Paisagem do Castelo de Castelo Branco (**)Chastel Blanc na Beira: Memórias de Pedra e o Triunfo da Paisagem

comprovam as escavações arqueológicas de 2008, realizadas na zona do Castelo, que revelaram artefactos datados da Pré-história.

O homem paleolítico não escolheu este cume por acaso. Escolheu-o pelo domínio, pela segurança, pela leitura clara de um território.

O Castelo não começou com a primeira pedra da muralha templária; começou no momento em que o primeiro ser humano olhou para aquela elevação e percebeu que ali se podia dominar o horizonte e sentir-se seguro.

Aquele quartzito que serviu de abrigo aos caçadores-recolectores é o mesmo que, milénios depois, haveria de sustentar a cruz dos Templários.

Avançamos agora no tempo, deixando para trás os vestígios silenciosos da pré-história para entrar na Idade Média. É uma época de fronteiras móveis, onde a pedra se torna o alfabeto da sobrevivência.

Depois da Reconquista, em 1165, D. Afonso Henriques faz doar à Ordem do Templo — doação depois confirmada pelo seu filho, D. Sancho I, em 1198 — toda esta região da Beira para povoamento e defesa dos ataques dos infiéis.

Imagine-se o cenário: uma terra dura, entregue a estes monges-cavaleiros. Não era um presente de cortesia; era uma missão hercúlea. Povoar terra de ninguém e defender o território.

Mais tarde, já no século XIII, surge um documento de doação aos Templários de uma herdade designada de Vila Franca da Cardosa, emitido por um nobre de nome D. Fernando Sanches. Esta propriedade compreendia, entre outras, as terras de Castelo Branco.

No ano seguinte, o Papa Inocêncio III confirma a régia doação, afirmando que os Templários tinham fundado, na fronteira dos mouros, uma vila e fortaleza, no sítio da Cardosa, a que eles deram o nome de Castelo Branco.

O nome não é um acaso geográfico, mas uma memória afetiva e espiritual: baseia-se numa fortaleza que existe na Terra Santa, o castelo de Chastel Blanc. É curioso como a nossa identidade se constrói tantas vezes por espelhamento, trazendo o sagrado do Levante para as asperezas da Beira.

Essa edificação terá ocorrido entre 1214 e 1230.

Era um  na Idade Média, um castelo de defendia um duplo território fronteiriço, para leste na  Linha da Raia de Castela e na  Linha do Tejo do  mundo muçulmano. Na linha do Tejo tinha como companhia, os castelos de Santarém, Tomar, Almourol, Cardiga, do Zêzere, Belver e de Rodão.

No decurso do século XIII, Castelo Branco, cuja vida até então se desenrolava intramuros, começa a sentir-se “apertada”. A vila cresce, fervilha de gente que quer mais do que apenas a proteção das muralhas; quer espaço para viver e trocar mercadorias.

A partir daqui a história ganha um novo fôlego. O primeiro foral é dado à Vila de Castelo Branco por D. Pedro Alvito, o então Mestre da Ordem do Templo, algures na primeira metade do século XIII. É o nascimento formal, o batismo de uma terra que não queria ser apenas mais um ponto no mapa, mas um centro de poder.

A vila não perdeu tempo. Parece ter adquirido importância com uma rapidez impressionante, ao ponto de ser escolhida para a realização de vários capítulos da Ordem do Templo. Imagine-se o aparato: os cavaleiros de manto branco e cruz vermelha aqui reunidos, decidindo o destino de terras e homens. Era aqui que por vezes, o coração da Ordem batia.

E no ponto mais alto, no recinto desta fortaleza — a designada alcáçova —, situava-se a Igreja de Santa Maria do Castelo. Era o centro espiritual dentro da casca de pedra.

Hoje, quando subimos à alcáçova, resta-nos o silêncio e a força das fundações. É curioso pensar como as instituições morrem — os Templários foram-se, as ordens militares desvaneceram — mas o lugar permanece. Onde houve oração e estratégia militar, há agora uma memória que resiste.

Aquela igreja, no coração do castelo, lembra-nos que a defesa do corpo nunca estava separada da salvação da alma. Eram tempos duros, sem dúvida.

Deste modo, em 1285, quando D. Dinis visita a vila, em companhia da Rainha Santa Isabel, percebe que as muralhas constituíam um obstáculo à sua expansão. O Rei Lavrador, sempre atento à geografia humana, percebeu que o castelo já não podia ser apenas um colete de forças. A obra de alargamento será concretizada já no reinado seguinte, ordenada por D. Afonso IV em 1343.

Hoje, ao olharmos para estas fundações, percebemos que um castelo nunca é uma obra acabada. É um corpo que cresce, que se adapta e que, por vezes, sufoca. Estas pedras contam a história de uma transição: de um posto avançado de guerra para um centro de vida urbana.

É o eterno dilema humano: precisamos de muros para nos sentirmos seguros, mas precisamos de os deitar abaixo para podermos respirar. Castelo Branco é o testemunho vivo dessa tensão entre a defesa e a liberdade.

Mas o tempo, esse mestre implacável, trouxe a extinção dos Templários. Com a passagem dos seus bens para a Ordem de Cristo, Castelo Branco não perdeu o brilho; antes o consolidou. Foi instituída uma comenda de prestígio, com residência permanente de comendadores que exerciam jurisdição sobre outras paragens. A vila já não era apenas uma promessa; era uma capital regional.

Entramos agora num tempo de heranças e metamorfoses. Com a extinção dos Templários, a Ordem de Cristo assume o testemunho e não se limita a ocupar o espaço; ela transforma-o, construindo o Palácio dos Alcaides. É o sinal de que a força bruta da muralha começava a dar lugar ao prestígio e ao conforto da representação política.

Para percebermos como era Castelo Branco no século XVI, temos de recorrer ao olhar minucioso de Duarte d’Armas. Através das gravuras do seu célebre Livro das Fortalezas, conseguimos entrar na vila. O que vemos? Uma malha urbana apertada, de ruas estreitas que serpenteiam o morro, onde o olhar tropeça, aqui e ali, em edifícios adornados com a elegância da arquitetura manuelina popular.

Eram tempos de um Portugal global, onde o detalhe de uma janela ou de um portal em pedra trabalhada trazia para o interior da Beira o eco das descobertas e da riqueza do império.

Mas a História, sabemos bem, não é feita apenas de momentos de glória. O castelo foi um corpo fustigado. Severamente danificado ao longo dos séculos devido às sucessivas guerras que nos assolaram — nos séculos XVII, XVIII e XIX —, o monumento sofreu as feridas das invasões e dos conflitos fronteiriços. Cada cerco, cada canhoneio, deixou uma cicatriz profunda naquelas pedras.

Apesar de tudo, o resto do castelo dos Templários permanece ali, firme, como o mais importante registo histórico-militar da cidade. É um sobrevivente muito danificado.

Se mergulharmos no traço rigoroso de Duarte d’Armas, no seu fundamental Livro das Fortalezas, conseguimos quase ouvir o raspar da pena no papel enquanto ele desenhava Castelo Branco. A planta que ele nos legou revela um castelo com a forma de um quadrilátero, mais ou menos regular, defendido perifericamente por robustas muralhas que abraçavam a geografia do cabeço.

No coração desse reduto, protegida pelo abraço da pedra, erguia-se a igreja românica de Santa Maria.

A invocação do templo a Santa Maria do Castelo não era um capricho; era uma designação quase universal na Idade Média. Era a forma de colocar a proteção divina no ponto mais alto e sensível da vila. Aquela igreja não era apenas um edifício religioso; era o eixo espiritual de uma comunidade que vivia em constante sobressalto, onde a fé e a defesa eram as duas faces da mesma moeda.

Aquelas ruas que o cronista desenhou, apertadas e sinuosas, mostram-nos que Castelo Branco soube ser, simultaneamente, um punho de ferro na fronteira e um colo materno para quem nela habitava.

A Decadência

Depois de séculos de glória, o castelo entrou num longo e doloroso processo de decadência. As pedras, que antes eram escudo, tornaram-se alvos. Entre o século XVII e o início do XIX, a fortaleza foi fustigada por sucessivos conflitos — da Restauração às invasões de Junot —, deixando o orgulho templário em ferida aberta.

É curioso como um lugar tão pacato hoje foi, durante séculos um espaço atormentado. Castelo Branco não teve descanso. Estar na Beira Baixa significava ser a porta de entrada ou de saída de exércitos que raramente pediam licença.

Vamos passar os olhos por esses conflitos, mas de forma leve, como quem sacode o pó da história:

Começamos com a Guerra da Restauração  e em 1648 Portugal tinha acabado de recuperar a independência de Espanha e a fronteira era uma ferida aberta. Os espanhóis, claro, não aceitaram bem o divórcio e Castelo Branco pagou a fatura com uma ofensiva que deixou o castelo bastante maltratado.

Depois, veio a Guerra da Sucessão Espanhola (1704). Imagine o azar: uma disputa pelo trono em Madrid acaba com tropas a entrar-nos pela casa dentro. Foi aqui que o castelo perdeu parte das suas muralhas. Já não era uma fortaleza, era um alvo.

A meio do século XVIII, temos a Guerra dos Sete Anos (1762). Esta foi quase uma “guerra mundial” da época. Tropas franco-espanholas invadiram e saquearam a vila. Foi um entra e sai de soldados que só terminou com a assinatura de um tratado em Paris. O castelo, esse, ia ficando cada vez mais despido.

E, por fim, o golpe de misericórdia: a Guerra Peninsular (1807). As tropas de Napoleão, comandadas por Junot, passaram por ali como um furacão. Não vinham para conquistar o castelo, mas para o destruir, para que não servisse de abrigo a ninguém.

O que as guerras não levaram, levou o tempo e a necessidade das pessoas. É triste, mas humano: depois de tanta pólvora e sangue, o povo olhou para aquelas pedras soltas e viu nelas a oportunidade de construir casas, lareiras e muros de quintal.

O castelo deixou de ser um símbolo de guerra para se tornar, literalmente, os alicerces da cidade moderna. Deixou de meter medo para passar a dar abrigo.

A destruição foi tal que, a partir de 1821, o castelo passou a ser visto quase como uma “pedreira” gratuita. Os habitantes, precisando de erguer as suas próprias vidas, levaram as pedras para construir moradias. O próprio poder público, numa visão que hoje nos custaria a perdoar, autorizou a demolição de arcos e portas históricas — como a da Vila e a do Relógio — para converter história em calçadas e edifícios públicos.

O abandono foi selado pela natureza:

Em 1852, um violento temporal fez desabar partes da alcáçova.

Já no século XX, em 1930 e 1936, outras torres sucumbiram sob o peso de tempestades.

Parecia que o destino do castelo de Castelo Branco era o desaparecimento, mas a memória é teimosa. Ainda no século XIX, houve tentativas de reconstrução, e em 1940 a DGEMN interveio para reerguer torres e janelas, arriscando até alguns pormenores neo-manuelinos para devolver a dignidade perdida ao conjunto.

Nas últimas décadas, a cidade reconciliou-se com o seu passado. Limpezas, escavações arqueológicas e a classificação da Igreja de Santa Maria como Imóvel de Interesse Público (1978) mostram que finalmente compreendemos o valor daquela sentinela. Em 2000, as muralhas voltaram a surpreender-nos, revelando troços escondidos sob casas velhas na Rua Vaz Preto.

É o ciclo da vida: o que a guerra e o descaso derrubaram, a nossa vontade de pertencer a um lugar está a tentar salvar.

Do castelo dos templários subsiste uma torre. No interior do recinto, ergue-se a Igreja de Santa Maria, mas atenção: não se deixe enganar pela memória de Duarte d’Armas; a que vemos hoje nada tem a ver com aquela que o cronista desenhou e que era românica.

Ainda assim, há tesouros que resistem ao esquecimento.

Resta-nos o tal torreão original. Com as suas paredes grossas, quase obstinadas, e as seteiras frontais e laterais, ele é o testemunho mudo de uma vetustez que impõe respeito. É, sem dúvida, a peça arquitetónica mais antiga de Castelo Branco. Embora a envolvente tenha sido alvo de múltiplas reconstruções, aquela torre permanece fiel à sua génese, como atestam as suas frestas defensivas.

Depois, temos a chamada torre gótica (ou Torre dos Templários). Na verdade, há aqui um belo equívoco histórico: ela não era mais do que a fachada do Palácio dos Alcaides e Comendadores. Se no século XVI Duarte d’Armas a viu com a estrutura das restantes torres, hoje ela apresenta-se mais larga que o torreão românico. As sucessivas alterações deram-lhe um porte mais robusto, e ainda ostenta janelas quinhentistas.

Ainda lá está, também, um arco original. Era a porta, o limite invisível que separava o pátio de acesso público da intimidade do palácio.

O futuro, porém, já espreita por entre estas ruínas. Está a nascer o Centro Interpretativo Pedro Alvito, onde a história da cidade e a mística dos Templários serão devolvidas ao público.

E se descermos a encosta a leste, mergulhamos num tecido urbano que parece ter parado no tempo. Apesar de todas as guerras, a leitura da cidade medieval e renascentista é clara. Ali, entre ruas estreitas, descobrimos uma arquitetura de parcos recursos, mas de uma dignidade imensa. São casas que exibem portados com o que podemos chamar de “Manuelino pobre” ou “Manuelino popular”.

É um manuelino feito com o coração e com o que a terra dava; uma decoração que mostra que mesmo na escassez, o povo de Castelo Branco sentia necessidade de tocar a beleza messiânica de um rei. É o retrato de um Portugal que, entre o granito duro e a sobrevivência, nunca desistiu de deixar a sua marca no mundo. Vale a pena caminhar por ali com vagar, deixando que as pedras nos contem os segredos que as guerras não conseguiram apagar.

E o seu segredo mais profundo é, simultaneamente, de uma riqueza intelectual e de uma tristeza profunda. Castelo Branco não se entende sem a presença da sua Judiaria. Foi aqui, nestas ruas de “Manuelino popular”, que se instalou uma comunidade vibrante, mas que acabou por ser o palco de uma tragédia humana: 329 pessoas foram perseguidas ou mortas apenas por causa da sua crença.

E que figuras brotaram deste húmus cultural! Castelo Branco deu ao mundo mentes brilhantes que levaram o nome de Portugal além-fronteiras. Temos o exemplo maior de Amato Lusitano, o médico e botânico que revolucionou o saber da sua época. Imagine este homem, educado na tradição judaica, a percorrer a Europa com o seu saber, mas sempre com a Beira no coração.

E o que dizer de Afonso de Paiva? O explorador que, por ordem de D. João II, partiu em busca do Preste João. É a prova de que esta terra, aparentemente encravada entre montes, tinha olhos postos no fim do mundo.

O património não são apenas as pedras; mas também as luzes de sabedoria que estas pessoas deixaram. Estes Albicastrenses ilustres são o claro que tenta vencer o escuro da intolerância que marcou o século XVI.

Hoje, ao percorrermos a zona histórica, cada portado quinhentista parece guardar o eco de uma conversa em ladino, ou o suspiro de quem teve de partir para salvar a vida.

Castelo Branco é isto: um castelo que foi escudo, uma judiaria que foi alma e uma cidade que, hoje, tenta reconciliar-se com todas as suas sombras para construir um futuro mais iluminado.

Para fechar com chave de ouro a nossa subida a este cabeço, deixemos que o olhar se perca no horizonte. No fundo, o que torna este lugar verdadeiramente notável é a paisagem que daqui se avista.

O quartzito é esta pedra teimosa, que se recusa a vergar à erosão e que, por isso, desenha as cristas mais altivas da nossa geografia. Vê-se a este o fabuloso morro de São Martinho — como sentinela de pedra que guarda a cidade há milénios.

Mas o horizonte é generoso e não termina aqui. O olhar viaja por cristas sucessivas: Muradal, Monforte, Penha Garcia e as Portas de Ródão, onde o Tejo, na sua humildade líquida, parece fazer-se pequeno perante a imponência da rocha que o aperta. Lá ao fundo, em dias claros, adivinham-se as silhuetas da Serra de São Mamede e da espanhola Sierra de San Pedro. É a prova de que a geologia não conhece passaportes.

A norte e a este, a paisagem ganha outra escala. Erguem-se os Montes Ilha de Monsanto e Belmonte, essas “ilhas” de granito que pontuam a planície, e as cidades dinâmicas do Fundão e da Covilhã, aninhadas no sopé da montanha.

A oeste, o cenário muda de tom e de alma. Ergue-se a Cordilheira Central, a espinha dorsal da nossa terra. A oeste do rio Zêzere temos a grandiosa serra da Estrela e as altivas serras xistosas do Açor  e a este, na margem esquerda, o relevo, ainda alto, suaviza-se mas mantém a majestade na Serra da Gardunha, com os seus 1227 metros de altivez, e na Serra de Alvelos. Ali, o Cabeço da Rainha vigia os concelhos de Oleiros, Sertã e Proença-a-Nova.

Olhem bem para este horizonte: ele é o nosso passado, o nosso presente e a promessa de um bom futuro.

Desde as mãos anónimas do Paleolítico, que aqui encontraram abrigo, até ao sonho dos Templários que trouxeram o nome de Chastel Blanc das areias da Terra Santa, este lugar foi sempre especial. Foi escudo contra invasores e, mais tarde, o alicerce onde os albicastrenses buscaram as pedras para erguer as suas próprias casas. Há uma beleza melancólica nesta ideia: o castelo que deixou de ser uma arma de defesa para se tornar parte da pele da cidade.

. Daqui, vemos a Gardunha, as Portas de Ródão e a espinha dorsal da Cordilheira Central. Percebemos que somos pequenos perante a geologia.

O castelo pode ter perdido algumas torres para o tempo e para as tempestades, mas a sua paisagem tudo suplanta perante tanta beleza sábia.

Descemos agora o monte com o coração cheio. Castelo Branco não é apenas um destino; é uma lição de resistência. Enquanto houver quem olhe para estas pedras e sinta o pulsar da história, o castelo nunca será verdadeiramente uma ruína. Será sempre um ponto alto notável.

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