Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco (***)
O Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco, classificado como Monumento Nacional, revela-se como um dos mais originais exemplares do Barroco em Portugal.
Este jardim não é um acaso da natureza; é uma construção da inteligência. Imagine-se a caminhar por entre buchos talhados com um rigor quase cirúrgico, onde cada estátua — dos Apóstolos aos signos do Zodíaco — funciona como um parágrafo de um livro de filosofia que se lê com os pés.
Espaço de recreio e de profunda reflexão, o jardim consagra-se a São João Baptista, cuja estátua reclama para si o centro deste palco. É como se o precursor, no meio do granito e da folhagem, nos convidasse a um batismo de beleza e silêncio.
O Nascimento do Palácio e do Jardim
O palácio, nascido da vontade de D. Nuno de Noronha, bispo da Guarda, ergueu-se como residência de inverno num estilo tardo-renascentista que hoje acolhe, com igual nobreza, o Museu Francisco Tavares Proença Júnior.
As obras do Paço foram breves no tempo, mas longas no legado: começaram em maio de 1596 e em 1598 já estavam concluídas. Quem cruza hoje o terreiro de entrada, não pode deixar de ler o portal maneirista, onde uma inscrição lapidar exibe as armas da Casa de Bragança. É o selo de linhagem deste bispo que, ao ordenar a edificação, não levantou apenas paredes, mas um cenário de poder e erudição que ainda hoje faz a cidade respirar com outra dignidade.
Contudo, o grande golpe de asa — ou de cinzel — deve-se a D. João de Mendonça, bispo da Guarda entre 1711 e 1736 e cujo quadro poder ser visto no edifício do Paço Episcopal, agora transformado no museu Francisco Tavares Proença Junior. Foi ele quem, após uma viagem a Roma em 1717, regressou com o olhar deslumbrado pelo esplendor italiano, decidido a transfigurar o edifício e a dar vida a este magnífico jardim barroco. Sob o seu impulso, o que era austero tornou-se cenário, e a pedra rude da Beira rendeu-se, finalmente, ao requinte de uma arquitetura que celebrava tanto a fé como o deslumbramento dos sentidos.
Com a criação da diocese de Castelo Branco em 1771 — sequência natural da elevação da vila a cidade, assinada por D. José I no ano anterior e com o inevitável selo reformista do Marquês de Pombal — a paisagem política e religiosa da região transfigurou-se.
Deste desmembramento do vasto território da Guarda, que se estendia das terras altas da Beira até às margens de Abrantes, no Ribatejo, nasceu a autonomia deste magnífico Paço Episcopal e do seu célebre jardim.
A diocese, porém, conheceu os ventos da mudança: foi extinta em 1881, sendo integrada no Bispado de Portalegre. Mais tarde, em 1956, o nome da diocese foi alterado para Portalegre-Castelo Branco, num gesto que devolveu à cidade a sua dignidade histórica e a uniu, num traço de união geográfico, à planície alentejana.

Vamos visitar o Jardim
A morfologia do atual conjunto ajardinado é o resultado de sucessivas intervenções. As modificações ocorridas nos séculos XVIII, XIX e XX acabaram por romper a continuidade original que unia a horta, a mata e o bosque a este fabuloso jardim barroco, isolando-o como uma joia lapidada no centro da cidade.
Com o advento da República, o destino do espaço mudou de mãos: em 1911, o Jardim passa para a tutela da Câmara Municipal, inicialmente por via de arrendamento. Seria apenas em 1919 que a compra definitiva conferiria à autarquia a titularidade plena da propriedade, garantindo que este espaço se tornasse, finalmente, um património de todos os albicastrenses.
Jardim de Buxo
Vamos, então, perder-nos neste espaço magnífico?
O jardim, com as suas quadras atualmente divididas em 24 talões, é um autêntico teatro do mundo, povoado por uma estatuária alegórica que obedece ao rigor iconográfico da época. Contudo, o silêncio dos plintos vazios que ali encontramos recorda-nos que a obra de D. João de Mendonça ficou suspensa, como uma frase interrompida por um suspiro.
No coração da grande quadra, em redor do lago, as Virtudes Cardeais — a Justiça, a Fortaleza e a Temperança — montam guarda ao espírito, ladeadas pelas Virtudes Teologais: a Fé, a Esperança e a Caridade, a que se junta a subtil Lisura. É um convite à introspeção. Se olharmos para os extremos da quadra, vemos o mundo inteiro ali contido nas figuras dos quatro Continentes, enquanto as Quatro Estações se miram, frente a frente, num diálogo eterno sobre a brevidade do tempo.
Há, porém, um mistério nesta ordem: os Signos do Zodíaco parecem dispersos de forma quase errática, e dos quatro elementos que compõem o universo, apenas o Fogo se faz presente. Faltam a Água, o Ar e a Terra, prova de que o sonho do Bispo foi travado antes da meta.
Mas o momento mais telúrico, quase perturbador, aguarda-nos nos vértices: a tensão absoluta entre o Inferno e o Paraíso, vigiados pela incontornável Morte e pelo Anjo Final.
Este jardim é, no fundo, uma metáfora da própria condição humana. Tal como estes canteiros, procuramos desesperadamente a ordem, a virtude e o equilíbrio cósmico. D. João de Mendonça quis domesticar o caos com esta geometria sagrada, mas deixou-nos os plintos vazios, talvez porque faleceu antes da sua obra ter sido concluída, mas agora somos nós, os caminhantes de hoje, a preencher o espaço com as nossas próprias dúvidas. É o claro-escuro da existência: entre o medo do Inferno e a esperança do Paraíso, vamos tendo a beleza deste labirinto de bucho.

A Ascensão do Espírito: A Escadaria dos Apóstolos
Deixamos as quadras de buxo e preparamos o fôlego para subir esta escadaria.
No centro deste cenário, somos detidos pelo Lago das Coroas. É um espelho de água retangular onde três repuxos de pedra desafiam a gravidade. O tratamento escultórico é invulgar: colunas salomónicas que parecem retorcer-se numa dança barroca, antecipando quase um gosto neomanuelino, todas elas rematadas por coroas reais que brilham sob o sol da Beira. É a água a celebrar o poder, num murmúrio constante que refresca o pensamento.
Em posição de espelho, numa simetria perfeita e oposta à dos Reis, surge a Escadaria dos Apóstolos. Se de um lado tínhamos a história de Portugal, aqui temos a história da fé. Nos plintos que acompanham a elegância da balaustrada, perfilam-se os quatro Evangelistas e os Apóstolos, como sentinelas de um saber antigo.
A este exército espiritual juntam-se ainda os quatro Doutores da Igreja. É uma lição de hierarquia: para subir na vida — ou no jardim — é preciso passar pelo crivo das virtudes e da sabedoria destes mestres.
Repare na ironia desta montagem. O Bispo D. João de Mendonça criou um jogo de equilíbrios: de um lado a coroa da terra (os Reis), do outro a coroa do céu (os Apóstolos). Entre ambas, a água que corre e o tempo que foge. No fundo, subir estes degraus de granito é um exercício de humildade. O barroco lembra-nos que a vida é um palco, e nós, ao subirmos estas escadas, tornamo-nos parte da encenação.
Será que os Apóstolos, do alto do seu silêncio mineral, aprovam o nosso passo apressado de turistas do século XXI? Ou estarão apenas à espera que paremos um segundo para ouvir a sua mensagem?
A Celebração de Portugal: A Escadaria dos Reis
Se a escadaria anterior nos elevava ao espírito, esta mergulha-nos no cerne da nossa identidade e do poder temporal. A Escadaria dos Reis é uma verdadeira galeria de pedra, um “quem é quem” da monarquia portuguesa, perfilando os nossos soberanos desde o fundador, D. Afonso Henriques, até Filipe III.
Mas atenção: o granito aqui não é neutro. Há uma intenção política vibrante em cada centímetro esculpido. Repare-se na glorificação de figuras como a Rainha Santa Isabel e o Conde D. Henrique — personagens que o Bispo quis destacar como pilares da nossa génese. E, claro, a nota de humor histórico: a deliberada menorização dos reis da Dinastia Filipina-e o território dos nossos irmãos espanhóis consegue-se ver daqui, ao serem representados num tamanho inferior, os Filipes tornam-se pequenos perante a grandiosidade dos verdadeiros reis naturais de Portugal. É a arte a exercer o direito de Portugal existir.
Numa outra galeria, o desfile continua incluindo a figura trágica de D. Sebastião e os monarcas da Dinastia de Bragança até D. José I. É curioso notar que D. José ainda não era rei quando o Bispo D. João de Mendonça faleceu; o seu lugar estava vago, como uma profecia de pedra, vindo a ser preenchido mais tarde para que a linhagem não ficasse órfã de continuidade.
O que estas escadarias nos revelam é uma dicotomia fascinante. De um lado, o polo espiritual (os Apóstolos e Doutores da Igreja); do outro, o polo temporal (os Reis). É o encontro da História Sagrada com a História Nacional.
O Jardim do Paço é o lugar onde estas duas forças se dão as mãos: o Bispo, homem de Deus e senhor da terra, desenhou um espaço onde o visitante, ao subir estes degraus, é obrigado a reconhecer que a nossa existência se joga sempre entre o céu e o solo que pisamos.
Nesta encenação barroca, o Paço Episcopal não é apenas uma casa; é um monumento à memória de um povo que, mesmo na dureza do granito beirão, soube encontrar a luz da sua própria soberania.
O Milagre das Águas: O Tanque e a Cascata de Moisés
Neste teatro de pedra, o Tanque e a Cascata de Moisés conferem à água um papel que transcende o utilitário; ela é aqui um elemento místico, quase sacramental. Mas não nos enganemos com a sua beleza etérea: este é o “coração hidráulico” de todo o jardim. Situado num plano sobrelevado, o tanque colhia as águas de duas noras, funcionando como uma represa estratégica que, pela força da gravidade, alimentava os repuxos e preenchia os lagos, mantendo viva a música líquida deste espaço.
Mais do que um reservatório indispensável à rega, o tanque era um lugar de lazer para os prelados, que ali deslizavam em canoas e batéis, gozando de um silêncio que só os príncipes da Igreja podiam encomendar.
A cascata, com os seus degraus rusticados, é guardada por figuras que nos contam histórias de redenção: Santa Ana e a Samaritana ladeiam a queda de água, enquanto Maria Madalena, a padroeira dos jardineiros, vigia a “porta do estrume” — que, apesar do nome rústico, era a passagem nobre para os antigos olivais do Paço.
No cimo de tudo, domina a figura de Moisés, segurando as Tábuas da Lei. Nelas, lê-se a súmula de toda a ética cristã: “Amarás ao Senhor teu Deus e ao teu próximo como a ti mesmo”. A referência ao gesto fundador do profeta, o milagre de fazer brotar vida da secura, está gravada no granito: “Feriu a pedra, brotaram águas, e as torrentes transbordaram”.
Reflexão sobre a Sede e o Espírito: É fascinante como D. João de Mendonça, em 1725 — data que o cinzel imortalizou na base de São João Batista e de Maria Madalena —, quis consagrar todo este espaço ao Precursor, o Batista. Num território como a Beira Baixa, onde o sol não perdoa, este tanque é uma metáfora da própria inteligência humana: a capacidade de domar a terra para que a água, símbolo de pureza e renovação, nunca deixe de correr.
Moisés feriu a pedra, e nós, séculos depois, continuamos a beber desta fonte de cultura.
Ao lado o jardim alagado é excêntrico, composto por desenhos curvos de alegretes de alvenaria com plantas, à imagem e semelhança dos jardins das casas romanas, talvez estruturas que tinha visto em Roma.
O Sortilégio Final: A Cidade e o Éden
O Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco não é apenas um monumento nacional; é um dos mais fulgurantes e enigmáticos manifestos do Barroco europeu. Mais do que um espaço de lazer, ele configura-se como um percurso de meditação, onde a pedra, a água e a vegetação se articulam para narrar a história da Redenção e a afirmação da identidade nacional.
O edifício original, de traço maneirista, erguido por D. Nuno de Noronha no final do século XVI, permanece como um testemunho da solidez institucional da Igreja na Beira. Contudo, é na centúria de setecentos, sob o impulso estético de D. João de Mendonça, que o espaço se transfigura. Influenciado pela sua estada em Roma, o prelado converteu o Paço numa “Villa” de inspiração italiana, onde o rigor da arquitetura dialoga com a exuberância cénica do jardim.
Entre o granito dos Reis e o murmúrio de Moisés, o Jardim do Paço recorda-nos que a cultura é o único antídoto contra o esquecimento e a barbárie.
Ao sairmos, levamos connosco a certeza de que, tal como as águas que correm para os tanques, a nossa história precisa de ser constantemente alimentada pela memória. Castelo Branco guarda aqui não apenas um jardim, mas um espelho da alma humana: inacabada, sim, mas sempre em busca da luz e da harmonia.




