Ermida de São Sebastião (Alvito) (**)

A Ermida de São Sebastião, em Alvito é especial, olhe para ela. É, sem qualquer ponta de exagero, a capela de São Sebastião mais espetacular de Portugal.

Sabe aquela sensação de que o edifício está ali para nos proteger de algo invisível? Pois bem, era exatamente essa a sua função: ser um baluarte contra as pestes que assolavam o reino no final do século XV.

Um Santuário Fortificado no Alentejo

A arquitetura não engana. Com os seus catorze contrafortes em forma de cone, a ermida parece um pequeno castelo espiritual. É o que chamamos de santuário fortificado.

A sua estética é uma mistura deliciosa:

Gótico e Manuelino: Visíveis na planta longitudinal e na porta ogival.

Influência Mudéjar: A herança islâmica aparece nos merlões chanfrados e nos contrafortes.

O Interior: Se por fora é robusta, por dentro é um deslumbre com frescos de anjos músicos que parecem dar um concerto eterno para afugentar a doença.

A Ermida:

A sua planta é de uma simplicidade honesta, desenhada em dois corpos retangulares que se unem como se fossem mãos em prece. A nave e a capela-mor, de alturas distintas, dão ao edifício aquele perfil dinâmico, quase orgânico, que se estende de Ocidente para Oriente — a busca eterna da luz, do sol que nasce, do Oriens que é Cristo.

Mas repare na força exterior. São catorze contrafortes que se agarram às paredes que terminam em pináculos piramidais, conferindo-lhe um ar de pequena fortaleza. É o Alentejo a defender-se! A empena da capela-mor, coroada por merlões chanfrados de herança mudéjar, reforça esta imagem de “igreja-castelo”.

Se há monumento que encerra em si a alma de um território, é esta Ermida de São Sebastião. Não estamos perante uma construção qualquer; é um hibridismo fascinante, onde o tardo-gótico alentejano se cruza— e aqui reside o seu verdadeiro sortilégio — sob um manto mudéjar.

É a herança islâmica que lhe dá o tom com os seus merlões chanfrados e para aqueles contrafortes que parecem sentinelas de pedra. Em Alvito, esta gramática não é filha única; o Castelo e a Igreja Matriz partilham deste mesmo sotaque artístico, como se a vila inteira falasse uma língua onde o arco e a cal se entendem na perfeição.

O Santuário que é um Escudo

Olhamos para ela e vemos um santuário fortificado. Esta tipologia, tão nossa e tão alentejana, faz dela irmã de sangue da Ermida de São Brás em Évora ou de Santo André em Beja.

A ermida é um baluarte. Se por um lado a estética é de uma beleza que nos suspende a respiração, por outro a sua robustez lembra-nos que a arte servia para enfrentar o medo — neste caso, o medo da peste.

É, sem dúvida, o exemplar de São Sebastião mais vibrante que temos em solo luso. Um edifício que não se limita a estar ali; ele impõe-se, guarda-nos e, de certa forma, continua a curar a alma de quem o visita.

Entremos, então. Se o exterior nos fala de guerra contra a invisível peste, o interior é um hino à harmonia celestial.

Nas abóbadas da capela-mor, o olhar perde-se num conjunto de pinturas murais seiscentistas (datadas de 1611) que são um verdadeiro deleite para o espírito. Atribuídas ao mestre José de Escobar, estas figuras de anjos músicos não estão ali apenas para decorar; elas parecem querer preencher o silêncio do Alentejo com uma polifonia eterna.

O Teatro da Fé nas Paredes

As paredes não ficam atrás. Estão cobertas por frescos que organizam o espaço em painéis:

Santos Protetores: Figuras que serviam de companhia e conforto aos fiéis que ali buscavam refúgio.

Gramática Ornamental: Molduras de motivos naturais e um rodapé que, com uma esperteza artística deliciosa, simula azulejos de desenhos geométricos.

Uma Lição de Eternidade

Se as pedras e os silos medievais sob o chão nos falam da fundação física, estas pinturas falam-nos da camada espiritual da paisagem. É espirituoso pensar que que valor mais alto haveria, para uma comunidade fustigada pela doença, do que ver anjos a tocar alaúdes sobre as suas cabeças?

Esta ermida não nasceu do capricho ela era uma ferramenta útil para a sobrevivência da comunidade.

Erguida nos estertores do século XV, ali por volta de 1485, a sua localização não foi um capricho de urbanista. Estava fora das muralhas, no Rossio, porque São Sebastião era o “médico celeste”, o capitão que travava a peste antes dela entrar no corpo da vila. Depois da epidemia devastadora de 1470, Alvito precisava deste escudo espiritual. É a “arquitetura do medo” transmutada em beleza.

O Papel de São Sebastião: Da Vila à Cidade

Construir estas capelas de São Sebastião não era um capricho estético; era uma barreira sanitária e simbólica. São Sebastião era o advogado contra a peste.

Em Coimbra, a Capela de São Sebastião, nos Olivais, cumpre um papel semelhante na memória da cidade. Embora de épocas e estilos diferentes, ambas partilham a mesma angústia humana perante o invisível e muitas outras espalhadas pelo País também o fazem.

Camadas de História sob os Pés

No rossio o solo escondia silos medievais. Antes de ser lugar de oração, aquele chão foi lugar de pão, de armazenamento, de sustento. Alguns desses silos ficaram lá, mergulhados na penumbra dos alicerces, como se a fé se tivesse vindo sentar sobre o estômago da história.

Mais tarde, em 1611, quando o mundo já era outro, vieram os frescos das abóbadas dar o toque final de transcendência.

Ppara rematar esta nossa deambulação, não posso deixar de erguer os olhos e olhar o horizonte. A Ermida de São Sebastião não seria a mesma sem a moldura que a envolve: uma paisagem de um lirismo absoluto, onde o montado de sobro e as oliveiras centenárias desenham o verdadeiro rosto do Alentejo.

Aqui, as oliveiras, com os seus troncos retorcidos pelo tempo e pela paciência, parecem anciãs que guardam os segredos da terra. São monumentos vegetais que, tal como a ermida, resistem a séculos de sóis e de invernos.

O Montado: A Catedral de Ar Livre

O montado que se estende em redor funciona como uma catedral de ar livre. Há algo de profundamente filosófico nesta comunhão:

O Passado: As oliveiras que hoje vemos já lá estavam, talvez crianças, quando os pintores seiscentistas retocavam os anjos na abóbada.

O Presente: Esta beleza esmagadora é o que nos ancora num mundo oferecendo-nos um refúgio de silêncio e dignidade.

O Futuro: Olhar para este horizonte é perceber que a preservação desta paisagem é tão vital como a da própria ermida. Sem este “mar verde” de sobreiros e oliveiras, Alvito perderia a sua alma.

É, sem sombra de dúvida, a envolvente mais poética para a capela de São Sebastião mais espetacular de Portugal.

Vá por mim: respire fundo, deixe o olhar perder-se entre o cinzento-prata das oliveiras e o branco da cal. É neste abraço entre a arte e o montado que Portugal se revela verdadeiramente notável e nesta é a Ermida de São Sebastião de Alvito: um castelo por fora, um conservatório de anjos por dentro. É impossível sair daqui a sentir-se a mesma pessoa.

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