Castelo de Viana do Alentejo (*)
O património só vive se for amado, se for parte da nossa pele e não apenas um boneco para turista ver e Este castelo de Viana do Alentejo, que guarda o título de Monumento Nacional desde 1910, é não é uma fortaleza bruta mas um ótimo monumento do gótico final.
Repara nestas torres cilíndricas, com os seus coruchéus que parecem lápis apontados ao céu. Há aqui uma irmandade estética com o Castelo de Alvito, ali ao lado, como se os mestres pedreiros tivessem decidido que a guerra podia, afinal, ter contornos de poesia. Lá dentro, o silêncio é sagrado. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Anunciação e a da Misericórdia são autênticos cofres de devoção. É pedra que reza, literalmente.
Mas não te deixes enganar pela cal branca e pelo sol que cega. Por baixo deste castelo bate um coração romano porque apareceram vestígios romanos que iremos visitar no pequeno núcleo museológico na praça da Républica.
Repara bem onde estamos. Viana do Alentejo não está ali por acaso. Entre as duas capitais da planície — Évora e Beja —não é uma vigia agressiva, daquelas que mete medo ao viajante; é antes uma guarda serena, de quem atravessou séculos e já viu de tudo um pouco.
A sua silhueta é harmoniosa que parece conversar com o Castelo de Alvito, ali ao lado. São como dois primos elegantes que decidiram usar o mesmo alfaiate de pedra no final do gótico. É uma arquitetura que não quer apenas defender; quer encantar.
Olha, vamos recuar um pouco no tempo, para quando estas pedras ainda eram apenas uma ideia na cabeça de reis e cavaleiros. É fascinante como um lugar muda de nome e de destino, quase como se tivesse vontade própria.
Antes de ser este prodígio que vês, a terra chamava-se Foxem. Nome estranho, não achas? Mas o destino de Foxem mudou quando a família Riba de Vizela — gente fina da corte de D. Afonso III (1248–1279) — lhe pôs a mão.
O seu senhor era Martim Gil de Riba de Vizela (c. 1235–1295) figura de relevo na corte portuguesa e que atuou como alferes de D. Dinis (1285-1295).
Com a morte do senhor da terra, o Rei Lavrador, D. Dinis, não perdeu tempo: chamou o território a si e, em 1313, deu-lhe um nome que hoje nos soa a música: Viana-de-a-par-de-Alvito.
D. Dinis, sempre atento ao ordenamento do território, não deu apenas o nome; deu as cem libras para que as muralhas começassem a morder o céu. Depois, a vila passou de mão em mão — de D. Afonso IV para a sua esposa D. Beatriz — como quem passa um tesouro de família que não se pode vender nem trocar.
Imagina o burburinho na vila em 1478. O povo de Viana, com aquele brio alentejano que não se deixa vergar, enviou uma missiva a D. Afonso V. Estavam preocupados, e com razão! Temiam que o Rei entregasse as chaves do castelo a construir ao em ruínas a tal alcaidaria-mor a mãos alheias, Eles não queriam ser meros espetadores do seu destino. Pediram para ser eles mesmos, o Concelho, a guardar e defender a sua fortaleza, prometendo a mesma valentia dos homens de Freixo de Espada à Cinta.
Mas foi o acaso, ou talvez a tragédia, que deu a Viana o seu brilho real. Em 1481, a peste negra andava a fazer das suas em Évora. Fugindo do “bafo da morte”, as Cortes e o rei D. João II mudaram-se para aqui. Imagina a cena: o castelo transformado em capital improvisada do Reino, com o soberano a ditar leis enquanto lá fora a planície ardia sob o sol. O castelo deixou de ser apenas um muro para ser uma casa. Uma residência real.
Dez anos depois, por volta de 1490, o castelo começou a ficar com a forma que hoje tem. Foi a época dos grandes levantamentos: as cortinas das muralhas subiram, o reboco deu-lhe uma cara nova e surgiram os famosos merlões chanfrados e os coruchéus que hoje tanto admiramos. O gótico estava a despedir-se, mas fazia-o com uma elegância tremenda.
E para fechar com chave de ouro — ou melhor, com selo real —, chegamos ao dia de Natal de 1517. Enquanto o resto do país celebrava o nascimento de Cristo, D. Manuel I, o Venturoso, dava a Viana o seu “presente”: um Foral Novo. Com ele, veio também um novo nome: Viana do Alvito.
E depois vieram os mestres. D. Manuel I, o rei que queria o mundo, trouxe para aqui o que havia de melhor: Martim Lourenço e os manos Arruda — o Diogo e o Francisco que devem ter agido no castelo.
Do século XX aos nossos dias
Foi preciso esperar pelos anos 40 do século XX para que o Estado — através da mão pesada, mas providencial, da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais — decidisse que era hora de lhe dar um novo fôlego. As muralhas foram consolidadas e as ameias, que já pareciam dentes gastos pelo tempo, recuperaram o seu perfil altivo.
O restauro foi quase uma cirurgia reconstrutiva. Devolveu-se ao monumento aquela dignidade antiga que o abandono lhe tinha roubado.
Agora, o castelo respira. O futuro, esse, já não parece tão incerto quando olhamos para a firmeza deste traço manuelino recuperado.
Arquitetura e encanto
Chegamos, finalmente, à estrutura do monumento. Se olharmos de cima —percebemos que este castelo não é uma caixa certinha. É um pentágono irregular, quase como se as cinco cortinas de muralhas tivessem sido desenhadas para se moldarem aos caprichos do terreno.
Os cubelos cilíndricos nos vértices não são apenas reforços; com aqueles coruchéus de alvenaria no topo, parecem sentinelas que se esqueceram de tirar o chapéu. O maior de todos, vaidoso, fez-se Torre de Menagem para mandar nos outros. Percorrer os adarves (aqueles caminhos de ronda no topo das muralhas) é sentir o vento que sopra do Sul e imaginar o ruído das botas dos soldados que, entre um bocejo e uma vigília, guardavam este terreiro.
Temos aqui hibridismo com o gótico militar, severo e firme, mas depois aparecem os pormenores manuelinos e mudéjares — aquela herança árabe— a dizer-nos que a beleza não tem de ser rígida.
Entrar no castelo e dar de caras com o espaço sagrado é o resumo da nossa identidade: protegemos o que amamos e o que acreditamos.
Lá dentro, no terreiro, a história faz as pazes com a natureza. Os jardins que hoje ali vemos emprestam uma serenidade que os antigos habitantes, entre pestes e cortes reais, talvez não tivessem tempo de apreciar.
Mas não pense que a viagem termina na Matriz ou no castelo. Logo ali à entrada, como quem nos dá as boas-vindas ao pátio de armas, espera-nos a Igreja da Misericórdia. É um espaço mais contido, quase um segredo, mas que carrega o selo de qualidade da “equipa maravilha” de D. Manuel I: o arquiteto régio Diogo de Arruda.
A Misericórdia foi instituída em 1516 e o que sobrou, porém, é um deleite para os olhos. Estamos novamente no manuelino puro com o portal de entrada, profusamente decorado.
Lá dentro, a nave retangular envolve-nos com o brilho da azulejaria seiscentista e o calor do altar-mor em talha, onde a pintura da Visitação nos recorda que a arte é, acima de tudo, um encontro.
Hoje, a igreja já não ouve missas, mas não está morta. Longe disso! Desafetada do culto, transformou-se num palco de cultura viva, albergando exposições temporárias. É a tal voz e abrigo que o património deve ser: um lugar onde o passado, em vez de mofar, serve de moldura para o que os artistas de hoje têm para dizer.
Todo este conjunto em Viana do Alentejo é de visita obrigatória.




