O notável castelo de Numão, sentinela de granito erguida, rodeada por xisto, apresenta-se-nos hoje como um testemunho eloquente da persistência humana num território de contrastes. A sua implantação num cabeço granítico declivoso, a 677 metros de altitude, não é um mero acaso geográfico; remete-nos para tempo de guerra, pois até tempos recentes quando o ser humano subia, era por medo e não por comodidade.
Aqui muito perto a Ribeira da Teja encontra o Douro.
Aqui, a erosão profunda talhada no xisto, visível do alto das torres, recorda-nos a lição que o tempo e a geomorfologia geológica, na sua escala de milhões de anos, são o palco onde se desenrola a breve e inquieta história dos Homens.
Do alto do castelo, o olhar alcança dois pontos fantásticos, a vila de Ansiães e o miradouro da Capela do Viso.
A ocupação pode recuar ao Calcolítico e à Idade do Bronze. Embora a presença romana aguarde ainda a confirmação por parte da pá do arqueólogo.
Classificado como Monumento Nacional desde 1910, Numão interpela-nos sobre o futuro. Numa época em que o interior parece por vezes “atrofiado” em relação ao Litoral, este castelo ergue-se como um símbolo de resistência. É um lugar que deve ser no futuro muito avistado.
O castelo medieval
Ao longe Numão parece a cauda de um dragão em pedra e faz-nos lembrar que a história não se lê apenas nos livros; sente-se na espessura do tempo que as pedras teimam em guardar. Recuemos a 960, ano em que o nome de Numão (então Nauman) emerge na escrita, não por um feito de armas, mas por um gesto de alma no outono da vida. Expliquemos.
Por essa altura, é já claro que o topo do monte albergava uma estrutura militar, ainda que se desconheça, por completo, quais as suas caraterísticas.
D. Flamula (Ou Chamoa Rodrigues) era sobrinha de Mumadona Dias (filha de sua irmã, D. Leodegúndia Dias e de D. Rodrigo Tedones). Falmula é autora de um importante documento do ano de 960, onde doa vários castelos ao Mosteiro de Guimarães, onde governava a tia, quando se sente doente e perto do fim da sua vida, e que assim decidiu dispor os seus bens em vida e ingressar no cenóbio de Guimarães.
«…nostros castellos id est Trancoso, Moraria, Longobria, Nauman, Vacinata, Amindula, Pena de Dono, Alcobria, Seniorzelli, Caria, cum alias penellas et populaturas que sunt in ipsa stremadura …». (1)
D. Flâmula, sentindo assim o fim da vida, dispõe dos seus bens — Numão, Trancoso, Moreira de rei, Longroiva, Penedono e outros que desconhecemos — como quem arruma o mundo antes da partida.
Este documento é de particular importância para o estudo dos castelos medievais portugueses, pois enumera os vários castelos que a condessa possuía na zona da Beira Interior (na altura referida como “Extremadura“).
Esta Beira Interior, que o documento designa como (stremadura), era então o “fim do mundo” cristão, uma franja de incerteza e perigo. A fronteira não é apenas uma linha, mas uma zona de contacto e atrito. Naquela época, o Douro era o grande fosso, e estas “penas” e “populaturas” situadas a sul funcionavam como as sentinelas de uma civilização que espreitava o sul muçulmano.
Mas a História é feita de avanços e recuos e o domínio de Guimarães desmoronaram-se sob o avanço das tropas de um Almansor, nesse ocaso do primeiro milénio que trouxe o terror e o silêncio às muralhas. Foi necessário esperar pelas cavalgadas de Fernando Magno, entre 1055 e 1057, para que Numão voltasse ao seio da cristandade.
Quando me sento, invento uma lenda— e a lenda é história escondida — que por aqui poderá ter passado o jovem Rodrigo Díaz de Vivar, o Cid. Imaginar o Campeador, com os seus vinte anos, sentado nestas escarpas, contemplando o mesmo horizonte que hoje nos deslumbra, é um exercício de romântico. O que via ele? Certamente não o românico ou o gótico que hoje ali restam, mas uma estrutura mais rude, talvez mais próxima da terra, onde o granito servia de alicerce a uma sobrevivência precária.
Nestas campanhas de Fernando o Magno culminou com a reconquista de locais como Seia, Lamego, S. Martinho de Mouros e Viseu, mas também Moreira de Rei e o castelo de Numão que deve ter sido conquistado em 1055. Este avanço culminou na importante conquista da importante cidade de Coimbra em 1064.
A frase completa, retirada do inventário dos bens do Mosteiro de Guimarães de 1059, que volta a referir a posse dos bens doados em 960 é:
«… Et in extremis ex alia parte durio castellos. id sunt Trancoso cum suas villas. Longobria. Terrenio. Moraria. Nauman. Vacinada. Pennadedomno. Amendula. Seniorzelli. Alcobria et Caria. istas penas cum toto suo devido… (2).
Hoje, nada resta da Numão de Flâmula ou de Fernando Magno à vista desarmada. O castelo atual, com as suas marcas românicas e góticas, é um monumento à continuidade. Ele ensina-nos que, embora as estruturas mudem e os homens passem, a necessidade de domínio sobre o espaço e a busca por um lugar de segurança permanecem imutáveis. Numão é, assim, o testemunho de que o presente é apenas uma camada fina de poeira sobre um passado denso e vibrante, que espera de nós não apenas a visita, mas a compreensão profunda e que nos pode colocar a imaginar como seria cada um dos períodos porque passou Numão.
Com a aurora da Independência, o Rei D. Afonso Henriques —compreendeu que a soberania não se mantinha apenas com o fio da espada, mas com a teia das vassalagens e a fixação de populações na terra.
A doação de Numão ao seu cunhado, o “feroz” Fernão Mendes de Bragança, o célebre Braganção, é um episódio revelador da sociologia do poder da época. Fernão Mendes não era apenas um familiar; era um dos “senhores da guerra” do Norte, um daqueles braços armados que, no campo de São Mamede, preferiram a independência do Condado Portucalense à submissão ao reino galego. Esta figura de autoridade foi essencial para organizar o espaço no nordeste transmontano.
O foral concedido pelo Braganção em 8de julho de 1130 à então designada Civitate Noman. Dar um foral era, na essência, “atribuir um valor” e um “significado” a uma comunidade. Era o nascimento do municipalismo, o reconhecimento de que aqueles que habitavam ali e aqui tinham direitos e deveres, tornando-se parte integrante da “identidade nacional” que então se esboçava.

No reinado de D. Sancho I (1185-1211), o “Povoador”, Numão entra numa nova fase de afirmação monumental. Sob o seu comando, foram concluídas as obras de recuperação e erguida a Torre de Menagem, símbolo máximo da autoridade e da verticalidade sobre o horizonte.
Esta torre, que hoje perscrutamos no seu silêncio de pedra, teve outrora uma voz: uma inscrição epigráfica datada de 1189. Infelizmente a pedra desapareceu, a falta dessa inscrição é uma lacuna que alguém furtou ou estragou, pois nela se lia a sua “certidão de nascimento”.
Sob a égide de D. Afonso III, o “Bolonhês” (1248-1279), Numão vê renovado o seu compromisso jurídico e social.
Contudo, é com o seu sucessor, o “Lavrador” D. Dinis (1279-1325), que Numão assume uma nova dimensão arquitetónica. A confirmação do foral em 1285 deverá ter acompanhado uma renovada etapa construtiva. Estávamos ainda antes do Tratado de Alcanizes (1297); a fronteira com o Reino de Leão e Castela situava-se ali perto, nas margens do Rio Côa.
À época do reinado do rei dom Fernando (1367-83) era em 1373 o alcaide-mor de Numão, o Conde de Marialva, Vasco Fernandes Coutinho. Esta função permaneceria em sua família até ao 4° conde de Marialva, D. Francisco Coutinho no reinado de dom João III (1521-57).
Entramos agora num dos períodos mais importantes e dramáticos da nossa história. Sob o reinado de D. Fernando I (1367-1383), o “Formoso”, Numão encontrava-se sob o braço de uma das linhagens mais poderosas da Beira: os Coutinhos. Em 1373, era Alcaide-mor Vasco Fernandes Coutinho, o Conde de Marialva, iniciando uma dinastia de poder que se prolongaria por gerações, até ao tempo de D. João III.
Contudo, é com a morte do “Rei Inconstante” que Numão mergulha na Crise de 1383-85. Numão, fiel à sua tradição senhorial e à legitimidade dinástica da altura, tomou o partido de D. Beatriz. Não foi um gesto isolado; foi o pulsar de uma região inteira. Penedono, Pinhel, Sabugal, Castelo Rodrigo e Trancoso formaram um bloco de resistência, uma geografia de fidelidade à Rainha que, aos olhos de muitos, representava a continuidade da ordem estabelecida.
Estas vilas da Beira Interior, isoladas pela crueza da paisagem e pela distância da “raia”, mantinham uma autonomia de pensamento e de ação que as distinguia do bulício mercantil de Lisboa e mais próximas do apelativo reino vizinho, mas o Mestre de Avis e as suas hostes venceram e hoje Portugal é uma das nações mais antigas do mundo e somos uma pátria exótica no seio da Península Ibérica.
À medida que avançamos para o outono da Idade Média, o destino de Numão revela-nos as fragilidades do povoamento nestas terras de xisto e granito, onde a sobrevivência é uma luta constante contra a pobreza dos solos. Em 1436, sob o curto, mas reflexivo reinado de D. Duarte, a instituição de um couto de homiziados é um sinal inequívoco de crise: o castelo, apesar da sua imponência, lutava para reter almas. Oferecer o perdão a quem cometera crimes era a última estratégia do Reino para não deixar morrer este “esteio da fronteira”.
A vila conheceria um último fôlego de prestígio com o Foral Novo de D. Manuel I, em 1512, sendo então Comenda da prestigiada Ordem de Cristo. Contudo, o Cadastro da População de 1527 é um espelho da realidade sociológica: apenas 15 fogos restavam no interior da cerca, com outros 41 dispersos pelos arredores. Aqui surge o pensamento que o valor de um lugar não se mede apenas pela sua pedra, mas pela capacidade de manter uma comunidade viva e coesa.

A decadência acentua-se com o fim da linhagem dos Coutinhos em 1534. Sem a proteção de uma família poderosa, Numão perdeu o seu “centro de gravidade”. O facto de, em 1568, o alcaide-mor preferir a hospitalidade de Freixo de Numão ao isolamento do castelo, é sintomático: da aspereza da do declive e do frio beirã, mais reforçado no alto, tornaram-se insuportáveis para uma nobreza que agora buscava o conforto renascentista.
O castelo permanece ancorado no alto do seu cabeço, mas a vida, qual organismo que procura o vale mais confortável, acabou por descer pois Numão “de baixo” já começaria a ter alguma dimensão porque a sua igreja, paoquial, já foi construída na segunda metade do século XVI.
No século XVIII, a povoação abandonou definitivamente o cimo do monte para se instalar no sopé.
Hoje, ao contemplarmos as ruínas de Numão, somos confrontados com a “filosofia do abandono”. Incorporada no concelho de Freixo de Numão no século XVII, a vila medieval tornou-se um fantasma de granito.
O ano de 1758 traz-nos, através das Memórias Paroquiais, o retrato de um Portugal profundo que se reorganizava após o trauma do Terramoto de Lisboa. O pároco António Vaz Dias, de Freixo de Numão, documenta então uma realidade de transição: o novo povoamento era já um termo, contando com 80 vizinhos. Este é o testemunho da lenta agonia de um povoamento de cumeada, onde a “tirania da distância” e a dureza do clima começavam a vencer a resistência dos homens, empurrando-os para uma zona de menor altitude.
No findar do século XVIII, entre 1798 e 1799, a figura de Frei Joaquim Santa Rosa de Viterbo surge como o guardião. O autor do Elucidário encontrou um castelo que era já um espectro, praticamente arruinado. Contudo, a sua sensibilidade de antiquário permitiu-lhe resgatar o que a pedra ainda gritava: na porta voltada ao Poente, leu a inscrição “Incepit Tvrrem in Era MCCXXVII”. Esta data, correspondente ao ano de 1189.
Finalmente, em 1873, o destino administrativo de Numão sela-se com a sua integração no concelho de Vila Nova de Foz Côa. Este ajuste territorial, reflete a vitória definitiva dos vales e das novas vias de comunicação sobre as velhas sentinelas guerreiras das alturas.
Na segunda metade da década de 1940, o Estado Novo, através da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), lançou sobre Numão um olhar de restauro que procurava resgatar a dignidade do monumento. Procedeu-se, então, à consolidação e limpeza das estruturas, à reconstrução de panos de muralha e ao desentulhamento da cisterna — esse órgão vital que outrora garantia a sobrevivência no topo da montanha — além da recuperação da torre de menagem.
Contudo, a pedra, apesar da sua aparente imutabilidade geológica, é um objeto que sofre a erosão do tempo. O desmoronamento de um troço a norte das muralhas forçou novas campanhas de emergência em 1973-74, a que se seguiram intervenções em 1984.
Recentemente a intervenção do município de Vila Nova de Foz Côa trouxe a iluminação cénica ao castelo.
Características do Castelo de Numão
Contemplemos agora a morfologia deste gigante que o tempo não logrou abater. O Castelo de Numão ergue-se, majestoso, num cabeço rochoso a 677 metros de altitude, desenhando uma planta oval irregular como um exemplo perfeito de “arquitetura orgânica”: aqui, a mão do homem não se impôs à natureza, mas antes se agarrou às fragas graníticas, fundindo a estratégia militar com a geologia ancestral.
Neste vasto recinto de dois hectares, temos os estilos românico e gótico. Das quinze torres originais, restam-nos seis, sentinelas que guardam as quatro portas da vila:
-A Porta de São Pedro, a Oriente, é um “esteio da memória” dionisina. O seu arco e abóbada de ogiva remetem-nos para a reconstrução de D. Dinis, o Rei que soube, como poucos, atribuir um novo valor defensivo à fronteira. Junto a ela, a necrópole antropomórfica escavada na rocha com 10 sepulturas — o “Cemitério dos Mouros”.
Na Primavera, as amendoeiras que se enredam no granito são maravilhosas, enquanto o olhar se perde na distância até alcançar o castelo de Ansiães, unindo as duas margens do Douro numa só geografia afetiva.
-A Porta do Poente e a Oeste, espelha esta sobriedade, enquanto a Porta Falsa (poterna), a Sudeste, se dissimula num arco quebrado.
-Na Porta Principal, a Sul, aqui estão as ruínas da românica Igreja de Santa Maria do Castelo e o cemitério.
O cemitério adossado à igreja evoca a reforma de Rodrigo da Fonseca Magalhães (1835). Recordo que a proibição de enterros intramuros feriu a alma popular, gerando revoltas como a da Maria da Fonte (1846). O uso dos castelos para cemitérios dramático entre a higiene moderna e a tradição de repousar em solo consagrado, foi uma cedência que cessou as hostilidades, isto porque o castelo era a seguir a igreja principal o local mais importante de uma localidade.
No coração da praça de armas, a cisterna circular com 7 metros de diâmetro, relembra a importância da água para a sobrevivência de povos, num território de secas severas no estio.
A Nordeste, a Torre de Menagem afirma a sua autoridade. De planta quadrada e paredes rasgadas por frestas altas, é encimada por uma cachorrada de decoração geométrica.
O que é hoje o Castelo Numão
Hoje, o Castelo de Numão é um espaço de uma beleza transcendental, onde a dureza do granito é suavizada pelo verde prateado das oliveiras e pelo efémero esplendor das amendoeiras. Quando estas irrompem em flor, o castelo transfigura-se num cenário de um “eterno sortilégio”, uma visão que todo o português deveria, em algum momento da vida e guardar no seu tesouro de memórias.
Olhar hoje para estas pedras é, inevitavelmente, meditar sobre o futuro. Se no século XIII Numão foi uma sentinela contra a ameaça externa, hoje deve erguer-se como uma sentinela contra o esquecimento do nosso interior. A lição de D. Dinis — a de que a cultura e a defesa do território são faces da mesma moeda — deve continuar a cintilar nos nossos corações. Como diria Vítor Serrão, a cultura é o “último grande esteio” contra um mundo desmemoriado, reforçando os valores de partilha que nos definem.
Recordar o partido de D. Beatriz em Numão é aceitar que a nossa identidade nacional, é o resultado complexo de muitas vontades vencidas.
No presente, este castelo interpela-nos com uma gravidade silenciosa: num mundo de mudanças vertiginosas e “ondas bárbaras” que ameaçam o humanismo, a que valores e a que “alcaidarias” morais estamos nós hoje dispostos a ser fiéis? Numão permanece ali, no alto do seu cabeço rochoso, não como uma ruína morta, mas como uma luz poderosa que perdura. É um convite à resistência cultural e à celebração da nossa história, lembrando-nos que, enquanto houver memória nestas pedras e flores nestas amendoeiras, Portugal existirá.
Notas adicionais:
–Fotografia retirada do site da Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa




