Igreja de São João Batista (Moura ) (**)

Igreja de São João Batista (**)

Ali, no coração da malha urbana, ergue-se este templo que D. Manuel I, o Venturoso, mandou edificar por volta de 1500. A antiga igreja do castelo, de evocação a Santa Maria, já não chegava para o fervor dos crentes. Ficava pequena, apertada como um sapato velho, para uma população que crescia ao ritmo das fronteiras consolidadas.

O mestre Cristóvão de Almeida ou será que foi obra de Francisco da Arruda, quando reconstruia o castelo. Algum deles foi o “maestro” desta obra manuelina. E que peça ele nos deixou! O portal principal é um prodígio de simbolismo: esferas armilares, a Cruz de Cristo e aquele escudo real que parece vigiar a eternidade. É o estilo Manuelino no seu esplendor, onde o messianismo e a fé se entrelaçam em troncos podados e folhas de acanto que parecem ganhar vida no mármore.

Para compreendermos o Manuelino, temos de vestir a pele de um místico do século XVI. Não é apenas pedra; é uma profecia esculpida.

O Tronco Podado: A Morte que é Esperança

Repare bem naqueles fustes que sustentam a porta. Parecem troncos de árvore a que cortaram os ramos, cheios de nós, rugosos, quase secos. À primeira vista, parece a celebração da escassez mas há aqui um “pulo” metafísico.

O tronco podado é o símbolo máximo do Messianismo. É a ideia de que a “Vara de Jessé”, embora pareça morta e estéril, guarda no seu âmago a seiva da vida. Para o homem do tempo de D. Manuel I, o país era esse tronco: pequeno, fustigado, mas prestes a florir num Império Espiritual. É a estética da ressurreição.

A Folha de Acanto: O Vigor que Rompe o Calcário

E depois, desses troncos secos, vemos brotar a folha de acanto. É uma planta espinhosa, persistente, que os gregos já usavam nos capitéis coríntios, mas que aqui ganha uma luxúria quase carnal. O acanto representa a imortalidade e a superação de provações.

Hoje, vivemos tempos em que muitas das nossas raízes parecem “troncos podados”, secas pelo abandono do interior ou pelo esquecimento da nossa história. Olhar para a Igreja de Moura ou para os Jerónimos é recordar que a poda é necessária para que a árvore cresça com mais força.

O interior da igreja

Lá dentro, o espaço respira. São três naves que nos convidam ao silêncio. Mas o que nos corta a respiração é a capela-mor. Revestida de azulejos seiscentistas em tons de azul e amarelo, é como se o céu tivesse decidido repousar sobre as paredes. E aquele púlpito em mármore? Uma peça renascentista de uma elegância, que nos lembra que a arte, tal como a fé, procura sempre a elevação.

Nem o terrível terramoto de 1755, que fez ruir o teto e a frontaria, conseguiu apagar este brilho. A igreja foi reconstruída, teimosa como o povo que a habita.

O revestimento de azulejos seiscentistas é um mar de padrões polícromos. No lado do Evangelho, as albarradas de 1651 florescem na cerâmica; no lado da Epístola, as virtudes da igreja convidam-nos à reflexão filosófica. Há ainda a memória de tempos mais antigos, nos azulejos hispano-árabes da capela batismal.

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