DO TEMPLO DE MERCÚRIO À SENHORA DE MÉRCOLES: A LONGA DURAÇÃO DE UMA PAISAGEM BEIRÃ
O Santuário de Nossa Senhora de Mércoles, pousado na orla de Castelo Branco, é muito mais do que um ajuntamento de pedras góticas ou um mero acidente na paisagem da Beira Baixa. É, antes de tudo, um testemunho da longa duração — como diria o mestre José Mattoso — e da simbiose quase carnal entre o homem, a rocha e o sagrado.
A toponímia, com o seu eco de “Mercúrio”, transporta-nos para um tempo em que os deuses ainda falavam línguas latinas, muito antes de Portugal ser sequer um projeto de Reino.
Classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1959, esta ermida resiste. O santuário surge como um oásis de significado.
Não é apenas um monumento. É um espaço de resistência cultural contra o obscurantismo e a desmemória, olhar para Mércoles hoje é, portanto, contemplar o passado para entender o presente e, quem sabe, encontrar um caminho menos amorfo para o futuro.
I
Esta transição de Mercúrio para a Virgem Maria não é apenas uma mudança de “gestão” espiritual; onde o novo não apaga completamente o velho, mas senta-se ao seu colo.
Convenhamos: substituir o deus do comércio e das trocas pela Mãe de Cristo é um golpe de génio da Igreja. No fundo, passámos de pedir lucro nas estradas para pedir saúde para a alma, sem nunca mudar de paragem de autocarro. É a nossa identidade a ser cozinhada em lume brando, com ingredientes romanos e tempero templário.
E depois temos a dona Luísa.
Ah, a dona Luísa! A guardiã que zela pela ara de granito como se fosse uma relíquia da família. Há algo de profundamente poético e, permitam-me, deliciosamente português, no facto de uma peça do século II, que sobreviveu a impérios e invasões, acabar sob a custódia carinhosa de uma senhora que, provavelmente, sabe mais sobre a alma daquele lugar do que qualquer compêndio de arqueologia. Se o monumento está fraturado e lhe falta o fuste epigrafado, a devoção da dona Luísa compensa a pedra que falta.
O objeto, danificado, conserva parte do capitel moldurado. A fratura, antiga, a que foi sujeito não possibilitou que se conservasse a base e parte do fuste epigrafado e que diz (1):
BOVTIA[E] / TANGINI · F(iliae) / PROPTER (salutem?) /
[P]ALARVS / QVADRATVS ET [… … / … … / …]
Diz a inscrição: “Por causa da saúde de Boutia, filha de Tangino…”.
Por causa (da saúde?) de Boutia, filha de Tangino, Palaro e Quadrado e (…? seus filhos?… erigiram esta ara ao deus?…)
Olhando para estas letras, quase conseguimos ver o Palaro e o Quadrado, filhos aflitos a tentar salvar a mãe — nomes que hoje dariam excelentes alcunhas em qualquer aldeia da Beira — a carregar o granito, preocupados com a saúde da pobre Boutia. É o primeiro “boletim clínico” da região.
O pobre do Quadrado, com um nome tão… geométrico, já mostrava sinais de latinização. Imagino-o a tentar explicar aos vizinhos mais conservadores que agora se chamava Quadratus e que o latim era o futuro, enquanto os outros continuavam a preferir os nomes rudes da terra. É a globalização de há dois mil anos, feita à força de cinzel.
Descoberta em 1999 a par da ara “veio à superfície um conjunto de elementos arquitetónicos (silhares retangulares almofadados, silhares com marcas de fórfex, aduelas, fragmentos de tégulas) indiciadores da presença de uma estrutura romana. A descoberta desta ara poderá corroborar a hipótese, presente em quase todos os estudiosos do local, de que a atual capela se teria sobreposto a raízes sagradas temporalmente mais longínquas que o Cristianismo”. (1)
A descoberta de silhares com marcas de fórfex (aquela pinça de ferro que os romanos usavam para içar pedras pesadas) prova que ali não se ergueu um barraco qualquer. Havia engenharia, havia ambição. Erguia-se um grande monumento vertical.
Se era Mercúrio o dono da casa? Talvez. Mas o que importa é que o sagrado ali tem raízes profundas, agarradas ao quartzo do morro de São Martinho ali ao lado. É uma paisagem que respira mito.
Quem visita hoje o Museu Francisco Tavares Proença Júnior e vê as estelas, deve recordar-se que, em Mércoles, a história não está apenas nas vitrines; está viva, guardada pela dona Luísa e pelo eco de passos romanos que ainda ressoam na Beira. O passado não morreu; mudou-se apenas para uma morada mais discreta.

E não é que o povo, na sua sabedoria pragmática, arranjou maneira de batizar a coincidência?
Diz a lenda que a Senhora decidiu aparecer ali precisamente a uma quarta-feira. Miércoles, em castelhano. Ora, que conveniência! Se o nome antigo cheirava a paganismo, a devoção popular deu-lhe um banho de água benta e transformou o dia de Mercúrio no dia da Virgem.
O latim dies Mercurii transmuta-se, assim, numa aparição mariana. A nossa cultura tem esta capacidade quase biológica de absorver o que já lá estava, mudando-lhe apenas o rótulo para que a alma descanse em paz.
Convenhamos, é muito mais piedoso rezar à Senhora que apareceu a meio da semana do que admitir que estamos a pisar o chão de um antigo “balcão de negócios” do deus dos mercadores e dos caminhos, apesar da ara romana, descoberta em 1999 ser dedicada a um pedido de saúde.
E se a quarta-feira era o dia de Mercúrio, resolveu que, a partir dali o dia passava a ser da Senhora.
III
Castelo Branco, convém não esquecer, foi domínio dos cavaleiros da Ordem do Templo. Aqueles homens de capa branca e cruz vermelha, que eram tanto de oração como de espada, podem ter erguido a primeira ermida cristã.
O trabalho gótico que hoje vemos é dos séculos XIV ou XV. No portal, os capitéis decorados têm motivos vegetalistas O arco ogival, essa ogiva que aponta ao céu com a precisão de uma prece, repete-se nas portas e no arco triunfal, conferindo ao espaço uma verticalidade que desafia a dureza do granito.
Mas a história aqui é feita de idas e voltas, de “arrependimentos” arquitetónicos que dão sabor ao local.
No século XVII, algures entre o fervor da Reforma e o gosto pelo ornamento, decidiram que o portal gótico já não estava na moda. Substituíram-no por um portal maneirista, com aquelas colunas torsas que parecem querer dançar. Imaginem a cena: o gótico, austero e templário, a ser posto de lado para dar lugar ao “modernismo” da época.
Felizmente, em 1857, houve quem tivesse o bom senso (ou a saudade) de devolver o portal original à fachada principal.
A Ordem de Cristo, sucessora dos Templários, não se ficou pelos portais. No século XVI, pôs mãos à obra, erguendo a capela-mor e cobrindo as paredes com pinturas murais.
IV
E como é que esta devoção se tornou o coração da cidade? Bem, tudo começou com um “contrato” de gratidão, assinado com o céu em 1601. Imaginem a cena: Castelo Branco assolada por uma maligna epidémica — que é como quem diz, uma peste daquelas que não perdoava a ninguém. A Câmara, num misto de desespero e fé, fez um voto: se a Senhora de Mércoles (que já existia) livrasse a povoação do mal, a cidade passava a visitá-la em peso todos os anos.
Dito e feito. A Senhora cumpriu a sua parte e o município, desde 2 de julho desse ano, ficou “agarrado” ao compromisso. E não se brincava em serviço! O voto obrigava a acompanhar a procissão e a nomear o ermitão. Quanto aos clérigos da vila, tinham uma motivação extra para não faltarem: a ameaça de excomunhão. Ou seja, ou ias à romaria, ou arriscavas-te a ficar de fora do Reino dos Céus. É o que eu chamo de um convite que não se pode recusar!
Hoje, o feriado municipal de 16 de abril é o herdeiro direto desse susto seiscentista. A procissão acontece na terça-feira após o segundo domingo de Páscoa. É um momento em que a história sai à rua, provando que, como ensinava José Mattoso, a nossa identidade se faz destas continuidades que sobrevivem a tudo.
Quinze dias depois da Páscoa, o terreiro transforma-se. Domingo, segunda e terça-feira, o silêncio do campo é atropelado pela alegria de milhares de pessoas. É uma romaria a sério, daquelas onde o sagrado e o profano dançam juntos.
É a prova de que o povo da Beira sabe agradecer: primeiro por se ter livrado da peste e, hoje em dia, pela oportunidade de juntar a família, comer um bom petisco e manter viva uma chama que nem os séculos, nem as modernidades, conseguiram apagar.
No fundo, Mércoles é onde Castelo Branco vai confirmar que, aconteça o que acontecer, a identidade continua ali, firme como o granito e animada como uma tarde de romaria.
V
Entremos agora no corpo físico desta “máquina do tempo” beirã. A ermida, de planta retangular e nave única, o teto de madeira em masseira na nave dá-nos o aconchego da terra, enquanto a capela-mor nos oferece o deslumbramento de uma abóbada estrelada. É o contraste perfeito: os pés no chão e a cabeça no céu, iluminada por uma janela lateral que parece saber exatamente onde a luz deve cair para nos lembrar da nossa finitude.
A sacristia, adossada à esquerda lá pelos idos do século XIX, é o “anexo” mais recente.
Mércoles foi o estaleiro eterno da Beira. No século XVII, decidiram que o azulejo azul enxaquetado era o “último grito” da moda e forraram o interior, ampliando a igreja para que coubessem mais almas (e mais promessas). Depois, em 1857, deu-se a grande reviravolta: numa crise de nostalgia medieval, deitaram abaixo o portal maneirista, levantaram paredes, entaiparam frestas e devolveram o portal gótico ao seu lugar. Foi uma alteração profunda imaginem a cara dos pedreiros a tentar decidir se a moda era o arco quebrado ou a coluna torsa…
Na capela-mor, o orago preside ao destino de quem entra. Mas olhem com atenção para os painéis quinhentistas da Anunciação e da Assunção. As pinturas são boas e aguardam por olhos que as saibam ler. Estão ali, silenciosas, a pedir um estudo que lhes faça justiça.
E na nave, temos o momento mais delicioso: uns quadros do século XVII, de uma ingenuidade que nos desarma. Maria, Santa Ana e São Joaquim seguram uma “amêndoa mística ou mandorla — a Vesica Piscis — rodeados de flores. É uma arte que não precisa de ser académica para ser sagrada; é a fé desenhada com a pureza de quem acredita antes de questionar.
Mércoles deve ser o lugar onde a geografia física da Beira — seca, dura e resiliente — se cruza com a geografia humana da fé. Se perdermos a Dona Luísa, a ara romana de Boutia, o portal gótico e a procissão de terça-feira, ficamos mais pobres, mais amorfos.
Que Mércoles continue a ser o farol da região. Porque, no fim de contas, enquanto houver uma quarta-feira (ou uma miércoles) para recordar e uma Senhora para venerar, Portugal continuará a ser essa unidade improvável, espiritual e, acima de tudo, profundamente viva.
Notas Adicionais:
(1) Ficheiro Epigráfico, 75, 2004, F. PATRÍCIO CURADO, PEDRO SALVADO, SÍLVIA MOREIRA e MANUEL LEITÃO.
(2)- A parte da ara romana contou com a participação oral do dr. José Encarnação




