Castelo de Montalegre

O Castelo de Montalegre: pedra, fronteira e memória no coração do Barroso

Um castelo sobre o granito

No topo de um monte granítico, a 980 metros de altitude, ergue-se o Castelo de Montalegre. Dali o olhar alcança, a oeste, as serras do Gerês, que fazem de barreira natural. A Nordeste, a serra do Larouco impõe-se como referência identitária. A norte corre o Cávado. O castelo domina a povoação, a poucos quilómetros da fronteira com a Galiza.

Não esteve sozinho. Nas proximidades existiram os castelos da Piconha, perto de Tourém, e de Portelo, em Sendim, que após a independência de Portugal defenderam o reino e o vale do Cávado.

Subir a este castelo ajuda-nos a perceber por que razão o Barroso viveu sempre segundo uma lógica própria. A distância dos grandes centros, o clima duro e o relevo exigente moldaram comunidades resilientes, organizadas e profundamente ligadas ao território. O Castelo de Montalegre está classificado como Monumento Nacional desde 1910.

Das primeiras ocupações ao foral de 1273

O local foi ocupado sucessivamente por Romanos, como testemunham as moedas e lápides recuperadas na área. Integrou depois o reino de Leão, mais tarde o reino da Galiza e de novo o de Leão, até passar para Portugal, ainda no tempo de D. Afonso Henriques. Desde então faz parte de Portugal.

Na Idade Média o território estava compreendido nos domínios do reino de Portugal desde a sua independência. A 9 de junho de 1273, D. Afonso III (1248-1279) concedeu foral à povoação, que se tornou cabeça das chamadas Terras de Barroso. O castelo ainda não existia, e o próprio foral o diz. Os povoadores deviam dar, à escolha do rei, um cavaleiro fidalgo natural do reino, de quinhentos soldos, que lhe fizesse homenagem do seu alcácer quando aí o edificar, e que seria aí alcaide-mor. É uma singularidade a sublinhar. De acordo com este primeiro foral, o alcaide de Montalegre era eleito pela população, o que constitui um caso raro e original.

 É a partir desta data que começa o povoamento de Montalegre e que a construção do castelo deve ter sido iniciada.

D. Dinis: o castelo, o dote e o povoamento

Em 24 de abril de 1281, pelo menos parte do castelo já se erguia. Na carta de arras para D. Isabel, a princesa de Aragão sua noiva, D. Dinis arrolou os bens dotais e ofereceu doze castelos, entre os quais o de Montalegre. O mesmo rei (1279-1325) garantiu à vila substanciais privilégios em 1289, com o objetivo de a povoar.

A construção do castelo insere-se na estruturação da região fronteiriça da zona de Chaves por D. Afonso III. Foi uma iniciativa que visou dotar a fronteira transmontana setentrional de uma ordem territorial e jurídica dependente da autoridade régia, mas cujos resultados ficaram aquém do esperado. Antes de terminar o século XIII, D. Dinis viu-se obrigado a conceder nova carta de foral a Montalegre, em 1289. Entregou a tarefa do povoamento a Pedro Anes, esclarecendo que, por esses anos, a póvoa se encontrava erma.

Essa carta tem data: 3 de janeiro de 1289. Manda o clérigo Pedro Anes povoá-la como quisesse. O facto de o povoamento se fazer, nesta altura, por iniciativa de um clérigo leva a supor que não existia alcaide no castelo. Foi durante o reinado de D. Dinis que se iniciou a construção da torre de menagem.

D. Afonso IV e a data de 1331

O castelo foi concluído, ou terá sido remodelado, em 1331, no reinado de D. Afonso IV (1325-1357), segundo uma inscrição epigráfica no sopé da torre sul existente na torre do relógio: «R. Alf. 4 AN 1331». A 26 de junho de 1340, D. Afonso IV confirmou o foral.

A crise de 1383-1385

Na crise de 1383-1385, a vila e o seu castelo tomaram partido por D. Beatriz. Depois da batalha de Aljubarrota foram incorporados pelas forças de D. João I (1385-1433), no contexto da campanha a Chaves e ao norte de Portugal. Nesse quadro, as terras de Barroso foram oferecidas ao Condestável, D. Nuno Álvares Pereira.

D. João II e Duarte de Armas

A última grande campanha medieval teve lugar no reinado de D. João II. Os trabalhos visaram reforçar a entrada principal, que passou a estar protegida por um reduto de torres circulares, com troneiras, de que resta pouco. Por fora, a estrutura era defendida por duas linhas de muralhas, como mostra o desenho de Duarte de Armas, hoje demolidas. A leste e a Sul desenvolveu-se a vila medieval.

Sob D. Manuel I (1495-1521), a povoação e o seu castelo foram figurados por Duarte de Armas no Livro das Fortalezas (c. 1509), e a vila recebeu o Foral Novo em 1515. Uma inscrição complementar na torre sul informa que obras de reparo foram concluídas pelo licenciado Manuel Antunes de Viana em 1580, data que assinala a reforma do castelo para o preparar para a guerra da Restauração.

Na Guerra da Restauração e a fortaleza abaluartada

Recuperado o seu valor estratégico-defensivo na raia, o castelo recebeu obras de modernização para o adaptar aos então modernos tiros de artilharia. Dessa altura datam diversos baluartes e revelins, de panos em ponta de estrela, característicos do período. No século XVII construiu-se uma fortaleza segundo o sistema de Vauban, que envolvia o castelo medieval e a antiga igreja paroquial.

O retrato de 1758

Nas Memórias Paroquiais de 1758, em resposta ao inquérito-geral do Padre Luís Cardoso a todas as freguesias do reino depois do terramoto, o pároco de Montalegre, Padre Baltazar Pereira Barroso, descreve a fortificação em carta de 19 de março desse ano. Era constituída por quatro torres ligadas por uma muralha, defendida por uma muralha externa e uma contramuralha com fosso.

Segundo o mesmo pároco, todos os meses vinham de Chaves para o castelo nove soldados, um cabo e um sargento. No muro havia sete cavaleiros, onde se punham as peças de artilharia para defesa da praça. Quando acabaram as guerras, mandaram-se conduzi-las para a praça de Chaves.

Em 1758, no terreiro interior das torres, levantava-se a casa do governador do castelo. Havia a cisterna e os fornos de cozer pão. Descreve-se o revelim junto à porta norte, por onde se entrava para o terreiro, e aludem-se às tarimbas dos soldados, às casas de oficiais e sargentos e às cavalariças existentes junto do castelo. A torre de sudoeste, a mais pequena das quatro, servia para guardar a pólvora.

O Terramoto de 1 de novembro de 1755 quase não tocou nesta pedra: segundo as Memórias Paroquiais, apenas caiu uma ameia do castelo.

Em 1762 data-se uma planta do castelo e fortaleza, conservada na Real Academia de la Historia, em Madrid.

Os séculos XIX e XX

Em 1875, segundo Pinho Leal, as duas linhas de muralhas e fossos que circundavam o castelo já se encontravam demolidas. Nos finais do século XIX foi colocado um relógio circular no cubelo maior, virado à vila, e a torre passou a designar-se torre do relógio.

Ao longo do século XX, o castelo foi alvo de diversas ações de recuperação e valorização, por parte da ex-DGEMN, do ex-IPPC e da Câmara Municipal de Montalegre (1988/1990) e, mais recentemente, do ex-IPPAR (1998). Na sequência da intervenção de 1990 foi instalado um núcleo museológico. Em 2021, deixou de ser tutelado pelo Governo e passou para a responsabilidade da Câmara.

Anatomia de uma fortaleza gótica

O castelo, de planta ovalada, quase circular, é formado por quatro torres ligadas por muralhas, que fecham a praça de armas. Nesta abre-se uma cisterna profunda, que alarga no fundo, onde é coberta por abóbada.

A torre de menagem, a norte, em estilo gótico, ergue-se a 27 metros de altura. É coroada por balcões de matacães, mísulas e ameias pentagonais, e as salas interiores apresentam abóbada de cantaria. Tem planta quadrada e quatro pisos interiores, um deles abobadado. O primeiro pavimento é sobrelevado e acede-se-lhe por portal de arco quebrado. A torre menagem surge já integrada no circuito muralhado, rasgado por seteiras estreitas que se abrem para o interior. O castelo conserva assim as principais características da fortaleza gótica, com a torre de menagem associada à cerca e não isolada no centro do pátio.

A Torre Furada, a sul, tem planta quadrada e é encimada por ameias. Entra-se por duas portas, uma ao nível do pátio e outra à altura do caminho de ronda. Esta última tem arco de volta perfeita e um tímpano decorado com a cruz da Ordem de Cristo, de feição mais antiga. Há ainda duas outras torres a sul, mais pequenas: a Torre do Relógio e a Torre Pequena.

Da primitiva muralha, rasgada por duas portas, uma voltada a norte e outra a sudeste, subsiste apenas a segunda, de arco quebrado. Da antiga barbacã que protegia o portal norte restam vestígios ao nível dos alicerces dos dois cubelos circulares que a reforçavam.

Como já se disse esta arquitetura militar é medieval e o castelo integra-se na linha de defesa da fronteira norte, nas zonas de mais fácil acesso ao país.

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