Santuário de Nossa Senhora da Nazaré
1. A Beleza Panorâmica e a Geologia do Cabo
O Sítio da Nazaré ergue-se sobre um dos mais espetaculares promontórios rochosos do litoral português, com uma altitude máxima de cerca de 110 metros sobre o nível do mar, dominando um panorama de rara beleza que se estende desde a Praia do Norte até à vila da Nazaré, no sopé da falésia. A implantação do santuário neste cabo não é casual: obedece a uma lógica de isolamento, recolhimento e visibilidade — características que, desde a Antiguidade, associavam os lugares elevados à sacralidade.
Do ponto de vista geológico, o promontório da Nazaré insere-se na Bacia Lusitânica e corresponde a uma série de episódios sedimentares transgressivos e regressivos ocorridos entre o Cretácico Superior e o Eocénico. As rochas que o constituem são de origem sedimentar, com fácies marinha bastante fossilífera, e apresentam no topo fácies litorais, aluviais, fluviais e continentais.
As litologias são diversas e incluem:
- Calcários e calcários margosos: rochas carbonatadas compactas, de cores claras (brancos, cremes, acinzentados), que formam bancadas resistentes no topo da arriba. São predominantemente do Turoniano (Cretácico Superior, cerca de 90 milhões de anos) e do Cenomaniano (Cretácico, cerca de 100 milhões de anos). Estes calcários, ricos em fósseis marinhos (foraminíferos, gastrópodes, bivalves, corais, oncólitos), testemunham ambientes de plataforma carbonatada de pequena profundidade, com águas claras e quentes.
- Margas e calcários margosos: depósitos de transição entre os ambientes carbonatados e os detríticos, com maior teor em matéria argilosa, que conferem menor resistência mecânica e favorecem a erosão diferencial.
- Argilas: níveis de textura fina, de cor mais escura, que se intercalam com os calcários e que, pela sua plasticidade, funcionam como horizontes de deslizamento, contribuindo para a instabilidade da falésia.
- Arenitos e grés: sedimentos siliciclásticos de granulometria variável, que afloram na parte oriental do promontório, circundando a povoação da Nazaré.
- Conglomerados: depósitos grosseiros, com clastos de dimensão centimétrica a métrica, que testemunham eventos de transporte energético (correntes de densidade, escoamentos aluviais) e que se observam tanto no complexo cretácico como nas formações paleogénicas do Eocénico e Oligocénico.
A arriba da Nazaré, com cerca de 1.100 metros de comprimento, é modelada em camadas alternadas de calcário compacto e níveis brandos (argilomargosos e calco-margosos), inclinadas cerca de 30° para nordeste. Esta heterogeneidade litológica, combinada com a dissolução bioquímica na base dos calcários, desencadeia processos de desmoronamento no topo e na face da falésia, conferindo ao promontório um caráter dinâmico e imponente. A presença de consolas de calcário com grande balanço constitui um dos principais riscos geológicos do local.
Ainda no topo do promontório, próximo do Forte de São Miguel, aflora um complexo filoniano de basaltos olivínicos, correlacionado com o Complexo Basáltico de Lisboa, testemunhando eventos vulcânicos do Paleogénico. Além disso, identifica-se no local um endocarso ocorrido durante o Cretácico Superior, bem como estruturas de colapso indicadoras de atividade sísmica passada (paleossismitos).
O Canhão da Nazaré, desfiladeiro submarino de origem tectónica relacionado com a falha da Nazaré-Pombal, começa a definir-se a menos de 500 metros da costa e prolonga-se por cerca de 170 quilómetros até profundidades de 5.000 metros. Este acidente geomorfológico funciona como um polarizador de ondulações, canalizando a energia das ondas e explicando as gigantescas vagas que atraem surfistas de todo o mundo — um fenómeno que transformou a Nazaré num ícone global do surf de ondas grandes.
2. A Lenda Fundacional: A Virgem, o Rei Rodrigo e o Frei Romano
A história do Santuário da Nazaré está indissociavelmente ligada a uma das mais antigas e enigmáticas lendas da Península Ibérica — a lenda da Virgem Negra trazida do Mosteiro de Cauliniana, perto de Mérida, após a derrota visigótica na Batalha de Guadalete (711).
Segundo a tradição, recolhida e sistematizada por Frei Bernardo de Brito na Monarquia Lusitana (1609) e completada por Manuel de Brito Alão em 1628 (Antiguidade da Sagrada Imagem de Nossa Senhora de Nazareth), a pequena imagem de madeira — representando a Virgem sentada a amamentar o Menino Jesus, com cerca de 25 centímetros de altura — teria sido esculpida por São José, o carpinteiro, em Nazaré da Galileia, e posteriormente pintada por São Lucas Evangelista. Venerada desde os primórdios do cristianismo na Palestina, foi resgatada dos iconoclastas no século V pelo monge Ciriaco, que a transportou para o Mosteiro de Cauliniana, perto de Mérida, na Hispânia.
Em 711, com a notícia da derrota do exército visigótico na Batalha de Guadalete e da invasão muçulmana, os monges de Cauliniana prepararam-se para fugir. Nesse momento, o rei Rodrigo, último monarca visigótico da Península Ibérica, que conseguira escapar do campo de batalha disfarçado de mendigo, pediu abrigo no mosteiro. Ao confessar-se ao frei Romano, foi obrigado a revelar a sua verdadeira identidade. O monge, compadecido, propôs-lhe que fugissem juntos, levando consigo a sagrada imagem da Virgem.
Atravessaram a Península de leste para oeste, até alcançarem a costa atlântica, onde se instalaram num eremitério abandonado no topo de uma colina rochosa — o Monte de São Bartolomeu. Ali permaneceram alguns dias, mas acabaram por separar-se: o rei Rodrigo retirou-se para uma vida eremítica no monte, enquanto o frei Romano, levando a imagem, instalou-se numa pequena gruta na falésia, sobre o mar, no local onde hoje se ergue a Ermida da Memória.
Passado um ano, o rei Rodrigo decidiu abandonar a região. O frei Romano continuou a viver no eremitério subterrâneo até à sua morte. A sagrada imagem permaneceu sobre o altar onde o monge a colocara, esquecida e quase ignorada, durante quase cinco séculos — de 711 a 1182 —, até ao episódio que mudaria para sempre a história do lugar: o milagre de D. Fuas Roupinho.
A História segundo Manuel Brito Alão (1628)
Foi Manuel de Brito Alão quem, em 1628, consolidou por escrito a versão definitiva da lenda, baseando-se nos manuscritos de Frei Bernardo de Brito e em tradições orais locais. No seu tratado Antiguidade da Sagrada Imagem de Nossa Senhora de Nazareth, Alão descreve com pormenor a fuga de Mérida, a separação entre o rei e o monge, e o destino final de cada um.
Quando o frei Romano morreu, a imagem ficou escondida na gruta, protegida do mundo exterior. A memória do seu paradeiro perdeu-se com o tempo, até que, no século XII, o acaso (ou a Providência) a revelou novamente ao cavaleiro D. Fuas Roupinho.
O Hipotético Túmulo do Rei Rodrigo
Quanto ao destino do rei Rodrigo, a tradição aponta para que ele tenha partido para o norte, buscando refúgio nas terras ainda não dominadas pelos muçulmanos. Diz-se que o seu corpo foi sepultado na Igreja de São Miguel do Fetal, em Viseu, onde existe um túmulo que a tradição popular identifica como sendo o seu.
A Igreja de São Miguel do Fetal é um templo de origem visigótica ou pré-românica, construído sobre um antigo templo que, segundo a tradição, terá servido de sepultura ao último rei visigótico. O túmulo, em granito, apresenta uma inscrição que, atualizando a grafia, diz: “Aqui repousa Rodrigo, último rei dos Godos”. Em 1735, foi concluído o restauro do túmulo, consolidando a ligação entre o monumento e a figura lendária do monarca derrotado.
Do ponto de vista historiográfico, a identificação do túmulo de Fetal com o rei Rodrigo carece de confirmação documental rigorosa. A figura de Rodrigo permanece envolta em mistério: a maioria das fontes árabes e cristãs medievais diverge sobre o seu destino final após Guadalete, e algumas nem sequer o mencionam. O túmulo de Fetal pode ser, na melhor das hipóteses, um memorial simbólico erguido para perpetuar a memória do último rei godo, independentemente de conter ou não os seus restos mortais. A sua importância reside, assim, mais no plano da memória coletiva e da identidade portuguesa do que no da certeza histórica.
3. A Ermida da Memória e a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré
A Ermida da Memória
A Ermida da Memória, também designada Capela da Memória ou Capelinha do Sítio, é o monumento mais antigo do conjunto. Foi erguida em 1182, por ordem de D. Fuas Roupinho, sobre a gruta onde, durante quase cinco séculos, esteve escondida a imagem da Virgem Negra.
A ermida primitiva apresentava a estrutura de um simples alpendre, com os lados abertos em forma de arcos, de modo a permitir a veneração da imagem mesmo do exterior. No século XIV, os primitivos arcos foram entaipados para proteger a imagem da ação do tempo, das chuvas e da maresia. A ermida atual apresenta planta quadrada e cobertura piramidal, com cerca de 4,5 metros de largura por 3 metros de altura até ao arranque da pirâmide.
Sobre a porta, existe um painel de azulejos com as armas de Portugal inscritas numa concha, e, assente na cimalha, uma edícula de pedra com decoração gótica (finais do século XIV), onde se encontra esculpida, em baixo relevo, a imagem de Nossa Senhora da Nazaré ladeada por três figuras de joelhos — bastante danificadas pela ação do tempo. O baixo-relejo original encontra-se hoje no Museu Reitor Luís Nési, anexo ao Santuário; na ermida expõe-se uma réplica.
O interior divide-se em dois pavimentos. O piso superior, totalmente revestido a azulejos do início do século XVIII (atribuídos ao Mestre António de Oliveira Bernardes), apresenta na abóbada piramidal um painel quadrado com a representação da Fénix, símbolo da esperança da vida após a morte, com a legenda “ET VIVAM” (“Vivamos assim”). Os lados da pirâmide exibem painéis pintados com uma roseira, uma palmeira, um cedro e um cipreste — plantas cujas características são comparadas às virtudes da Virgem.
O piso inferior, acessível por seis degraus de lioz, corresponde à cripta onde se encontra a entrada da gruta. Uma pequena janela ilumina o nicho gradeado em que repousava a imagem original, onde hoje se observa uma réplica. Na abóbada da cripta, um painel de azulejos representa o milagre de D. Fuas Roupinho. De ambos os lados da entrada, duas grandes lápides inscritas relatam a história da imagem: a da direita contém o texto de Frei Bernardo de Brito, em latim; a da esquerda é a sua tradução.
No final do século XVI, Frei Bernardo de Brito, em cumprimento de um voto, deslocou-se ao Sítio e, com a ajuda de devotos, escavou o subsolo da capela, redescobrindo a gruta que, a partir de então, passou a estar visível. Segundo a tradição local, várias pessoas que se aventuraram demasiado no interior da gruta desapareceram, incluindo um padre que entrou preso a uma corda acompanhado pelo seu cão. Por essa razão, construiu-se uma parede para impedir o acesso à parte mais remota e colocaram-se grades na entrada.
A Ermida da Memória está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1993.
A Igreja de Nossa Senhora da Nazaré
A construção do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré remonta ao século XIV, mais precisamente a 1377, quando o rei D. Fernando (r. 1367–1383), em peregrinação ao Sítio, decidiu mandar construir um novo templo. A Ermida da Memória, pelo seu reduzido tamanho, já não tinha capacidade para acolher o elevado número de peregrinos que afluía ao local.
O novo templo foi sendo sucessivamente alterado e ampliado ao longo dos séculos, resultado de múltiplas intervenções régias:
- D. João I mandou fazer alpendres em madeira;
- D. João II remodelou a planta do templo, ampliando-a e construindo uma nova capela-mor;
- D. Manuel I substituiu os alpendres de madeira por outros em lioz, que resistem até aos dias de hoje;
- No reinado de Filipe II (Filipe I de Portugal), os muros estavam fendidos, o teto escorado e a igreja ameaçava ruína. Os trabalhos, concluídos apenas em 1635, incidiram na capela-mor e no altar de Nossa Senhora. Foi renovado o pórtico e construída uma nova escadaria;
- D. Afonso VI, a pedido da Mesa Administrativa, ordenou obras que incluíram a ampliação do arco da capela-mor e um novo transepto. Em 1691, o Santuário ficou com uma configuração em cruz latina, muito semelhante à atual;
- Em 1717, foram feitas obras na frontaria, construindo-se também um novo acesso ao campanário, que passou a ter duas torres.
O resultado destas sucessivas empreitadas — que se prolongaram por várias décadas sem um plano único e sistemático — conferiu ao edifício um caráter peculiar, com algumas incoerências arquitetónicas, mas também com uma grande qualidade artística.
No século XVIII, o Santuário foi enriquecido com obras de excecional valor. Em finais do século XVII, o reitor Padre António Caria encomendou a uma firma holandesa (Pedro Brukhuis & Cie) painéis de azulejos para o novo transepto. Em outubro de 1709, chegaram 6.568 azulejos da autoria do ceramista holandês Williem Van der Klöet, com episódios bíblicos de José e de David e cenas da história de Jonas. Este conjunto é considerado pelo historiador de arte Santos Simões como o mais importante exemplo da decoração cerâmica holandesa conhecida até ao presente.
A capela-mor foi sucessivamente remodelada: em 1635, substituiu-se o velho retábulo; entre 1683 e 1691, novo entalhamento do altar-mor pelo mestre Manuel Garcia e douramento da tribuna da Senhora; em 1758, novo douramento pelo mestre José Carlos, de Coimbra.
4. O Milagre de D. Fuas Roupinho (1182)
O episódio que transformou a Nazaré num centro de peregrinação de dimensão nacional e, posteriormente, mundial, ocorreu na madrugada de 14 de setembro de 1182.
D. Fuas Roupinho era um nobre cavaleiro, Alcaide de Porto de Mós, próximo de D. Afonso Henriques, e Primeiro Almirante da Esquadra do Tejo. Naquela manhã de nevoeiro denso, saíra para caçar no seu domínio, perto da costa. Avistou uma veada e iniciou a perseguição. O animal correu em direção ao topo da falésia, e D. Fuas, separado dos seus companheiros, galopou apressadamente em seu encalço.
De repente, o cavaleiro encontrou-se no limite de um precipício de cerca de 100 metros de altura, sobre o mar revolto. O nevoeiro impedia qualquer visibilidade. O cavalo, por instinto ou por intervenção divina, parou a escassos centímetros do abismo. D. Fuas reconheceu o lugar: era o Bico do Milagre, junto à pequena gruta onde se venerava uma imagem da Virgem. Em desespero, gritou: “Senhora, valei-me!” (ou, segundo outras versões, “Nossa Senhora da Nazaré, valei-me!”).
O cavalo parou. O cavaleiro e a montada foram salvos.
D. Fuas desmontou e desceu à gruta para agradecer e orar. Ordenou então aos seus companheiros que trouxessem pedreiros para construir uma pequena capela sobre a gruta, de modo que a imagem milagrosa pudesse ser venerada por todos como memorial do acontecimento. Antes de tapar a gruta, os pedreiros destruíram o altar primitivo e, entre as pedras, encontraram um arca de marfim contendo algumas relíquias e um pergaminho antigo que descrevia a história da pequena estátua de madeira — uma palma de altura (cerca de 25 cm) — representando Nossa Senhora sentada a amamentar o Menino Jesus.
A partir desse momento, a devoção à Nossa Senhora da Nazaré espalhou-se por todo o reino e, com os Descobrimentos, por todo o mundo.
5. A Viagem de Vasco da Gama e a Ida a Nossa Senhora da Nazaré
A devoção à Nossa Senhora da Nazaré atingiu o seu apogeu durante a Era dos Descobrimentos. A Virgem de Nazaré tornou-se a padroeira dos marinheiros portugueses, invocada nas tempestades e nos perigos do mar desconhecido.
Vasco da Gama não foi exceção. Segundo a tradição, antes de embarcar para a Índia em 1497, o navegador veio como peregrino ao Sítio da Nazaré. Ali, invocou a proteção da Senhora e, em sinal de devoção, trocou a grossa corrente de ouro que trazia ao pescoço pelo colar de contas da imagem da Virgem.
Conta-se que, durante a viagem, ao passar pelo Cabo das Tormentas (que D. João II renomeou Cabo da Boa Esperança, precisamente por ter sido ultrapassado sem perda de vidas), se levantou um temporal terrível que pôs em perigo navios e homens. Vasco da Gama atirou então o colar da Senhora às águas, que imediatamente se acalmaram.
Após o regresso triunfal em 1499, Vasco da Gama voltou ao Sítio da Nazaré como romeiro, agradecendo à Virgem as graças recebidas e oferecendo-lhe um precioso manto. Este episódio está assinalado no Sítio por um Padrão comemorativo, colocado em 1939 perto do Bico da Memória e da Ermida.
Não foi apenas Vasco da Gama a peregrinar à Nazaré. Também Pedro Álvares Cabral, antes da sua viagem ao Brasil, e São Francisco Xavier, o Apóstolo do Oriente, vieram ao Sítio invocar a proteção da Senhora antes de partirem para os seus destinos missionários. A rainha D. Leonor de Áustria, terceira mulher de D. Manuel I e irmã do imperador Carlos V, permaneceu no Sítio alguns dias em 1519, num alojamento de madeira construído especialmente para a ocasião.
Os jesuítas portugueses foram os grandes propagadores do culto de Nossa Senhora da Nazaré em todos os continentes, consagrando-a na sua principal casa de noviciado em Lisboa. Foi graças à sua ação que a devoção se espalhou pelo Brasil, onde deu origem ao Círio de Nazaré de Belém do Pará — uma das maiores romarias do mundo, com cerca de dois milhões de peregrinos num só dia.
6. Nazaré: Um Espaço Magnífico, a Finisterra Sagrada e a Fundação da Nacionalidade
O Sítio da Nazaré é, hoje como ontem, um espaço magnífico que atrai a humanidade pela conjugação única de elementos naturais e espirituais. A imponência da falésia, o rumor do oceano, o nevoeiro que envolve o promontório e a luz dourada do pôr-do-sol criam uma atmosfera de mistério e transcendência que poucos lugares no mundo conseguem igualar.
A Nazaré é, no fundo, uma Finisterra sagrada — o fim da terra conhecida para os povos antigos, o último promontório antes do mar infinito. Como outras Finiterras atlânticas (Fisterra na Galiza, Cabo de São Vicente no Algarve, Cabo da Roca), o Sítio da Nazaré funcionou como um limiar simbólico entre o mundo habitado e o desconhecido, entre a segurança da terra e o perigo do oceano. Os peregrinos que ali chegavam não vinham apenas para venerar a Virgem: vinham para confrontar-se com o mistério do mar, com a finitude da existência, com a esperança de uma outra vida.
Mas a Nazaré é também um lugar onde se funda a nossa nacionalidade portuguesa. A ligação entre o milagre de D. Fuas Roupinho e a figura de D. Afonso Henriques — o cavaleiro era próximo do rei fundador — insere o santuário no imaginário da Reconquista e da formação do reino. A devoção mariana, propagada pelos jesuítas durante os Descobrimentos, transformou Nossa Senhora da Nazaré numa espécie de patrona espiritual de Portugal, presente nos mares e nas terras do Império. A imagem da Virgem amamentando o Menino, escura e pequena, tornou-se um ícone de identidade nacional, uma metáfora da própria Portugal: pequeno, mas escolhido, resistente, capaz de gerar um império mundial.
7. O que é Hoje a Ermida da Memória
Hoje, a Ermida da Memória continua a ser um dos lugares mais visitados e venerados do Sítio da Nazaré. Embora a imagem original da Virgem Negra tenha sido transferida para o Santuário em 1377 (e posteriormente para a tribuna do altar-mor), a ermida mantém o seu caráter de lugar primordial, o ponto zero da devoção.
Os visitantes podem descer à cripta e contemplar a entrada da gruta onde a imagem permaneceu escondida por quase cinco séculos. A atmosfera é de recolhimento profundo: os azulejos azuis e brancos do século XVIII cobrem todas as superfícies, a luz entra timidamente pela pequena janela sobre o abismo, e o som do mar, lá em baixo, é uma presença constante. A Fénix no teto, com a sua mensagem de esperança, e as plantas simbólicas nas paredes transformam o espaço numa câmara de meditação sobre a vida, a morte e a ressurreição.
A ermida é também um miradouro excecional sobre o oceano Atlântico, a Praia da Nazaré e a vila no sopé da falésia. A vista do pôr-do-sol, com o mar dourado e o nevoeiro a subir do abismo, é uma das mais emblemáticas de Portugal.
8. A História dos Círios
O termo “Círio” deriva do latim cereum, que significa “grande vela”. Designa, em português, uma procissão religiosa noturna em que os fiéis carregam velas acesas, simbolizando a luz da fé que ilumina a escuridão.
O Círio de Nazaré em Portugal
Em Portugal, o principal círio dedicado a Nossa Senhora da Nazaré realiza-se no Sítio da Nazaré, no dia 8 de setembro — Natividade de Nossa Senhora. Trata-se de uma romaria secular que congrega peregrinos de toda a região e do país. A procissão, conhecida como Círio da Prata Grande, parte de Mafra e transporta uma imagem da Virgem em pé (diferente da imagem original sentada), numa berlinda, percorrendo os caminhos tradicionais até ao Sítio.
O Círio de Nazaré no Brasil
A devoção à Nossa Senhora da Nazaré foi levada ao Brasil pelos jesuítas portugueses e pelos colonizadores. A mais famosa manifestação é o Círio de Nazaré de Belém do Pará, que se realiza desde 1793 no segundo domingo de outubro.
A história do Círio brasileiro remonta a 1700, quando um caboclo chamado Plácido encontrou uma imagem deteriorada da Virgem de Nazaré perto de um igarapé. Ao levá-la para casa, a imagem desapareceu e reapareceu no mesmo local durante vários dias. Plácido construiu então uma pequena capela no local, que atraiu devotos em crescente número. Em 1773, o bispo de Belém colocou a cidade sob a proteção de Nossa Senhora de Nazaré. Em 1774, a imagem foi enviada a Portugal para restauro e regressou em procissão, dando origem ao primeiro Círio.
O Círio de Belém é hoje a maior celebração religiosa do Brasil e uma das maiores do mundo, com cerca de dois milhões de participantes. Foi classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2013. A procissão principal transporta a imagem da Virgem numa berlinda puxada por cordas, com milhares de fiéis a formar um cordão humano ao longo do percurso.
O termo “Círio” estendeu-se a outras procissões portuguesas e brasileiras, designando genericamente as romarias de grande envergadura em honra da Virgem Maria. Em Portugal, além do de Nazaré, destacam-se os Círios de Fátima, de Santarém e de outras localidades. No Brasil, existem círios em vários estados, todos eles herdeiros da devoção portuguesa à Senhora da Nazaré.

