Panorama da Senhora da Confiança (Sertã) (*)

Entre Granito e Milagre: Paisagens do Zêzere e da Senhora da Confiança

Entre Granito e Milagre: Paisagens do Zêzere e da Senhora da Confiança

Este granito formado no Neoproterozoico/Câmbrico, é um plutonito  que revela um corpo de vários tipos de granito com grão médio a grosseiro, por vezes porfiróides, outras vezes finamente granuladas, como se o tempo tivesse experimentado várias formas antes de decidir o resultado final. Na sua constituição surgem quartzo, feldspato potássico, plagioclase, moscovite e uma biotite tão rara que, quando aparece, já vem cloritizada –. Completam o conjunto apatite, zircão, rutilo e turmalina.

Tudo isto denuncia uma idade cadomiana – cerca de 542 ± 59 milhões de anos – e um nascimento magmático gerado pela anatexia de rochas metassedimentares. Um granito fortemente peraluminoso, instalado quando a orogenia cadomiana ainda moldava o que viria a ser, milhões de anos depois e que aqui obriga o rio zezere a correr em canhão e que posteriormente possibilitou a instalação da barragem do Cabril em 1954.

A Maravilha da Senhora da Confiança

No alto do monte que vigia Pedrógão Pequeno, a Capela de Nossa Senhora da Confiança repousa com uma simplicidade altiva. Dali descortina-se uma visão ampla e luminosa: as serras da Lousã e de Sicó, e, nos dias em que o céu se mostra particularmente generoso, até a longínqua Serra da Estrela ergue o seu dorso branco granítico no horizonte.

Aos pés do monte estende-se a imensa barragem do Cabril, cujas águas calmas parecem convidar ao repouso, à contemplação e, para os mais animados, ao recreio náutico.

A tradição afirma que o local já fora ocupado por um castro pré-romano, herdeiro da Idade do Bronze e do Ferro. A capela atual, porém, data de 1906, mandada erguer pela família Conceição e Silva sobre ruínas mais antigas. É um edifício de modesta arquitetura: corpo único, nave singular, coro sobre a entrada e três altares que guardam as imagens de São Jorge, São Francisco de Assis e, ao centro, a da Senhora da Confiança.

A Lenda da Senhora da Confiança

Conta-se que, no século XIII, um nobre cavaleiro, injustamente preso e conduzido a Coimbra, passou a noite numa cela de Pedrógão Pequeno. Entre sombras e incertezas, rezou à Virgem, pedindo-lhe confiança na sua inocência. Levantando os olhos, viu, sobre o monte fronteiro, uma visão luminosa de Nossa Senhora entre estrelas. Fez então voto: se fosse absolvido, ali ergueria uma ermida. Cumpriu a promessa – e a devoção perdurou.

Festas da Senhora da Confiança

Nos dias 7, 8 e 9 de setembro, a romaria enche o monte de música, fé e povo. O fogo de artifício ilumina o céu e as procissões arrastam multidões, numa imagem antiga de sacrifício, devoção e alegria – memória viva da Beira Centro.

Hoje, no alto do monte, um hotel acolhe viajantes com amplas vistas e conforto moderno: o Hotel da Montanha.

A Barragem do Cabril

O Zêzere, nascido nas alturas frias da Serra da Estrela, encontra nesta barragem um dos pontos de maior destaque. Cabril uma das suas maiores afirmações. A barragem, iniciada em 1951 e inaugurada em 31 de julho de 1954 na presença do Presidente Craveiro Lopes, é uma obra monumental do tipo arco-abóbada: 136 metros de altura, 200 metros de coroamento, e uma albufeira com 280 km de perímetro.

Aqui, a água é energia, lazer, pesca desportiva e paisagem – um quadro de rara harmonia. Por cima do arco segue a icónica Estrada Nacional 2, que costura o país de norte a sul.

O Fosso do Zêzere

Como bem observaria Orlando Ribeiro, o rio Zêzere é mais do que geografia: é estrutura. Ele separa a Cordilheira Central em dois blocos bem distintos – a noroeste, Estrela, Açor e Lousã; a este, a Gardunha e a Serra de Alvelos, também chamada Cabeço da Rainha, que alcança os 1084 metros e se estende pelos concelhos de Oleiros, Sertã e Proença-a-Nova.

Este rio ao separar a serra da Estrela da serra da Gardunha, forma o ubérrimo e belo vale da Cova da Beira. São famosos também os seus meandros e a sua zona mineira na Panasqueira

O Zêzere é veia vital:
– produz energia hidroelétrica (Cabril, Bouça, Castelo de Bode),
– regula águas,
– apoia campos agrícolas,
– alimenta o turismo que busca paisagem, silêncio e frescura.

A Ponte Filipina

Classificada como Monumento Nacional, a Ponte Filipina foi erguida entre 1607 e 1610, substituindo, ao que se supõe, uma ponte romana. Até 1954, quando o Cabril foi inaugurado, era a única ligação entre Pedrógão Grande e o litoral.

Construída com blocos de granito de imponência quase hercúlea, tem três arcos; o maior vence 22 metros de vão e ergue-se 26 metros acima do antigo leito. O tabuleiro, com 72 metros, mantém o seu lajedo antigo – memória pétrea de séculos de travessias.

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