Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco (***)
O Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco, classificado como Monumento Nacional, revela-se como um dos mais originais exemplares do Barroco em Portugal.
Jardim de recreio e reflexão, é dedicado a São João Baptista, cuja estátua ocupa um lugar central.
Palácio mandado construir pelo bispo da Guarda dom Nuno Noronha e serviu de residência aos bispos da Guarda no estilo tardo renascentista e onde hoje se encontra o Museu Arqueológico Proença Júnior.
As obras do Paço iniciaram-se em maio de 1596 e terminaram em 1598, conforme se pode observar no portal maneirista do terreiro de entrada com uma inscrição lapidar com as armas da Casa de Bragança a que pertencia o bispo D. Nuno de Noronha, que ordenou a edificação deste edifício
É o bispo dom João Mendonça, ainda bispo da Guarda (1711-1736), que depois de ter visitado Roma em 1717 transformou o edifício e mandou construir um jardim Barroco magnífico.
Com a criação da diocese de Castelo Branco em 1771 na a sequência da elevação da vila de Castelo Branco a cidade por dom José em 1770, e com o desmembramento do vasto território que até então pertencia à Guarda, que ocupava freguesias da Beira Alta, Beira Baixa e ia até Abrantes, no Ribatejo, este passa a ser o magnífico Paço Episcopal com o seu celebre jardim. A dicosee foi extinta em 1881, tendo sido integrada no Bispado de Portalegre. Em 1956, o seu nome foi alterado para Diocese de Portalegre- Castelo Branco.
A forma do atual conjunto ajardinado é fruto de modificações que ocorreram nos séculos XVIII, XIX e XX que interromperam a continuidade entre a horta, a mata e o bosque com o fabuloso jardim.
Na sequência da Implantação da República, já em 1911, o Jardim passa para as mãos da Câmara Municipal, primeiro por arrendamento e, em 1919, com a compra que lhe confere titularidade definitiva sobre a propriedade.
Organizado num padrão formal, mas na sua profusão de estátuas. De estilo barroco , os santos e apóstolos alinham-se nas sebes, os a estatuária de pedra reflete-se nos lagos.
Jardim de Buxo
O jardim, com as suas quadras, atualmente compostos por 24 talões, ornamentando estatuaria alegórica, que segue os requisitos iconográficos divulgados na época. A estatuaria não terá sido completada, atendendo aos plintos vazios que ali se encontra.
Muito existe para refletir com as quatro virtudes cardeais, no centro da grande quadra, em redor do lago (Justiça, Fortaleza e Temperança), com as virtudes teologais: Caridade, Fé, Esperança e Caridade e de uma segunda virtude secundária (a Lisura).
Do mesmo modo se instalaram nos extremos da quadra as referências alegóricas aos quatro continentes.
Noutro local foram colocadas, frente a frente as quatro estações.
Os signos astrológicos parecem dispostos de forma mais errática.
Como elementos do mundo tem o Fogo, mas falta a Água, Ar e Terra o que prova que a obra de João Mendonça está inacabada.
Espetacular é a colocação nos vértices com o Inferno e o Paraíso e ainda a Morte e o Anjo Final.
Escadaria dos Apóstolos
As escadarias ligam a plataforma do Jardim de Buxo a um terraço superior e enquadram um lago retangular conhecido por lago das Coroas, por nela se encontrarem 3 repuxos de pedra, com invulgar tratamento escultórico- em coluna salomónica, quase no estilo neomanuelino, coroado por uma coroa real. A escadaria dos Apóstolos situa-se em relação simétrica e oposta à escadaria situa-se em relação simétrica e oposta à escadaria dos Reis. Nos plintos que acompanham a balaustrada, situam-se as estátuas dos 4 evangelistas e dos Apóstolos. A este conjunto junta-se um outro, com os 4 doutores da igreja davam do paço para o Jardim do Buxo.
Escadaria dos Reis
A escadaria dos reis tem uma galeria de estátuas dos monarcas portugueses desde dom Afonso Henriques até Filipe III.
Percebem-se algumas particularidades, como a inclusão da nossa rainha Santa Isabel e do conde Dom Henrique, o que dá azo a glorificação destas duas personagens da nossa história, do mesmo modo que encontramos a menorização dos reis espanhóis que são representados num tamanho inferior.
Numa outra galeria temos os reis que incluem dom Sebastião e os restantes reis da Dinastia de Bragança até dom José I (que não era rei quando ocorreu o falecimento do bispo, mas que foi acrecentado depois, em lugar deixado vago.
Nestas escadarias está bem patente uma dicotomia entre o polo espiritual (Os apóstolos e os doutores da igreja) e o polo temporal (representado pela escadaria dos reis), interligando a história sagrada com a história nacional.

Tanque de Moisés
O Tanque e a Cascata de Moisés conferem a água, um elemento omnipresente na arquitetura dos Jardins como um papel místico.
Ao mesmo tempo, a cascata do tanque que colhia a água de duas noras, constituem o elemento hidráulico chave de toda a distribuição hídrica do jardim, uma vez que se situam num plano sobrelevado, funcionando como represa e distribuidor de água, permitindo o funcionamento dos repuxos e o preenchimento dos lagos.
O tanque armazenava a água indispensável à rega do jardim e ainda servia para presentear os bispos, que nele tiveram uma canoa e um batel.
A cascata é formada por degraus rusticados, no seu início podemos ainda encontrar Santa Ana e a Samaritana que ladeiam a cascata, e Maria Madalena, padroeira dos jardineiros, na porta do estrume que antigamente dava para um dos olivais do paço.
No seu cimo situa-se Moisés segurando as Tábuas da Lei e com os seguintes dizeres em cada uma das páginas. Numa página está escrito dois dos dez Mandamentos: “Amarás ao Senhor teu Deus e ao teu próximo como a ti mesmo. A referência ao gesto fundador de Moisés, descrito nos Salmos, 77 encontra-se patente pela inscrição “Feriu a pedra, brotaram águas, e as torrentes transbordaram.
Tem ainda as imagens de Santa Maria Egipcíaca (na porta que dá para o olival) e de São João Batista (junto ao Jardim do Buxo), dom João Mendonça consagrou todo o espaço a são João Batista.
A base da estátua de S. João Baptista e na de Maria Madalena acha-se a data de 1725; na tábua da lei que Moisés segura, com a súmula: “Ama o Senhor teu Deus e o próximo como a ti mesmo” pode ver-se a data de 1726.

Lago
O jardim alagado é excêntrico, composto por desenhos curvos de alegretes de alvenaria com plantas, à imagem e semelhança dos jardins das casas romanas, talvez estruturas que tinha visto em Roma.
Este jardim resume toda a cosmogonia de João Mendonça, que divide o mundo profano temporal do mundo espiritual.
O Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco não é apenas um monumento nacional; é um dos mais fulgurantes e enigmáticos manifestos do Barroco europeu. Mais do que um espaço de lazer, ele configura-se como um percurso de meditação, onde a pedra, a água e a vegetação se articulam para narrar a história da Redenção e a afirmação da identidade nacional.
O edifício original, de traço maneirista, erguido por D. Nuno de Noronha no final do século XVI, é um testemunho da solidez institucional da Igreja. Contudo, é na centúria de setecentos, sob o impulso estético de D. João de Mendonça, que o espaço se transfigura. Influenciado pela sua estada em Roma, o prelado converteu o Paço numa “Villa” de inspiração italiana, onde o rigor da arquitetura dialoga com a exuberância cénica do jardim.
O jardim é uma “obra total que nos leva para o Paraíso, e a meditação. O Jardim de Buxo, com as suas quadras geométricas, funciona como um microcosmo moral. Ali, as Virtudes Cardeais e Teologais vigiam o caminhante, enquanto os Signos do Zodíaco e as Estações do Ano recordam a finitude do tempo. A presença dramática do Inferno, do Paraíso e da Morte nos vértices do jardim não é um mero adorno, mas um convite à reflexão filosófica sobre o destino da alma — o “claro-escuro” de que falava Gramsci, onde a luz da razão e da fé tenta vencer as sombras do caos.
A dialética entre o poder temporal e o espiritual encontra o seu apogeu nas escadarias. Na Escadaria dos Apóstolos, a História Sagrada impõe-se; na Escadaria dos Reis, é a História de Portugal que se afirma. Ao colocar os monarcas espanhóis em escala reduzida e enaltecer figuras como a Rainha Santa Isabel (a nossa padroeira de Coimbra, que tanto nos diz) e o Conde D. Henrique, o bispo Mendonça cristaliza em pedra a resistência e a autonomia da alma portuguesa face ao domínio estrangeiro.
O Tanque de Moisés, com a sua cascata que parece brotar da rocha ferida pelo profeta, é o coração hidráulico e simbólico do conjunto. A inscrição bíblica — “Feriu a pedra, brotaram águas” — resume a mestria humana em domar a natureza para criar beleza e espiritualidade.
O Jardim do Paço, hoje sob a guarda da edilidade, sobreviveu à extinção da diocese e à voragem do tempo. No entanto, os seus “plintos vazios” e elementos em falta lembram-nos que a obra humana é, por natureza, inacabada. O desafio para o futuro é manter viva esta luz certa, trémula, mas poderosa, garantindo que este refúgio de inteligência e beleza não se perca num mundo cada vez mais “desmemorizado”. Visitar este jardim é, portanto, um ato de resistência cultural e um mergulho no “amor sábio” que define o melhor da nossa herança europeia.




