Igreja matriz da Nossa Senhora da Anunciação (Viana do Alentejo) (***)

Igreja matriz de Viana do Alentejo, dedica a nossa senhora da Anunciação (***)

Viana do Alentejo não se explica apenas com datas; sente-se no brilho do mármore e no peso do tempo que moldou aquela planície.

Imagine a herdade de Foxem, lá pelos idos de 1260, um espaço que o Alferes-mor D. Gil Martins de Riba de Vizela recebeu do rei. Foi feita a igreja de Fochem.

Em documento datado de 1269, D. Martinho, Bispo de Évora, reconhecia o direito a um quarto dos dízimos da denominada “igreja de Foche, pertencendo o restante aos seus donatários.

 D. Dinis, cedeu a povoação e a igreja ao então infante D. Afonso, que a fez integrar nos bens de D. Beatriz de Castela.

E o que veio foi o deslumbramento.

No século XV, a Coroa retoma o controlo e D. Manuel I, decide que o Alentejo merecia um espelho da sua grandeza. Entra em cena Diogo de Arruda, mestre das obras do Alentejo em 1521.

A igreja que vemos hoje, com o seu portal Manuelino, é um manifesto. É o gótico a despedir-se, abraçado a um renascimento que já espreita, mas com aquele sotaque português de cordas e esferas armilares. É uma arquitetura em que o mármore que, domesticados pelo cinzel, se tornam oração.

Mas afinal, quem foi este Diogo de Arruda?

Membro de uma verdadeira “dinastia” de artistas eborenses — irmão de Francisco e tio de Miguel —, Diogo não era apenas um arquiteto; era um visionário da pedra.

Entre 1508 e 1510, andava ele por Lisboa a desenhar o baluarte do Paço da Ribeira. Imagine-se a cena: o Tejo a lamber as barbas de uma torre fortificada que gritava ao mundo o poder de D. Manuel I. Foi esse o ensaio para o que o seu irmão, Francisco, faria mais tarde na icónica Torre de Belém. Mas Diogo tinha um destino mais… “capitular”.

O Mago de Tomar e o Engenheiro de Além-Mar

Em Tomar, no Convento de Cristo, ele foi o primeiro mestre da grande reforma (1510-1513). Foi Diogo quem “inventou” aquele coro a dois níveis. Mas, sejamos francos, o que nos tira o fôlego é a Janela do Capítulo. Ali, a pedra deixou de ser mineral para se tornar poesia náutica: cordas que se entrelaçam, raízes que parecem nutrir-se da própria história e folhagens que nunca secam. É, sem dúvida, uma das janelas mais belas do mundo. É o Manuelino em estado puro, antes de João de Castilho chegar com o seu rigor mais clássico.

Mas a vida de Diogo não era só rendilhado de pedra. Em 1513, encontramo-lo no Magrebe. Em Azamor, Safim e Mazagão, ele e o irmão Francisco foram engenheiros de guerra. Levantaram alcáceres e reforçaram muralhas contra o ímpeto mourisco.

Esta duplicidade é fascinante: o mesmo homem que esculpia a delicadeza de uma flor em Tomar, desenhava o ângulo perfeito de um baluarte para resistir a um canhão.

O Regresso às Raízes: O Alentejo de Diogo

De volta a casa, em 1521, D. Manuel nomeia-o “Mestre de Obras da Comarca de Entre Tejo e Odiana”. É aqui que Viana do Alentejo entra na história. A Igreja Matriz de Viana é o seu manifesto alentejano. É um templo que respira essa gramática “Arruda”: volumes cilíndricos que lembram torres militares, mas que guardam no interior a paz do sagrado.

É uma arquitetura acastelada, onde o sagrado e o militar se fundem. Veja-se o exemplo de Évora Monte — aquele paço que parece um nó górdio de pedra — onde Diogo e Francisco colaboraram. É uma arquitetura com músculos, mas vestida de seda.

Reflexões sobre o Legado

Ao percorrermos a obra de nomes como João Castilho, Boitaca, Mateus Fernandes ou os Arruda, percebemos que eles não estavam apenas a construir edifícios. Estavam a dar corpo à Identidade Nacional. Eles fixaram na pedra a audácia de um povo que tinha acabado de descobrir que o mar não tinha fim e que acreditava no messianismo Manuelino.

Hoje, ao olharmos para a Matriz de Viana, devemos perguntar: o que resta dessa audácia? Num presente por vezes cinzento e funcionalista, a obra de Diogo de Arruda recorda-nos que a utilidade de um edifício (seja ele um castelo ou uma igreja) não deve nunca atropelar a sua beleza. O futuro do nosso património passa por esta compreensão: as pedras de Viana não são apenas passado; são o testemunho de que, quando a técnica se alia à arte, o resultado é a imortalidade.

Afinal, Diogo morreu em 1531, mas sempre que o sol bate naquelas esferas armilares de Viana, ele acorda.

O Portal Manuelino da igreja matriz de Viana do Alentejo

Depois do delírio simbólico das janelas de Tomar, quem chega a Viana do Alentejo é confrontado com um fenómeno ótico e espiritual. Ali, o mármore local — com aquele seu tom de um azul-cinzento que parece reter o brilho do luar, mas que em pleno dia é esplendoroso — ergue-se num portal que é, simultaneamente, porta para o sagrado e manifesto de um Império.

A fachada é um bicho estranho, no melhor dos sentidos. Não é a leveza gótica que aqui impera, mas sim uma robustez quase defensiva, marcada por dois contrafortes volumosos que parecem as pernas de um gigante bem assente na terra alentejana. O portal, dividido por um mainel salomónico — aquela coluna retorcida que parece querer subir ao céu em espiral — convida-nos a entrar, mas obriga-nos a parar.

Uma Selva de Símbolos

No tímpano, a Cruz de Cristo afirma-se com uma volumetria que não deixa margem para dúvidas sobre quem mandava nestas paragens. Logo acima, os emblemas de D. Manuel I: o escudo de Portugal e a esfera armilar, os selos de um rei que via o mundo como o seu jardim.

E que jardim! A temática simbólica invade tudo. É um simbolismo de pedra, rico e luxuriante, onde troncos nodosos se entrelaçam com serpentes de escamas tão salientes que quase parecem rastejar. No meio deste “horror vacui” (o medo do vazio), surgem figuras humanas — dizem que o próprio Rei e a Rainha ali espreitam — e anjos que vigiam este caos ordenado. No capitel, o drama cristão: S. Jorge, o eterno cavaleiro, medindo forças com o dragão. É a luta da luz contra as trevas, esculpida com uma mestria que nos faz esquecer a dureza do mármore.

Entremos agora no terreno da simbologia manuelina, uma narrativa onde o micro e o macrocosmos se abraçam sob o sol do Alentejo.

O Rei e o Cosmos: A Esfera e o Escudo

No topo, a Esfera Armilar e o Escudo Real. Não se engane: não são apenas “logótipos” da época. A esfera é o mundo dominado, o conhecimento dos astros aplicado à navegação; o escudo é a legitimidade divina. Juntos, dizem que D. Manuel não governa apenas um pedaço de terra, mas um império que se estende por onde o sol nasce e se põe. É a construção simbólica de um poder que une o político ao sagrado.

A Selva de Pedra: Troncos Nodosos

Observe os troncos nodosos e a vegetação que parece sufocar as arquivoltas. Esta exuberância vegetalista, tão cara aos Arruda, representa a Força Primal da Vida o renascimentom individual e coeltivo da humanidade e é também por isso um simbolo de Cristo,

As Cordas: Simbolizam a ligação entre o céu e a terra, e com os nós esforço da nossa união coletiva.

As serpentes de escamas salientes, com as suas cabeças “terrificantes”, não são necessariamente o mal bíblico. No Manuelino, elas representam muitas vezes as forças ctónicas (da terra) que o Homem tem de dominar. Mas também há quem veja nelas os monstros marinhos que os nossos navegadores enfrentavam no “Mar Tenebroso”. É a natureza selvagem a ser domesticada pela arquitetura.

São Jorge e o Dragão: O Equilíbrio Necessário

A presença de S. Jorge a matar o dragão no capitel é o ponto de equilíbrio. Se o portal é uma selva de símbolos misteriosos, S. Jorge é a razão, o cavaleiro cristão que impõe ordem ao caos. É a vitória da civilização sobre a barbárie.

Dom Manuel e dona Maria

Misturados na folhagem, aparecem anjos e figuras humanas e o próprio Rei D. Manuel e D. Maria estão ali representados. É de uma audácia tremenda: o monarca coloca-se no meio da criação, quase como uma divindade terrena, rodeado pela abundância que o seu reinado trouxe.

É uma imagem mental poderosa: imagine este portal como uma floresta petrificada que, ao abrir-se, revela o interior sagrado da igreja.

Este mármore azulado não é apenas carbonato de cálcio; é o suporte físico de um sonho de grandeza de um rei e de uma nação

É fascinante pensar que, enquanto em Itália se redescobria a proporção clássica, aqui no Alentejo, Diogo de Arruda e outros mestres criavam este “estilo próprio”, esta “explosão de vida” que ainda hoje nos faz sentir pequenos perante a porta de Viana.

O portal de Viana do Alentejo é um verdadeiro “bestiário de pedra” onde a imaginação manuelina não conhece fronteiras. O cinzel de um escultor a mando de Diogo de Arruda fez brotar outras criaturas que transformam esta entrada numa fronteira entre dois mundos.

As Sereias e os Golfinhos: O Apelo do Mar

A presença de sereias e golfinhos no portal não é um mero capricho decorativo. Os golfinhos eram vistos como os guias dos navegantes, símbolos de salvação e de uma nova era que despontava nas caravelas. Já as sereias, seres híbridos e fascinantes, representam o mistério do desconhecido, o fascínio e o perigo das águas que D. Manuel pretendia dominar. É o mar a “galgar” a planície alentejana e a fixar-se no mármore.

Os Cães: Os Guardiões do Limiar

Aparecem também os cães, e aqui a sua presença é carregada de gravidade. Mais do que a simples “fidelidade” que lhes atribuímos hoje, o cão na iconografia quinhentista pode ser o Guardião do Limiar. Ele vigia a passagem do profano para o sagrado. Estão ali para nos dizer que, ao cruzar aquela porta, deixamos para trás a poeira da rua e entramos num tempo eterno. São sentinelas de pedra que, protegem a integridade do espaço onde se celebra a identidade de um povo.

O Mistério dos Puti e a Videira da Vida

Mas o que é verdadeiramente arrebatador— são os dois puti (aqueles meninos na base) de onde irrompem, de forma quase orgânica, troncos nodosos.

É uma imagem mental poderosa: a vida a brotar da própria infância da humanidade.

Desses troncos nascem parras de vinha que sobem em direção ao céu. A videira é, claro, um símbolo cristão por excelência (“Eu sou a videira verdadeira”), mas no contexto de Viana, ela representa também a abundância da terra e a ascensão espiritual.

No fundo, este portal é uma lição de continuidade. Estes símbolos recordam-nos que a nossa cultura é feita de camadas: o mito, a natureza, a fé e a audácia.

A Igreja que se “Encolheu” para Caber na História

A igreja não nasceu num campo aberto; ela teve de se “fazer convidada” dentro das muralhas do castelo.

É fascinante ver como a arquitetura se curva perante a geografia política do lugar.

O templo está literalmente encostado ao muro. A ábside (a cabeceira da igreja) teve de ser “atarracada”, contraída contra a muralha Este, perdendo profundidade para não derrubar as defesas da vila. Até uma das torres do castelo foi “recrutada” para servir de torre sineira. É uma simbiose perfeita entre o militar e o religioso — a fé protegida pela espada, ou talvez a espada abençoada pela fé.

As fachadas laterais, e a cabeceira, estão apetrechadas de torrinhas cilíndricas rematadas por coruchéus cónicos e cogulhos, desenvolvidas por um jogo movimentado de arcobotantes que dividem os tramos e terminam com um contínuo coroamento de ameias chanfradas.

Nos característicos contrafortes, os coruchéus cónicos confundem-se com outros de maior envergadura, das torres semi-circulares do castelo.

O interior da igreja de Viana do Castelo

A magnífica igreja manuelina à boa maneira da tradição gótica e qui, Diogo de Arruda organizou-o em três naves, cinco tramos e oito pilares oitavados tão robustos que parecem querer segurar não só o teto, mas o próprio céu, como na igreja matriz de Elvas e em Olivença.

Uma Floresta de Pedra e Mistério

O espaço é gótico na estrutura, mas o “sotaque” é puramente Manuelino. Olhem para cima: as abóbadas de cruzaria de nervuras são um autêntico mapa do imaginário da época. Nas mísulas e nos bocetes (onde as nervuras se cruzam), desfila um exército de figuras: temas florais, animais míticos e emblemas que nos recordam que, no século XVI, o mundo estava a ser redescoberto.

Mas há algo que nos faz parar o passo. Nas mísulas da nave central, entre folhas carnudas que rematam em florão, surgem as máscaras-folhagem. E, num detalhe de uma raridade absoluta, encontramos rostos com caracteres negróides.

É o exotismo de Quinhentos a entrar na igreja.

Aquelas figuras de escravos negros, esculpidas no mármore, são o testemunho mudo de um Portugal que se abria a outros mundos e trazia para o centro da sua fé o rosto daqueles que o Império ia conhecendo (e escravizando). É um “gosto pelo sumptuário” e pelo diferente que aqui ficou cristalizado para sempre.

O Diálogo dos Séculos

A Igreja de Viana não parou no tempo de D. Manuel. Ela é um organismo vivo.

-O Renascimento saúda-nos no belo púlpito de mármore.

-O Barroco explode no altar de S. Luís de França e do Menino Jesus, com aquela talha dourada que parece querer derreter-se diante dos nossos olhos.

-O século XVII revestiu as naves com azulejos de padrão, criando um tapete cerâmico que arrefece a alma nos dias de canícula.

Na Capela-Mor, dedicada à Anunciação, voltamos a sentir o peso da história. Lembra-se da muralha do castelo que referi antes? Ela está ali, logo atrás do altar, impedindo que a abside se alongue. É uma cabeceira “atarracada”, curta, mas densa de arte: azulejos policromos e uma talha seiscentista que envolve a cena da Anunciação. É curioso notar que, nesta cena, a Virgem é de Quinhentos, mas o anjo S. Gabriel já pertence ao século seguinte. Um dueto artístico através do tempo!

As chaves da abóbada ostentam decoração vegetalista e heráldica manuelina, que se encontra em abundância por toda a igreja, juntamente com alguns motivos mais exóticos.

Não saiam sem espreitar a Capela dos Reis (hoje do Senhor dos Passos) do século XVI e ali repousa o cavaleiro Diogo Godinho, num túmulo que exala nobreza antiga, rodeado por azulejos hispano-mouriscos que brilham como joias e por uma ótima abóboda em nervuras.

Quando foi transformada na capela do Senhor dos Passos, por nela se ter instalado a confraria com este nome, no século XVIII, foi ainda rodeada por talha barroca.

E, se tiverem oportunidade, entrem na sacristia pela porta de verga trilobada — um mimo quinhentista — e lavem as mãos (metaforicamente, claro!) no lavabo manuelino decorado com carrancas.

O acesso à igreja faz-se através do átrio com pequeno batistério, posteriormente remodelado (século XIX) mas ainda detentor de pia septavada. Junto à porta lateral, duas pias manuelinas reportam-nos de imediato à época de construção do templo. O coro ergue-se sobre o átrio, apoiado em estrutura de arcos.

Para fechar este nosso passeio, temos de falar do que não se toca, mas se sente: a Luz.

O mármore tem uma relação íntima com a luminosidade; ele não apenas a reflete, ele parece absorvê-la para depois a devolver com uma suavidade mineral. Na Matriz de Viana, a luz não é um mero detalhe utilitário. É a representação de Cristo como a “Luz do Mundo”, aquela que, no dizer dos teólogos e sábios, afasta as trevas da ignorância.

O Mistério Filtrado: Onde o Céu Toca a Terra

Hoje vemos uma igreja clara, mas imagine-se no século XVI. A luz era mística, filtrada por vitrais manuelinos que transformavam o espaço secular num cenário sagrado. Ainda restam dois sobreviventes magníficos, atribuídos ao mestre Francisco Henriques (alusivos a S. Pedro e S. João), que agora repousam na antiga capela de Nossa Senhora da Assunção, hoje convertida no centro de interpretação. Eram eles que tingiam o ar de cores sobrenaturais, criando uma ponte entre o nosso chão de barro e o divino.

Esta Igreja de Nossa Senhora da Anunciação é o exemplo perfeito, daquilo que chamamos de Tardo-Gótico Alentejano. É um caldeirão onde ferve o final do gótico, o mistério messiânico de D. Manuel I e os primeiros laivos do Renascimento, com o seu “plateresco” delicado como filigrana.

A Audácia Contra o Cinzentismo

Classificada como Monumento Nacional desde 1910, a Matriz de Viana lança-nos uma pergunta desconfortável: o que resta hoje dessa audácia? Vivemos num tempo, sem memória e cinzento, onde o funcionalismo tacanho tenta ditar as regras. Mas a obra de Diogo de Arruda está ali para nos dar um “puxão de orelhas” intelectual. Ela recorda-nos que a utilidade de um edifício — seja ele o castelo que vigia ou a igreja que acolhe — nunca deve atropelar a sua Beleza. A beleza é, afinal, o um grande esteio da nossa liberdade.

O futuro do nosso património não pode ser apenas conservação de “pedras velhas”. Tem de ser a compreensão de que estas pedras são o testemunho de uma união sagrada entre a técnica e a arte. Quando essa liga é bem feita, o resultado chama-se Imortalidade.

Diogo de Arruda partiu em 1531, mas o seu génio é teimoso. Sempre que o sol do Alentejo, implacável e generoso, bate naquelas esferas armilares e faz brilhar o portal azulado, Diogo acorda. E nós, se soubermos olhar, acordamos com ele.

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