Portas de Rodão e a Torre Templária (***) (Vila Velha de Rodão)

As Portas de Rodão e torre de Rodão (***)

Olhar para as Portas de Ródão, aquela garganta monumental onde o rio Tejo parece espremido por duas gigantescas garras de pedra, é fazer um exercício de humildade filosófica. Compreendemos ali que a nossa existência é um mero sopro. A paisagem que hoje deslumbra o viajante é o resultado de um diálogo dramático entre a rigidez da rocha e a persistência da água. Um diálogo que começou muito antes de haver Homens, reis ou nações.

Aqui a geologia se transforma em história, a história se faz lenda, e a lenda — que tantas vezes a arqueologia teima em desmentir — permanece viva no eco que ressoa nas escarpas quartzíticas.

Linha Cronológica da Paisagem

Para nos situarmos nesta sinfonia temporal, eis os compassos que moldaram a região:

-Há 480 M.a. -> Oceano Primitivo (Período Ordovícico). Deposição de areias quartzosas no fundo do mar.

-Há 380-280 M.a. -> Orogenia Hercínica (ou Varisca)- Compressão, dobramento (sinclinais) e criação da Pangea.

-Era Terciária -> Soterramento por Arcoses-Desgaste do relevo e cobertura por sedimentos macios.

-Há 2,6 M.a. -> Fenómeno da Epigenia (Período Quaternário). Soerguimento tectónico; o Tejo

tropeça e cava o quartzito.

-Séculos XII-XIII -> Construção Medieval do Castelo de Ródão. A Ordem do Templo edifica a torre estratégica de vigia.

Século XXI-> Presente e Futuro. Monumento Natural, santuário de biodiversidade e reflexão.

O Nascimento da Rocha: De Oceano a Montanha

Imagine que, há cerca de 480 milhões de anos, no período Ordovícico, o leitor não estaria a pisar solo firme, mas sim o fundo límpido de um oceano primitivo. Na calmaria daquelas profundezas, depositaram-se pacientemente areias finas, riquíssimas em quartzo. O tempo passou. E o tempo, na geologia, é um escultor pesado.

Sob o efeito de pressões esmagadoras e temperaturas infernais — num processo a que a ciência chama metamorfismo regional —, aquelas areias soltas soldaram-se. Transformaram-se em Quartzitos. São rochas de uma dureza quase soberba, teimosas, que hoje vemos coroar as cristas das nossas serras.

Mais tarde, o planeta decidiu agitar-se. A Orogenia Hercínica (ou Varisca) foi um parto que durou cerca de 100 milhões de anos, iniciando-se no Devónico (há 380 milhões de anos) e estendendo-se até ao Pérmico Inferior (há 280 milhões de anos). Foi este fechar de pinça tectónica que esmagou os continentes para dar origem ao supercontinente Pangea.

Os estratos de rochas sedimentares arenosas, que repousavam pacificamente na horizontal, sofreram uma compressão monumental. Foram espremidos, dobrados, arqueados. Criaram-se assim dobras em forma de “U”, os chamados sinclinais.

A Persistência do Rio: O Fenómeno da Epigenia

A história, contudo, tem ironias deliciosas. Durante os milhões de anos que se seguiram, este relevo vigoroso foi sendo fustigado e desgastado pelos elementos. Acabou por ser sepultado. Durante o período Terciário, sedimentos muito mais macios, umas areias ricas em feldspato conhecidas como arcoses, cobriram por completo as duras cristas quartzíticas.

O Tejo “ancestral” corria nessa altura lá no alto. Imagine o rio a deslizar calmamente por cima deste colchão sedimentar, a uma altitude superior a 100 metros acima do leito atual. Ele nem desconfiava do monstro de pedra que dormia por baixo das suas águas.

Foi nos últimos 2,6 milhões de anos que o drama se adensou. A crosta terrestre começou a subir lentamente num soerguimento tectónico, combinada com profundas alterações climáticas. O Tejo, vendo o declive acentuar-se, começou a escavar o seu leito verticalmente.

Removeu os sedimentos macios da superfície até que… “tropeçou”. O rio bateu na crista quartzítica enterrada.

Qualquer um de nós contornaria o obstáculo. O rio não. O Tejo foi persistente. Em vez de desviar o seu curso, continuou a serrar a rocha dura, aproveitando-se das zonas de fraqueza abertas pelas fraturas geológicas.

A este fenómeno da mecânica fluvial dá-se o nome de Epigenia. O resultado? Um estrangulamento brutal, uma garganta vertiginosa com 260 metros de profundidade e uns escassos 45 metros de largura na base.

Antes de a barragem acalmar as águas e subir o seu nível, todo o caudal do Tejo era forçado a espremer-se por este funil exíguo. Formavam-se ali os “cachões” — rápidos imponentes e rugidores que, em dias de grandes cheias, criavam uma barreira intransponível que impedia totalmente a navegação. O rio, ali, era dono e senhor.

A Crista Quartzítica e o Relevo Apalachiano

O tempo continuou o seu trabalho de limpeza. Os agentes erosivos encarregaram-se de desgastar os xistos e metagrauvaques envolventes, materiais bem mais frágeis e fáceis de varrer. Os quartzitos, orgulhosos da sua dureza, permaneceram quase imutáveis.

Surgiram assim as cristas espetaculares que rasgam a paisagem ao longo de dezenas de quilómetros. É o chamado relevo Apalachiano, um rendilhado de pedra que parece a espinha dorsal de um dragão adormecido.

As Portas de Ródão são um exemplo mediático deste fenómeno em Portugal, mas fazem parte de uma estrutura muito maior: a Serra das Talhadas. Esta linha de crista estende-se por cerca de 55 quilómetros, abraçando as serras do Perdigão e desenhando as fronteiras geográficas dos concelhos de Proença-a-Nova, Vila Velha de Ródão e Nisa.

Desta imensa muralha natural, merecem destaque três pontos fulgurais:

-As Portas de Ródão, o nosso desfiladeiro principal.

-As Portas de Almourão (ou Vale Mourão), onde o rio Ocreza faz a sua própria travessura e corta a mesma crista quartzítica na pitoresca zona da Foz do Cobrão.

.O Alto de São Miguel, em Nisa, onde a crista atinge o seu zénite a cerca de 460 metros de altitude, terminando de forma monoclinal, como uma rampa que se despenha no vazio.

Um Olhar Pelo Território: As Cristas Quartzíticas de Portugal

Estas elevações rochosas, estreitas e alongadas, não são um exclusivo de Ródão. Pontuam o mapa de Portugal como cicatrizes de beleza antiga, erguendo-se abruptamente sobre a monotonia dos xistos.

Façamos um breve roteiro mental por estas catedrais de pedra:

-Cristas do Espinhal (Penela/Coimbra): Estão na génese da impressionante garganta das Fragas de S. Simão e têm o seu início aqui bem perto, no concelho de Mação.

-Crista de Marvão (Serra de São Mamede): Uma autêntica obra de arte transfronteiriça. Esta imponente crista vem de Espanha, cruzando a lindíssima Serra de São Pedro, nascendo perto de Mérida, passando por Cáceres, até culminar em Portugal, onde a vila medieval de Marvão se fixou, audaz, mesmo no seu topo alcantilado.

Serra do Buçaco: Cortada de forma dramática pelo rio Mondego nas célebres Livrarias do Mondego (Penacova) e que prossegue o seu caminho em direção aos Penedos de Góis.

-Serra do Moradal: Muito próxima da Serra das Talhadas, guarda no seu seio a frescura da cascata da Fraga de Água d’Alta.

-Outros Gigantes: As serras de Monfortinho-Penha Garcia, do Marão ou da Marofa.

Estas formações não são meras coordenadas geográficas. São ecossistemas, monumentos estéticos e palcos da nossa História. No Buçaco, por exemplo, a crista quartzítica serviu de barreira intransponível contra as tropas de Massena, na Terceira Invasão Francesa. Hoje, oferecem-nos miradouros que nos devolvem a escala do mundo.

O Santuário de Ródão: Vida, História e Falhas

Nestas rochas estão gravados icnofósseis, que mais não são do que marcas de atividade de organismos com centenas de milhões de anos. Falamos de pistas de Cruziana, Skolithos ou vestígios de trilobites, os antigos governantes destes mares extintos.

Hoje, as escarpas são um santuário de biodiversidade. Nas fragas inacessíveis nidifica a maior colónia de grifos de Portugal. Se olharmos para o céu, com um pouco de sorte, cruzamo-nos com o voo discreto da cegonha-preta ou com a silhueta elegante da águia-de-Bonelli.

Na botânica, há relíquias que sobreviveram ao tempo, como o zimbro (Juniperus oxycedrus), um verdadeiro sobrevivente vegetal da Era Terciária.

A presença humana adaptou-se a este gigantismo. A altitude ofereceu pontos estratégicos de defesa militar, como o Castelo do Rei Wamba. A geologia moldou também a sobrevivência económica. Desde a mineração romana, que lavou o ouro no Conhal do Arneiro (na margem esquerda do Tejo), até à persistência agrícola dos homens que plantaram oliveiras em socalcos nas encostas declivosas.

Até a água tem aqui um toque especial. A Falha do Ponsul, essa cicatriz tectónica com cerca de 120 km de extensão que vai morrer precisamente no Arneiro, provoca o desnível do quartzito visível nas Portas de Rodão. Esta fratura imensa causou o levantamento de uns blocos de rocha e o abatimento de outros, criando o degrau geográfico que separa a Superfície de Castelo Branco da Superfície de Nisa. Foi esta falha que forçou o Tejo a adaptar-se e que permitiu a emergência de nascentes minerais curativas, como a Fonte das Virtudes.

O Castelo de Ródão: A Torre do Rei Wamba

Empoleirado na escarpa quartzítica, a cerca de 300 metros de altitude na margem direita do rio, ergue-se o Castelo de Ródão. O local controlava uma passagem estratégica da Península Ibérica. Quem dominasse este topo, dominava a fronteira flutuante entre o norte cristão e o sul muçulmano.

A arqueologia, fria e factual, diz-nos que a estrutura que hoje subsiste é uma torre de planta quadrangular (uma torre de menagem), inserida num recinto muralhado trapezoidal irregular. Escavações realizadas entre 2000 e 2006, dirigidas pelo Dr. Pilar Reis, deitaram por terra qualquer origem visigótica.

O castelo é medieval, edificado entre o final do século XII e o início do século XIII pela Ordem do Templo, após D. Sancho I ter doado a Herdade da Açafa aos cavaleiros templários em 1199.

Ao visitarmos a torre, notamos que originalmente teria três pisos, restando hoje apenas dois. O acesso faz-se por um portal sobrelevado em arco apontado, provavelmente do século XIV. O tímpano, curioso pormenor, está liso: a pedra foi preparada para receber uma inscrição ou brasão que nunca chegou a ser esculpido. As fachadas são cegas, rasgadas apenas por frestas ou seteiras retilíneas muito estreitas, por onde os arqueiros espreitavam o perigo.

A Lenda e a Maldição: Onde a História Perde a Razão

Mas o povo prefere a poesia à arqueologia. E a tradição dita que aquele castelo pertenceu a Wamba (ou Vamba), rei visigodo que governou a Península entre 672 e 680. Wamba foi um monarca real, famoso pela sua rigidez moral, mas viveu séculos antes de a primeira pedra deste castelo ser colocada. A ligação é puramente lendária. E que bela lenda!

Reza a história oral que Wamba vivia ali com a sua rainha. Devido às longas ausências do rei nas caçadas e nas guerras, a rainha passava os dias solitária. Começou a trocar olhares e suspiros com um rei mouro que governava a margem oposta do Tejo. Diz-se que os amantes namoravam à distância, sentados em cadeiras de pedra escavadas em cada uma das margens das Portas de Ródão.

O rei mouro, apaixonado e audaz, decidiu raptar a rainha. Para isso, ordenou a escavação de um túnel secreto que começava no Buraco da Faíopa, na encosta ocidental da serra de São Miguel. Queria passar por baixo do leito do Tejo. Contudo, os cálculos saíram furados. O túnel falhou o alvo e foi terminar no morro sul das Portas, numa cavidade que hoje o povo conhece como Buraca da Moura.

Wamba descobriu a traição. Usando de astúcia, disfarçou-se de peregrino e infiltrou-se no castelo do rival. Feito prisioneiro, pediu um último desejo: tocar a sua “corna”, o instrumento de sinalização com que convocava os seus homens. O som ecoou pelo vale. Os guerreiros visigodos acudiram ao sinal, esmagaram o exército mouro e resgataram a rainha infiel.

A justiça de Wamba foi implacável. Julgada por um conselho familiar, a rainha foi condenada a um fim terrível: foi amarrada a uma mó de moinho e despenhada pela íngreme escarpa em direção ao Tejo. Diz o povo, com um olhar focado na vegetação, que por onde o corpo da rainha rolou, a terra ficou estéril e nunca mais nasceu mato.

Antes de desaparecer nas águas profundas do rio, a rainha cuspiu uma terrível maldição que o eco gravou nas paredes de pedra:

-“Adeus Ródão, adeus Ródão,

-Cercada de muita murta

-E terra de muita puta.

-Não terá mulheres honradas

-Nem cavalos regalados

-Nem padres coroados.”

Há quem prefira uma versão mais curta, mas igualmente mordaz: “Nesta terra não haverá cavalos de regalo, nem padres se ordenarão e putas não faltarão.” Se a profecia se cumpriu ou não, deixo ao critério do bom senso do visitante.

Com o avanço da Reconquista para sul, o castelo perdeu a sua função e o silêncio instalou-se. Em 1505, o Tombo da comenda da Ordem já o descrevia em ruínas, com as muralhas caídas e a torre sem teto.

Mas a geopolítica é cíclica. O velho forte templário haveria de reerguer-se como base de artilharia para controlar a passagem do Tejo durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) e, mais tarde, nas Invasões Francesas (1807-1814). Foi o Marquês de Alorna, no início do século XIX, quem ordenou a sua última reconstrução militar.

Hoje, classificado como Imóvel de Interesse Público juntamente com a Capela de Nossa Senhora do Castelo, o complexo convida-nos a pensar. É um lugar onde a ciência histórica desmente o mito, mas onde o mito teima em não morrer, porque a paisagem precisa de histórias para ser humana.

Capela de Nossa Senhora do Castelo

A sua edificação ou reestruturação remonta aos séculos XVI–XVII, embora a tradição oral lhe atribua uma origem mais remota e de cariz miraculoso. Segundo a lenda, terá sido erguida em cumprimento de uma promessa votiva feita por um barqueiro que, em perigo de vida durante a travessia do Tejo junto às Portas de Ródão, invocou a proteção da Virgem e se comprometeu a levantar-lhe um santuário em agradecimento pela salvação.

Do conjunto primitivo subsiste a imagem de Nossa Senhora do Castelo, representação da Virgem com o Menino ao colo, esculpida em pedra calcária e datada do século XVI. Esta peça de notável valor artístico encontra-se atualmente em Vila Ruivas, onde foi transferida para maior segurança e preservação.

Durante séculos, a capela constituiu um importante centro de peregrinação, reunindo fiéis provenientes da Beira e do Alentejo, que aí confluíam em romaria. Embora o fervor coletivo tenha diminuído ao longo do tempo, o espaço mantém a sua função religiosa original, celebrando-se anualmente a sua festa litúrgica a 15 de agosto, em honra da Assunção de Nossa Senhora.

O Cruzeiro de Barco

Para compreender verdadeiramente a altivez destas muralhas, o segredo é descer ao nível da água. Fazer o passeio de barco pelo rio Tejo é uma experiência quase mística. À medida que a embarcação desliza suavemente pelo espelho de água, as paredes de pedra sobem à nossa volta, gigantescas, roubando-nos o horizonte e devolvendo-nos a verdadeira escala do mundo.

Lá no alto, recortadas contra o azul do céu, surgem as silhuetas majestosas dos grifos. Vê-los planar em círculos perfeitos, aproveitando as correntes térmicas que sobem do desfiladeiro, é um espetáculo de pura elegância. Há momentos em que o silêncio do rio é tão profundo que quase conseguimos ouvir o restolhar das suas grandes asas. Se olharmos com atenção, nas fragas mais recônditas, descobrimos os seus ninhos, desafiando a gravidade.

Conclusão: Reflexões Sobre as Portas do Tempo

Olhamos para as Portas de Rodão e vemos o passado: o mar ordovícico, o suor dos escravos romanos no Conhal, as preces dos templários na torre, e o sangue da rainha da lenda.

Vemos o presente: um espaço protegido, classificado, onde os grifos planeiam sobre águas agora domesticadas pelas albufeiras das barragens. Onde antes havia o rugido dos cachões medonhos, há hoje um espelho de água sereno, quase melancólico.

E o futuro? O futuro interroga-nos. Num mundo em rápida transformação climática e onde o interior do país luta contra o esquecimento e o despovoamento, Ródão resiste pela sua monumentalidade. A rocha que demorou centenas de milhões de anos a erguer-se e o rio que gastou milénios a cavar a sua passagem continuam lá.

Que saibamos nós, os efémeros guardiões deste património, ter a sabedoria de preservar este diálogo entre a terra e a água, garantindo que as futuras gerações possam continuar a ouvir o eco da história nestas imponentes portas de pedra.

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