Afonso VI e a Formação de Portugal

No outono de 1084, as forças de Afonso VI estabeleceram um acampamento a sul de Toledo e iniciaram um cerco formal à cidade. As primeiras medidas que tomou foram devastadoras: começou por arrasar os campos, o que provocou uma fome crescente em toda a região.

A capitulação negociada e a entrada em Toledo

O rei da Taifa Al-Qadir cedeu Toledo a Afonso VI de Leão a troco de Valência — um acordo pelo qual o rei leonês se comprometia a instalar Al-Qadir no trono valenciano. Durante aqueles meses precisaram-se os pontos da capitulação da cidade com Al-Qadir. As fontes cristãs datam a entrada de Afonso de 24 ou 25 de maio de 1085, enquanto as fontes islâmicas a fixam no dia 6 de maio. As condições da capitulação foram notavelmente generosas: Al-Qadir obteve um bom pacto que incluía o respeito pela vida, as fazendas e os costumes religiosos de todos os muçulmanos que escolhessem ficar na cidade.

O significado político e simbólico da conquista

Toledo era a antiga capital visigótica — a cidade dos Concílios, o centro histórico da monarquia hispânica pré-islâmica. Após a entrada das tropas cristãs, Afonso VI adotou títulos tão pomposos como Imperador de toda a Espanha.

O primeiro arcebispo de Toledo Bernardo após a reconquista era de origem francesa. Na sua juventude ingressou na ordem de Cluny. Educou-se na grande abadia borgonhesa sob a direção de Hugo o Grande, e aí foi noviço de Eudes de Chatillon — o futuro papa Urbano II. Bernardo fez parte da comunidade cluniacense que chegou ao reino de Leão, requerido pelo rei Afonso VI sob a influência da sua esposa Constança de Borgonha, e imediatamente foi nomeado abade de Sahagún em 1081.

Toledo rendeu-se pacificamente depois de garantir aos muçulmanos que se respeitariam as suas pessoas e bens e que lhes seria permitido continuar na posse da mesquita maior. Este compromisso foi violado poucos meses depois. Segundo um relato posterior aos factos, mas com visos de verosimilhança, em julho de 1086, na ausência do rei, a sua mulher dona Constança e o recém-nomeado arcebispo Bernardo ocuparam pela força a dita mesquita e consagraram-na ao culto cristão. Os borgonheses que acompanhavam a rainha dona Constança jamais compreenderam as concessões que os cristãos de Castela faziam aos mouros nas capitulações — chegando inclusive a enfrentar-se a Sesnando Davides, governador de Toledo, que se mostrou em total desacordo com aquele desmando.

Em todo este processo de paulatina imposição cristã, os moçárabes — embora também cristãos — ficaram marginalizados da reorganização eclesiástica da cidade. A comunidade que havia sobrevivido quatro séculos sob domínio islâmico, preservando a liturgia hispânica e a sua identidade cristã, foi preterida em favor dos cluniacenses franceses.

Sesnando não chegou a Toledo como um homem novo. Era já uma das figuras mais experimentadas e influentes da Península Ibérica, tendo governado Coimbra durante vinte e um anos após a conquista de 1064. É provável que Sesnando Davides tivesse intervindo nas negociações conducentes à rendição de Toledo em maio de 1085, cujo governo lhe foi inicialmente encomendado por Afonso VI. Sesnando foi nomeado primeiro governador de Toledo após a sua queda em 1085 e implementou a política afonsina de tolerância para com os moçárabes e os mudéjares da região.

Depois do conflito direto com Bernardo pela mesquita maior de Toledo, Sesnando regressou a Coimbra. Sesnando Davides morreu em Coimbra a 25 de agosto de 1091.

A Batalha de Sagrajas (23 de outubro de 1086)

Porque desembarcaram os Almorávidas em Algeciras?

Um ano depois da conquista de Toledo, as taifas, alertadas do poder dos cristãos, chamaram em seu auxílio os Almorávidas — muçulmanos do norte de África que seguiam rigorosamente a lei corânica. Yusuf ibn Tashfin era o sultão dos os Almorávidas —, cuja tradução equivale a “eremitas” ou “monges-soldados”, por provirem do deserto do Sahara.

A ironia histórica é profunda: foram as próprias taifas, incluindo Al-Mutamid de Sevilha — o mesmo rei que pagava parias a Afonso —, que chamaram os Almorávidas. Estavam a chamar para si um poder que acabaria por os destruir.

Os exércitos em presença e o desenrolar da batalha

Yusuf desembarcara em Algeciras a 30 de julho com cerca de 7.000 guerreiros africanos, reforçando-se com tropas das taifas, atingindo estimativas de 20.000 a 30.000 homens. Os dois líderes trocaram mensagens antes da batalha: Yusuf ibn Tashfin ofereceu três possibilidades ao inimigo: converter-se ao islão, pagar tributo ou lutar. Afonso VI decidiu lutar.

A batalha começou ao amanhecer de uma sexta-feira. Yusuf dividiu o seu exército em três divisões. A primeira divisão, dirigida por Al-Mutamid de Sevilha, lutou sozinha contra Afonso VI até à tarde. Depois juntou-se a ela Yusuf ibn Tashfin com a sua segunda divisão, para rodear as tropas de Afonso VI. Às tropas cristãs entrou-lhes o pânico, e começaram a perder terreno. Então Yusuf ordenou à terceira divisão que atacasse.

Afonso, perante o perigo de envolvimento que aniquilaria o seu exército, ordenou romper o contacto e iniciar uma retirada escalonada. Muito depressa, essa retirada converteu-se numa debandada. O próprio Afonso, com uma grave ferida numa perna, fugiu com 300 cavaleiros ao longo de 125 quilómetros durante o dia seguinte, refugiando-se em Cória e dirigindo-se depois a Toledo.

Do grande êxito militar não tiraram os triunfadores quase nenhum fruto político. Yusuf ibn Tashfin teve de regressar a África pela morte do seu filho primogénito.

A chegada dos Borgonheses à Península está diretamente associada à expedição militar de 1087. Raimundo de Borgonha chegou a Espanha pouco depois da conquista de Toledo pelos cristãos em 1085 e do início da invasão de Al-Ândalus pelos Almorávidas. Precisamente para colaborar com as armas cristãs contra a presença dos Almorávidas na Península, organizou-se de além dos Pirenéus a expedição dirigida pelo duque Eudes de Borgonha, primo de Raimundo e irmão mais velho de Henrique, que também participou nesta expedição. A campanha militar — uma verdadeira cruzada — celebrada durante o ano de 1087 contra a praça-forte de Tudela, incluía além do importante contingente borgonhês, e personagens tão significativos como Raimundo de Saint-Gilles, conde de Tolosa, que mais tarde casaria com Elvira e que seria um dos homens que lideraram a primeira Cruzada.

O cerco de Tudela deve ter resultado, mas rapidamente terá sido reconquistado. Mas o episódio teve consequências duradouras: quando os expedicionários franceses visitaram a Corte do rei de Leão, antes de regressarem à sua terra, foram extraordinariamente bem acolhidos. Foi então que Raimundo renunciou a regressar ao seu país de origem, à espera do seu casamento com a infanta Urraca.

Constança de Borgonha, segunda mulher de Afonso VI, era tia de Henrique de Borgonha, Eudes e Hugo, os três eram irmãos.

Raimundo pertencia era aparentado com Henrique de Borgonha, mas possuía estatuto hierárquico superior.

XV. O Reinado entre Sagrajas  (Zalaca) e a Entrega do Condado Portucalense (1086–1096)

A crise das parias e a delegação da defesa

Como consequência da grave derrota de Sagrajas (ou Zalaca), as taifas andalusinas deixaram de pagar parias a Afonso VI, o que supôs um grave prejuízo para os fundos militares da coroa leonesa. O rei teve de confiar a defesa da fronteira cada vez mais a grandes senhores: o Cid a leste, Álvar Fáñez entre Valência e Toledo, e Pedro Ansúrez em Toledo. Mais a ocidente, a mesma tarefa ficou nas mãos do conde Raimundo, genro do monarca.

A política de parias, a queda das taifas e a crise financeira (1089–1091)

Em 1090, Raimundo de Borgonha foi nomeado governante da Galiza, com poderes vice-reais. Em maio de 1091, o general almorávida Syr ibn Abi Bakr pôs cerco a Sevilha. Sevilha caiu, e Al-Mutamid foi exilado para o Magrebe onde morreria. Este foi o fim da política de parias: as taifas foram sendo absorvidos um a um pelo califato almorávida.

Em 1093, o rei taifa de Badajoz, Al-Mutawakkil, em pânico perante os Almorávidas, entregou as cidades de Santarém, Lisboa e Sintra a Afonso VI em troca de proteção militar. Afonso e confiou a sua administração a Raimundo de Borgonha.

Em 1094, o general almorávida Syr ibn Abi Bakr capturou Badajoz e executou Al-Mutawakkil e os seus filhos. Lisboa e Sintra foram conquistados pelos Almorávidas. Em Santarém, Soeiro Mendes da Maia, cercado pelas tropas almorávidas, resistiu energicamente até que Bakr regressou ao norte de África — Santarém ficou como uma ilha cristã isolada num território que passara ao controlo almorávida e só seria perdida em 1111.

Raimundo de Borgonha organizou uma contraofensiva, reunindo tropas em Coimbra com contingentes galegos. Avançou sobre território muçulmano, porém foi derrotado em batalha e só a grande custo logrou regressar a território cristão. A incapacidade mostrada por Raimundo frente aos Almorávidas ditou a sua perda de prestígio na Corte leonesa.

Afonso VI procedeu à reorganização territorial da Galiza e da região do Mondego. Raimundo de Borgonha viu-lhe serem subtraídas as terras entre o Minho e o Mondego — até então administradas como extensão da Galiza sob o seu condado — para serem entregues a Henrique de Borgonha, que foi feito conde de Portucale.

Isto ocorreu no final de 1096 ou início de 1097. Esta reorganização foi uma decisão estratégica de defesa: Henrique, com experiência militar comprovada e estatuto hierárquico superior, poderia ser mais apto do que Raimundo para resistir aos Almorávidas na fronteira sul.

Por causa da conquista de Toledo de 1085 por parte do dom Afonso VI, pelo chamamento das Taifas dos Almorávidas, que viviam no atual Marrocos, pela vitória destes em Badajoz, Dom Afonso VI teve que pedir ajuda aos poderosos senhores de Borgonha e é assim que aparecem o conde dom Raimundo e Henrique. O primeiro casa com a sua filha Urraca e herda a Galiza e a região de Portucale do rio Minho ao Mondego, para ser o comandante da defesa dos Almorávidas na fronteira do rio Mondego-Coimbra e a Cordilheira Central, porque o conde dom Raimundo não foi capaz de defender Lisboa e Sintra, o rei dom Afonso VI, decidiu partir ao meio separando a Galiza de Portugal pelo rio Minho e isto foi um ato fundamental para a fronteira que hoje temos.

A Ponte como Palco

Comece pela localização. Estão de pé numa ponte que une dois reinos — Espanha e Portugal. Mas há 900 anos, esta linha de água não dividia dois países.

Afonso VI tinha um problema de herança. Imaginem: o vosso pai morre e divide o reino entre três filhos. O mais velho quer tudo. Afonso é preso, rapam-lhe a cabeça, vestem-no de monge. Foge para Toledo, vive entre os inimigos. Um dia, o irmão morre — assassinado a traição. Afonso atravessa a noite a galope, chega a Leão de madrugada, e às seis da manhã é rei de três reinos.

Mas a história não acaba em glória. Acaba aqui, neste rio.


A Reviravolta

Afonso VI Conquistou Toledo em 1085 — a antiga capital visigótica, “Imperador de toda a Espanha”. Um ano depois, os Almorávidas — guerreiros do deserto do Sara, “monges-soldados” — atravessam o estreito de Gibraltar. Na batalha de Sagrajas, Afonso VI é derrotado, fere-se na perna, foge 125 quilómetros num só dia para Cória.

Perde o dinheiro das parias. Os reinos muçulmanos deixam de pagar-lhe tributo. Precisa de homens para defender a fronteira. Chama os Borgonheses — franceses, cruzeiros, estrangeiros. Raimundo de Borgonha casa com a filha Urraca, recebe a Galiza e Portugal (até ao rio Mondego). Mas Raimundo falha: não consegue defender Lisboa e Sintra em 1094. Os Almorávidas tomam-nas.

E aqui está o ato decisivo. Afonso VI olha para um mapa — ou para a terra mesmo — e decide: o rio Minho será a nova fronteira. Separa a Galiza de Portugal. Dá a Raimundo o norte, o que hoje é a Galiza espanhola. Dá a Henrique de Borgonha o sul, o Condado Portucalense, do rio Minho ao rio Mondego e a sua filha ilegítima Teresa

Aquela linha que veem a correr foi traçada por um rei desesperado num dia de 1096. Não era uma fronteira natural. Era uma decisão política — uma aposta. Henrique poderia defender melhor o território. O conde dom Henrique e dona Teresa resistiriam aos Almorávidas. Henrique… seria o pai do primeiro rei de Portugal. Portugal viraria reino em 1139, com Afonso Henriques, neto de Afonso VI.

Afonso VI nunca soube que criara Portugal. Morreu em 1109, sem herdeiro varão. A filha Urraca herdou tudo.  O neto Afonso VII unificou tudo. Mas esta divisão no inverno de 1096 ou 1097 marcaria para sempre Portuga, Espanha e a humanidade. Vocês estão a pisar a primeira fronteira de Portugal.

A pergunta que fica: Afonso VI foi um estrategista genial que criou Portugal por acaso? Ou um homem derrotado que teve de partir o seu império para o salvar? Olhem para o rio. Em 1085, ele era “Imperador de toda a Espanha”. Em 1096, precisava do rio Mondego para se defender. A glória dura pouco. As fronteiras podem durar milhares de anos.

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