área de hibernação crítica durante os meses de inverno, acolhendo milhares de morcegos que utilizam as grutas profundas como refúgio migratório. Destacam-se espécies protegidas como o morcego-de-peluche e outras espécies.

O acesso e a visitação às grutas que servem de abrigo de morcegos de importância nacional são estritamente interditados ao público, exceto em casos autorizados para ações de conservação da natureza ou investigação científica.

A Capela de Nossa Senhora das Neves localiza-se no ponto mais alto da Serra de Montejunto, na freguesia de Lamas, no concelho do Cadaval. Erguida a cerca de 666 metros de altitude, esta capela oferece uma vista panorâmica desimpedida sobre o Geoparque Oeste, estendendo-se até ao mar e às Berlengas.

Historial e Arquitetura

Origem Medieval: Terá sido construída inicialmente no século XIII, sendo um local de romarias documentado desde a Idade Média.

Evolução: Sofreu várias remodelações e ampliações entre os séculos XVI e XVIII.

Interior: Caracteriza-se pela simplicidade arquitetónica, destacando-se uma imagem da padroeira do século XVI, altares revestidos com azulejos do século XVII e o retábulo do altar-mor datado do século XVIII]

Enquadramento e Pontos de Interesse Próximos

Mesmo ao lado da capela encontram-se as ruínas históricas daquele que é apontado como o primeiro Convento Dominicano em Portugal, fundado no século XII.

Tradições

Anualmente, a 5 de agosto, realiza-se a tradicional Romaria de Nossa Senhora das Neves, uma festividade de cariz medieval que continua a atrair a população local e devotos ao topo da serra

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