Paço Real das Alcáçovas ou Paço dos Henriques (Viana do Alentejo) (**)

Paço das Alcáçovas ou dos Henriques (***)

Há lugares que parecem condensar séculos em poucas braças de terra. O Paço dos Henriques — ou Paço Real da Vila, se preferirem a pompa — é um desses casos. Erguido no coração de Alcáçovas, este edifício não é apenas pedra e cal; é um arquivo vivo da nossa resiliência e diplomacia.

Em 1290, o seu filho D. Dinis (o grande organizador e consolidador do espaço português) mandou construir o palácio. Era um gesto estratégico: consolidar o poder no Alentejo interior, longe da fronteira, mas perto das rotas de influência.

Durante o século XIV, o Paço foi residência de reis e infantes, lugar de caçadas, conselhos e descanso.
Mais tarde, D. João I concedeu a vila a Nuno Álvares Pereira, integrando-a na Casa de Bragança — linhagem que, um dia, ascenderia ao trono.

 Teatro de Alianças e tratado que mudou o mundo (Séc. XV)

No século XV, o Paço transformou-se numa autêntica “conservatória real”. As paredes que hoje vemos testemunharam os arranjos de alcova que decidiram o mapa da Península:

-1447: D. Afonso V recebe o embaixador castelhano para celebrar o contrato nupcial entre D. Isabel de Portugal e D. João II de Castela. Desta união nasceria ninguém menos que Isabel, a Católica.

-1457: Celebra-se o casamento da Infanta D. Beatriz com o Infante D. Fernando. O fruto deste enlace? O futuro D. Manuel I, o Venturoso.

Nota Curiosa: D. Manuel nem sequer estava na linha da frente para o trono. Mas o destino, esse grande dramaturgo, tinha outros planos.

O Tratado de Alcáçovas (1479): O Primeiro Risco no Globo

A 4 de setembro de 1479, o mundo mudou aqui. O Tratado de Alcáçovas pôs fim à Guerra de Sucessão de Castela e dividiu o Atlântico. Portugal renunciou ao trono de Castela, mas garantiu o domínio sobre a Guiné, Mina, Madeira, Açores, Cabo Verde e Flores.

Foi aqui, nestas salas, que se decidiu que Castela ficaria com as Canárias e não navegaria para sul do Cabo Bojador.

O Destino nas Mãos de uma Infanta: As Terçarias de Moura

O xadrez político de Alcáçovas teve o seu desfecho mais humano e tenso nas chamadas Terçarias de Moura. Ali, naquele Alentejo de horizontes largos e silêncios pesados, a História de dois reinos ficou “congelada” sob a guarda de uma mulher de têmpera: Dona Beatriz, Duquesa de Beja e figura de proa da nossa linhagem.

Imagine-se o cenário: como penhor de paz, o jovem Príncipe D. Afonso (herdeiro de D. João II) e a Infanta Isabel (filha dos Reis Católicos) foram ali confinados, vivendo uma espécie de exílio dourado enquanto aguardavam que a idade lhes permitisse o nó nupcial. Eram crianças a carregar o peso de coroas que ainda não lhes serviam na cabeça.

Mas o detalhe mais irónico, quase um capricho do acaso, estava ali mesmo ao lado. Entre os petizes, sob a mesma vigilância de Dona Beatriz, encontrava-se o seu próprio filho, Manuel. Naquela altura, o pequeno Manuel era uma figura periférica, sem qualquer hipótese aparente de cingir o diadema real. Quem diria que a morte prematura de Afonso e os desígnios tortuosos da sucessão transformariam esse “pequenito” no rei D. Manuel I, o Venturoso?

De suplente a protagonista, Manuel assistiu em Moura ao nascimento de um império que ele próprio viria a gerir.

O Testamento de João II

Em 1495, D. João II, o Príncipe Perfeito (que de perfeito tinha pouco, mas de visionário tinha tudo), redigiu aqui o seu testamento, designando D. Manuel como seu sucessor.

Com o fechar do século XV, o Paço despe a púrpura real para vestir o brasão da nobreza de província. Passou para as mãos de D. Fernando Henriques, filho do rei castelhano Henrique II. Este fidalgo, que trocou as intrigas de Castela pela tranquilidade alentejana, fixou-se aqui e tornou-se o primeiro Senhor das Alcáçovas.

O edifício tornou-se um solar senhorial, ganhando em 1568 grande parte do aspeto que vemos hoje.

Durante gerações, o edifício foi o “ninho” da família Henriques. Imagine-se o quotidiano: corredores onde o som das esporas militares se cruzava com o riso das crianças e o murmúrio das decisões domésticas. Deixou de ser o palco do mundo para ser o palco de uma estirpe.

O Sagrado e o Lazer: O Diálogo do Jardim Cerâmico

A partir do século XVII, o Paço ganha uma nova dimensão espiritual. Em 1622, ergueu-se a Capela de São Jerónimo, que mais tarde (1680) acolheria a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição. É o sagrado a bater à porta de casa.

Mas o verdadeiro luxo estava lá fora. O jardim, redesenhado entre os séculos XVI e XVII, tornou-se o coração do lazer. Entre uma nora que range e um canteiro de flores, o Paço foi perdendo as arestas medievais e austeras para ganhar o rosto barroco e senhorial que hoje nos saúda.

Aqui nasceria um maravilhoso jardim com a sua capela- O Jardim das Conchinhas (ou Horto do Paço) é uma pequena joia de 950 m². Ali, o tempo parece ter decidido tirar uma sesta. Os “embrechados” — decorações feitas com cacos de cerâmica, azulejos, conchas e pedrinhas — mostram que a reciclagem já era uma arte nobre muito antes de ser uma moda ecológica. E aquelas “janelas conversadeiras”?

O pavimento em estilo granadino e as paredes revestidas de embrechados coloridos testemunham o gosto decorativo das elites senhoriais alentejanas.

São o convite perfeito para o mexerico histórico ou para uma pausa contemplativa, enquanto se ouve, ao longe, o badalar dos chocalhos.

A Capela de Nossa Senhora da Conceição com o seu embrechado é espetacular.

O século XX foi madrasto para muitos destes gigantes de pedra. No início da centúria, o Paço via-se retalhado, arrendado a várias famílias locais — o que, se pensarmos bem, até lhe deu uma humanidade que os palácios vazios não têm, foi o que aconteceu em 1974 com a Ocupação do edifício por Unidades Coletivas de Produção.

Após décadas de algum esquecimento, o Estado finalmente acordou em 1988, classificando-o como Imóvel de Interesse Público.

O renascimento aconteceu já no nosso século. Após uma requalificação profunda, concluída em 2016, o Paço dos Henriques deixou de ser uma ruína da memória para ser um espaço vivo.

Hoje, o Paço dos Henriques é centro de cultura e identidade, espaço vivo de encontro entre passado e futuro — um lugar onde o eco da história se mistura com o som dos chocalhos, e onde cada pedra parece ainda guardar a sombra dos reis que por ali passaram.

Após uma criteriosa intervenção de restauro, o Paço renasceu como centro cultural e museológico, abrigando o Auditório Tomás Ribas, um posto de turismo e três salas de exposição — uma delas permanente, dedicada à arte dos chocalhos, reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente

Mas o espantoso é que em fevereiro deste ano a Comissão Europeia anunciou no dia 25 de fevereiro 2026, que a candidatura transnacional “Places of Peace”, e que integra a Casa da Convenção de Évora Monte e o Paço dos Henriques (Alcáçovas) juntamente com mais 5 sítios europeus associados à assinatura de Tratados de Paz, foi galardoada com a Marca do Património Europeu.

E que  integra, os seguintes sítios europeus: Mosteiro de São Francisco (Zadar, Croácia); Parque da Fonte Histórica de Kaynardzha (Kaynardzha, Bulgária), Paço dos Henriques (Alcáçovas, Portugal), Casa da Convenção de Évora Monte (Évora Monte, Portugal), Convento de São Francisco/Complexo Histórico de Alcañices (Alcañices, Espanha), Casa da Paz (Vasvár, Hungria) e Castelo de Trencin (Trencin, Eslováquia).

O site oficial da Marca do Património Europeu, onde é feito o anúncio deste galardão europeu, destaca que os sítios integrantes “… estão unidos pelo seu papel na formalização de acordos de paz que remodelaram territórios, relações de poder e sistemas de governação em toda a Europa” e que os Places of Peace  “… ilustram a paz não como um acontecimento isolado, mas como um processo europeu recorrente. O conjunto (dos sítios) destaca a emergência da diplomacia, do direito internacional e do reconhecimento mútuo como fundamentos comuns da história europeia, sublinhando a paz como um dos valores mais duradouros e definidores da Europa”.

Este galardão dará, no futuro, um importante contributo para a visibilidade a nível europeu de todos os sítios integrantes do sítio transnacional e dos locais onde eles se situam.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top