O Santuário de Nossa Senhora de Mércoles, situado na orla de Castelo Branco, é muito mais do que um simples depósito de pedras góticas ou um marco na paisagem da Beira Baixa; é um testemunho da longa duração histórica e da simbiose entre o homem, a rocha e o sagrado.
A toponímia transporta-nos para um passado remoto, anterior à nossa identidade nacional. A hipótese de um antigo templo dedicado a Mercúrio (o deus do comércio e dos caminhos) sugere um processo de aculturação que José Mattoso definiria como a atribuição de novos significados a realidades preexistentes. O cristianismo não apagou o lugar; transfigurou-o, substituindo o dia de Mercúrio (dies Mercurii) pela devoção à Virgem Maria. É a identidade portuguesa a construir-se sobre heranças romanas e pagãs, integrando-as numa unidade política e espiritual provavelmente sob o signo da Ordem do Templo no século XIII.
Outra versão sugere que Nossa Senhora apareceu ali em uma quarta-feira, dando origem ao nome “Nuestra Señora de Miercoles”, que é o mesmo um dia dedicado a Mercúrio.
A Ermida de Nossa Senhora de Mércoles está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1959.

É bem visível o trabalho gótico (seculos XIV ou XV) ostentando o seu portal capitéis decorados por motivos vegetalistas, o motivo ogival repete-se nas portas laterais e no arco triunfal da capela mor. Este portal, provavelmente original, foi substituído, nas obras do séc. 17 por um maneirista, com colunas torsas, mas foi restituído à fachada principal durante as obras em 1857.
No século XVI é comenda da Ordem de Cristo (sucessora da Ordem de Cristo) e existe a reconstrução da igreja, com a edificação da capela-mor e feitura de pinturas murais.
Sabe-se que a procissão começou a realizar-se naquela ermida em desempenho de um voto que se fez em Câmara aos 2 de julho de 1601, em agradecimento à Senhora de Mércoles por livrar os habitantes Castelo Branco da maligna epidémica que aquele ano grassara nesta povoação. Este voto, feito pelo município, obrigava-se a acompanhar a procissão anual e a nomear o ermitão. Os clérigos da vila são obrigados a ir na procissão sob pena de excomunhão.
Em Castelo Branco, no dia 16 de abril, celebra-se o feriado municipal em veneração a Nossa Senhora de Mércoles. A procissão repete-se na terça-feira após o segundo domingo de Páscoa, constitui um momento ímpar de devoção e tradição enraizadas profundamente na história da região. Quinze dias depois da Páscoa-domingo, segunda e terça feira, este é um local de festa e romaria em honra da Nossa Senhora de Mércoles. Nascida de um voto de 1601 para livrar a cidade da “maligna epidémica”, esta tradição mostra como a religiosidade popular é o cimento que une a comunidade.
A ermida é de planta retangular, composta por um só nave, capela-mor absidal e sacristia adossada ao lado esquerdo (esta já construída no ´seculo XIX), com alpendres e torres laterais, com coberturas interiores diferenciadas, de madeira em masseira na nave e em abóbada estrelada na capela-mor, esta iluminada por janela rasgada na fachada lateral direita.
Foi alvo de obras de relevo nos séculos XVII, XVIII, XIX e XX
Por exemplo em 1609, a igreja terá sido ampliada em comprimento, e com o interior forrado a azulejo azuis enxaquetados.
As torres terão sido colocadas nos séculos XVII ou XVIII.
Em 1857 a obras importantes reparação, procedendo-se à elevação das paredes da nave para substituição da cobertura, entaipamento das quatro frestas da nave, substituídas por duas janelas, recolocação do portal gótico, fazendo desaparecer um portal maneirista; construção da sacristia, arrecadação, telheiros e arranjo do adro
Na capela mor, ao centro, está a imagem do orago. Os painéis laterais têm a Anunciação e a Assunção da Virgem.
Na nave tem quadros do século XVII, mas muito ingénuos com o casamento da Virgem Maria com Santa Ana, São Joaquim que seguram a Virgem envolvida por painel de flores.
No futuro, o desafio de Mércoles é o de todas as nossas paisagens culturais: evitar que o isolamento ou o “ódio à inteligência” degradem estes tesouros. O Santuário deve continuar a ser um local de “amor sábio”, mas ao mesmo tempo erudito, onde a geografia física dos campos de Castelo Branco encontra a geografia humana da fé e da história. É, afinal, na preservação destas luzes trémulas, mas poderosas, que Portugal reafirma a sua viabilidade e a sua riqueza.




