Ilhas de Ons

Parque Nacional das Ilhas Atlânticas

Sejam bem-vindos a esta magnífica viajem e quem conduz o autocarro é a competente e ótima pessoa Marcos Costa, portanto estejam a vontade para lhe pedirem tudo. Depois vou eu o vosso guia Carlos Castela, o melhor interprete do Património de Portugal, no passado, presente e futuro e ainda o pai Marçal que tem a função incrível de ajudar as pessoas a descerem e a subirem para o autocarro- ah mas o Marcos também faz isto.

As Rias Baixas são uma série de quatro grandes enseadas costeiras situadas na costa sudoeste da Galiza, em Espanha: a Ria de Muros e Noia, a Ria de Arousa, a Ria de Pontevedra e a Ria de Vigo.

A sua existência e formato único devem-se a uma combinação de fraturação tectónica, erosão fluvial e subida do nível do mar.

Por que existem as Rias Baixas? (Origem e Formação)

A formação das Rias Baixas explica-se através de três grandes etapas geológicas:

A Fraturação Tectónica (As Linhas de Fraqueza): Há milhões de anos, as forças tectónicas que moldaram a Península Ibérica criaram uma rede de falhas geológicas na Galiza. Estas falhas correm principalmente na direção Nordeste-Sudoeste. As rochas nestas zonas de falha ficaram fraturadas e muito mais frágeis do que as rochas circundantes.

A Erosão Fluvial (A Escavação): Durante os períodos em que o nível do mar estava muito baixo, os rios galegos (como o Ulla, o Lérez e o Verdugo) correram por estas zonas de fraca resistência. Ao longo de milhares de anos, a força da água escavou vales profundos, longos e estreitos seguindo o traçado das falhas tectónicas.

A Inundação Marinha (O Nascimento da Ria): No final da última Idade do Gelo (há cerca de 10.000 a 18.000 anos), os glaciares derreteram à escala global e o nível do mar subiu drasticamente. O Oceano Atlântico invadiu e inundou estes vales fluviais profundos, transformando os antigos cursos dos rios em braços de mar. É a isto que a geologia chama um vale fluvial inundado ou ria.

Características Geológicas Principais

Rochas Graníticas e Metamórficas: O subsolo das Rias Baixas é maioritariamente composto por granito antigo e rochas metamórficas (como o xisto). Sendo o granito uma rocha dura, as áreas que não estavam fraturadas pelas falhas resistiram à erosão, formando os cabos e as montanhas que delimitam as rias.

Barreiras Naturais (As Ilhas Cíes, Ons e Sálvora): À entrada das rias existem arquipélagos que funcionam como quebra-mares naturais.

Sedimentação Ativa: O fundo das rias é rico em sedimentos trazidos tanto pelos rios (areias e lamas) como pelas correntes marinhas. Isto cria um ecossistema de fundos arenosos e vasa, ideal para a riqueza biológica da região.

Diferença entre Ria e Fjord (Fiorde)

Embora pareçam semelhantes à vista desarmada, a sua origem geológica é completamente diferente:

CaracterísticaRia (ex: Rias Baixas)Fiorde (ex: Noruega)
Agente EscavadorRios (Erosão fluvial em zonas de falha)Glaciares (Línguas de gelo pesadas)
Formato do ValeEm forma de “V” (típico de vales de rios)Em forma de “U” (com paredes verticais)

A impressionante produção de marisco e peixe na região existe porque a geologia única das rias atua como uma armadilha perfeita para os nutrientes trazidos pelo oceano.

A relação direta entre a geologia das rias e este fenómeno biológico ocorre através dos seguintes passos:

1. O Motor: Os Ventos de Norte e o Efeito Coriolis

Durante a primavera e o verão, a posição do Anticiclone dos Açores gera ventos constantes que sopram de Norte para Sul paralelamente à costa da Galiza e de Portugal.

Devido à rotação da Terra (o chamado Efeito Coriolis e o transporte de Ekman), a água quente da superfície da costa não segue a direção do vento; em vez disso, é empurrada para longe da costa, em direção ao oceano aberto.

2. A Resposta Geológica: As “Mangueiras” Submarinas

Como a água da superfície foi empurrada para o mar, cria-se um “vazio” junto à costa. Para preencher esse espaço, as águas profundas do Oceano Atlântico (a massa de água conhecida como Água Central Noratlantica , que são extremamente frias e carregadas de nutrientes (como nitratos, fosfatos e silicatos), sobem à superfície.

É aqui que entra a geologia:

As Rias Baixas são vales profundos, em forma de funil, com uma orientação orientada para o sudoeste.

Esta orientação e formato funcionam como verdadeiros canais ou “mangueiras” submarinas. A água fria e rica do fundo do oceano entra sem obstruções diretamente para o interior das rias.

3. A Geometria da Ria: Uma Fábrica de Alimento

Uma vez dentro da ria, a água profunda encontra um ambiente raso, calmo e muito iluminado pelo sol de verão. A combinação de luz solar abundante com a enorme quantidade de nutrientes vindos do fundo do mar provoca uma explosão de fitoplâncton (microalgas verdes).

Além disso, a morfologia das rias — protegidas na entrada pelas ilhas (Cíes, Ons, Sálvora) — impede que as fortes correntes oceânicas dispersem esse alimento. O plâncton fica “retido” dentro da ria, criando uma espécie de sopa nutritiva ideal.

O Resultado Prático: As Bateas

O fitoplâncton é o alimento principal dos moluscos bivalves. Os galegos aproveitam esta “fábrica natural” através das bateas (as famosas plataformas flutuantes de madeira). Como a água está constantemente a renovar-se e cheia de nutrientes graças ao relevo da ria, os mexilhões e as ostras crescem ali a uma velocidade três vezes superior à de quase qualquer outra parte do mundo.

As Principais Rias Baixas (de norte a sul)

-Ria de Muros e Noia (ou Muros e Noya):

-Ria de Arousa: A mais extensa e a maior de toda a Galiza.

-Ria de Pontevedra: Abriga vilas emblemáticas como Combarro e Pontevedra  e onde está na desembocadura as ilhas Ons

Geograficamente inclui também as pequenas rias adjacentes como Corcubión e Aldán

Parque Nacional das Ilhas Atlânticas

As Ilhas Atlânticas estão situadas nas Rias Baixas galegas, tendo uma extensão de 1 200 hectares terrestres e 7 200 hectares marítimos. Em 13 de junho de 2002 tornaram-se o primeiro parque nacional da Galiza (décimo terceiro da Espanha). A sua denominação oficial é Parque Nacional Marítimo Terrestre das Illas Atlánticas de Galiza (em Galego).

Portugal tem apenas um Parque Nacional, o Parque Nacional Peneda Geres.

A delimitação territorial deste parque nacional, que inclui as ilhas Cíes, Ons, Sálvora e Cortegada, foi realizada em função da singularidade e riqueza da faunaflora e a sua espetaculosidade paisagística.

Arquipélagos e ilhas integrantes

Arquipélago de Ons: As ilhas Ons formam um arquipélago situado na boca da Ria de Pontevedra. É composto pela ilha de Ons, a única ilha do parque nacional habitada durante todo o ano, outras pequenas ilhas

Na ilha encontra-se uma das colônias galegas existentes de Painho-de-cauda-quadrada ou a Gralha-de-bico-vermelho encontra nas zonas rochosas do arquipélago um dos seus últimos redutos na Galiza

Arquipélago de Cíes: As ilhas Cíes formam um arquipélago situado na boca da Ria de Vigo, pertencente as Rías Baixas, em  Em Fevereiro de 2007 o jornal britânico The Guardian escolheu à praia de Rodas, na ilha de Monteagudo, como “a praia mais bonita do mundo”.[2]

O arquipélago tem a maior colônia de Corvo-marinho-de-crista da Europa (25% populacional mundial) e a maior colônia mundial de Gaivota patiamarela

Geologia das Ilhas Ons

O Arquipélago de Ons faz parte do soco hercínico (orogenia varisca) do Noroeste da Península Ibérica. No entanto, ao contrário das Cíes (onde o granito domina quase em absoluto), Ons apresenta uma geologia marcada por uma forte compartimentação em bandas paralelas onde coexistem rochas ígneas e metamórficas.

A litologia de Ons divide-se essencialmente em dois grandes domínios: [1]

1. Rochas Ígneas: O Granito de Duas Micas

A rocha magmática predominante na ilha é um ortognainsse-granito ou granito sin-tectónico de duas micas (biotite e moscovite).

Génese: Trata-se de um granito gerado pela anatexia induzida durante a colisão varisca há cerca de 310–320 milhões de anos.

2. Rochas Metamórficas: O Complexo de Xistos e Gnaisses

Esta é a grande diferença de Ons em relação a outras ilhas do Parque Nacional. Há uma abundância notável de rochas metasedimentares paleozoicas que aparecem interestratificadas ou em contacto intrusivo com os corpos graníticos: [1, 2]

Xistos e Micaxistos: Rochas metapelíticas com forte xistosidade, ricas em micas, quartzo e, localmente, minerais de metamorfismo regional de grau médio (como silimanite ou andaluzite, dependendo da auréola de contacto e do metamorfismo regional).

Geomorfologia e Fracturação Estrutural

A disposição destas rochas e a densidade de fraturação controlam toda a paisagem que vemos hoje:

Assimetria Este-Oeste: A ilha é um reflexo direto da resistência dos seus materiais. A costa ocidental (aberta ao Atlântico) é escarpada, abrupta e dominada por falésias verticais talhadas nos granitos e gnaisses mais resistentes. A costa oriental (voltada para o interior da ria) é mais suave, onde a erosão dos xistos e a dinâmica de deposição permitiram a acumulação de sedimentos e a formação de praias.

História e Arqueologia das Ilhas Ons

1. Proto-história: A Ocupação Castrexa (Idade do Ferro)

Durante décadas, assumiu-se que Ons tivera apenas ocupações esporádicas na Idade do Bronze devido a achados dispersos. Contudo, a arqueologia de campo recente mudou radicalmente o paradigma.

Castro do Castelo dos Mouros: Situado no ponto mais estreito da ilha (Monte Castro), a cerca de 93 metros de altitude, este assentamento fortificado remonta à Idade do Ferro (séculos II-I a.C.). Apresenta um urbanismo complexo adaptado à topografia, organizado em terraços artificiais na encosta. A nível defensivo, possui uma impressionante muralha de terra em formato de meia-lua acompanhada por um fosso visível e outros dois fossos concêntricos anteriores.

Castro da Cova da Loba: Localizado no norte da ilha, um assentamento de menores dimensões com abundantes registos de concheiros (lixeiros compostos por restos de moluscos), evidenciando uma paleodieta fortemente dependente da recoleção marinha.

2. A Antiguidade: Romanização e a Fábrica de Púrpura

Ao contrário do mito do isolamento, a transição para a época clássica transformou Ons num entreposto comercial e manufatureiro plenamente integrado nas rotas atlânticas do Império Romano.

Toponímia Clássica: Plínio, o Velho, na sua História Natural, batizou-a formalmente como Insula Aunios.

A Transição Litúrgica e Comercial do Castro: As escavações arqueológicas confirmaram que o Castelo dos Mouros manteve uma densa ocupação continuada que se estendeu até ao século IV d.C. Foram recuperados materiais de importação de alto estatuto, incluindo ânforas béticas (do sul da Península) e itálicas, demonstrando que a ilha consumia e comerciava vinho, azeite e o famoso garum.

A Indústria da Púrpura (Via dos Múrices): Um dos achados mais fascinantes na praia do Porto do Con foi a identificação de oficinas romanas destinadas à extração de tintura púrpura a partir da fraturação mecânica de gastrópodes marinhos (especialmente o Hexaplex trunculus e o Bolinus brandaris). As túnicas de patrícios e césares em Roma usavam pigmento processado nestas ilhas atlânticas.

3. Idade Média: Doação Real e o Medo do Horizonte

O registo arqueológico para o período suevo e visigótico entra num hiato (provável abandono generalizado face à instabilidade geopolítica pós-queda de Roma). A ilha reentra na história escrita pela via diplomática altomedieval: [1]

O Documento de 899: A primeira menção documental explícita surge no ano de 899, quando o rei Afonso III de Leão e Astúrias faz a doação perpétua da “Isla Aones” ao Cabido Compostelano (Catedral de Santiago de Compostela). A doação seria confirmada posteriormente por Afonso VI em 1109 ao famosos Diogo Gelmirez, personagem que irão ouvir falar porque é um dos homens mais ambiciosos da História da Península Ibérica e peça fundamental no tempo do reinado de dona Urraca, da sua  irmão, pretende a ser rainha da Galiza e de Portugal e mãe do nosso Afonso Henriques. Sem Diogo Gelmirez não existia o Caminho de Santiago

 Efeito Monástico e a Laxe do Crego: Durante a Baixa Idade Média, existiu na ilha o Mosteiro de San Martín (século XV), hoje desaparecido a nível estrutural à superfície. O vestígio material mais icónico deste horizonte medieval é a Laxe do Crego (na praia de Area dos Cans): uma sepultura antropomórfica escavada diretamente na rocha granítica da praia, datável do período alto-medieval.

Ameaça Viking e Abandono: Devido à sua posição ultra-exposta na boca da Ria de Pontevedra, Ons foi usada repetidamente como base avançada ou saqueada por frotas de vikingos, normandos e corsários. Isto forçou a fuga sistemática dos colonos para o continente durante séculos.

4. Idade Moderna e Contemporânea: Feudalismo e Propriedade Privada

O Feudo dos Montenegro: No século XVI, a Igreja cedeu a ilha em feudo à influente família aristocrática Montenegro. A população regressou progressivamente para pagar rendas em espécie (sobretudo peixe seco). No entanto, os ataques de corsários ingleses (incluindo as incursões de Francis Drake) e berberes voltaram a desertificar o território temporariamente.

A Privatização Industrial (Século XIX): Com a desamortização do século XIX, a ilha passou por várias mãos privadas (como o industrial Riobó). Foi nesta fase que se instalou uma fábrica de salga de peixe perto do cais, alterando profundamente a organização social de Ons. A comunidade organizou-se em bairros de arquitetura popular marinheira e introduziu a dorna galega (embarcação tradicional) como ferramenta essencial de sobrevivência.

Hoje, a ilha é do estado Esapnhol, mas permanece como o única Ilha que  no parque Nacional das Rias Baixas ainda mantém uma comunidade de residentes locais.

O barco típico a dorna é um dos tesouros da arquitetura naval europeia. As suas linhas hidrodinâmicas, com proa vertical e popa lançada, derivam diretamente das embarcações nórdicas (influência viking/vanda na Galiza altomedieval), adaptadas ao mar aberto do Atlântico. Em Ons, a dorna não era apenas um barco; era a única ferramenta de ligação e sobrevivência.

A Especialização Funcional (A Dorna Polveira): Embora a tipologia máxima fosse a Dorna Meca (maior e para mar aberto), a identidade de Ons está ligada à Dorna Polbeira (destinada à pesca do polvo, a grande especialidade local). Eram embarcações mais curtas (cerca de 4 a 4,5 metros), o que permitia uma manobrabilidade extrema para navegar sobre as perigosas rochas granítica e gnaissica do ocidente da ilha, onde o polvo abunda.

2. A Evolução da Arquitetura dos Hórreos em Ons

O Espigueiro o hórreo galego (elevado para secagem do milho e proteção contra roedores e humidade) sofre em Ons uma mutação tipológica fascinante determinada pela escassez de recursos florestais e pela exposição aos ventos salinos.

Na ilha, os hórreos recebem localmente o nome de hornios ou piornos. A sua evolução estratigráfica e arquitetónica divide-se em três fases bem documentadas:

Fase 1: O Espigueiro de Varas de madeira. Não resta nenhum exemplar intacto à superfície. [1Fase 2: O Espigueiro de Pedra Com a estabilização da população e alguma capacidade económica no século XIX, surgem os hórreos de pedra. Utiliza-se o granito local

Sustentação por Celeiro: Em vez dos tradicionais pés isolados (capitéis circulares para ratos), a maioria dos hórreos de Ons evoluiu para uma sustentação sobre soleiras ou paredes que fecham o espaço inferior. Isto servia para criar um armazém fechado extra por baixo da câmara e para proteger a base estrutural das fortíssimas rajadas de vento

Fendas de Ventilação Mínimas: Ao contrário dos hórreos do continente, que ostentam grandes frinchas ou aduelas abertas, os de Ons têm frinchas muito estreitas praticadas nas fiadas horizontais de cantaria. O objetivo era evitar que a chuva batida lateralmente pelo vento atlântico ensopasse o milho no interior.

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