Capela da Nossa Senhora da Seiça e do Mosteiro de Seiça (*)

Capela de Nossa Senhora de Seiça e Mosteiro

História e Cronologia da Capela

A Capela de Nossa Senhora de Seiça, também designada Capela de Nossa Senhora da Ceiça, localiza-se no lugar de Seiça, freguesia de Paião, concelho da Figueira da Foz. Classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1970, encontra-se situada num vale encaixado, em frente ao Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Seiça, com o qual partilha uma ligação histórica e devocional profunda.

A tradição atribui a fundação de uma ermida no local ao ano de 850, ligando-a à lenda do abade João, do Mosteiro do Lorvão. Contudo, do ponto de vista historiográfico, nada resta da primitiva ermida, que ruiu em 1590. No seu lugar foi erguida, em 1602, por iniciativa de Frei Manuel das Chagas, a capela que hoje conhecemos, cuja memória subsiste no lintel da porta. A cronologia de 850 deve ser entendida como uma datação tradicional e não como um dado arqueológico ou documental comprovado. A referência à reconstrução nos reinados de D. Afonso Henriques ou D. Sancho I carece de confirmação documental direta, embora seja plausível dada a importância do local como eixo de peregrinação.

Arquitetura da Capela

De planta centralizada, a capela exibe um traçado octogonal, repetido no alpendre, mais baixo, que percorre todo o perímetro da ermida. Este alpendre, sustentado por colunas dóricas apoiadas no muro, divide o alçado em dois registos — no primeiro, rasga-se a porta de entrada e janelas de secção retangular; no segundo, abrem-se janelas em cada um dos lados do polígono.

As portas e janelas térreas foram desenhadas de modo a tornar visível o altar, funcionando como uma espécie de prolongamento do espaço interno — característica típica das capelas de peregrinação, permitindo a assistência litúrgica a fiéis no exterior.

Interior e Património Artístico da Capela

No interior, encontra-se uma lápide comemorativa da história do Abade João, bem como uma série de pinturas do século XVIII, com legendas, ilustrativas dos episódios lendários:

-Montemor cercada pelos mouros;

-Degolação de mulheres e crianças pelo abade João e companheiros;

-Combate com os mouros;

-Notícia da ressurreição dos degolados;

-Criado de D. Afonso Henriques caindo do cavalo;

-Cura miraculosa do mesmo criado;

-Eremita e o rei que lhe promete fundar o mosteiro.

No retábulo, destaca-se a imagem de Nossa Senhora com o Menino, escultura do século XIV em calcário, de grande valor artístico e devocional do mestre pero, trata-se de uma representação gótica que testemunha a antiguidade do culto mariano no local, anterior à reconstrução barroca de 1602. As paredes estão revestidas a azulejos barrocos, que prolongam a iconografia mariana ao representar emblemas da Virgem, executados em Coimbra.

Ainda hoje se verifica uma intensa devoção popular à Virgem e ao Menino, manifesta através de ex-votos diversos (braços, pernas, corpos de cera, retábulos de madeira, fotografias, dedicatórias, placas), entretanto retirados.

A Lenda do Abade João: Análise Historiográfica

A lenda do abade João remonta ao século IX e encontra-se ligada ao castelo de Montemor-o-Velho. Segundo a tradição, a defesa da fortaleza foi entregue a um monge guerreiro, João de Lorvão, abade do Mosteiro do Lorvão. Cercado por um exército muçulmano, com a situação a tornar-se desesperada (esgotamento de água e alimentos), os cristãos decidiram realizar um último ataque. Para evitar que as mulheres, crianças e velhos fossem feitos escravos, foi decidido degolá-los. Após a tarefa, os cavaleiros saíram para o combate e, surpreendentemente, venceram os muçulmanos, destruindo-os no local onde hoje se ergue a capela de Seiça. Em desespero por terem morto os seus familiares, chegou-lhes a notícia de que os degolados tinham ressuscitado — milagre em honra do qual foi construída a capela.

Significado da Lenda

Do ponto de vista historiográfico, a lenda do abade João deve ser interpretada como um mito fundador com múltiplas camadas de significado:

1-Justificação do sacrifício e redenção: A degolação dos inocentes, seguida da ressurreição, funciona como uma narrativa teológica que transforma um ato de desespero num milagre de misericórdia divina. A Virgem Maria, a quem a capela é dedicada, aparece como mediadora desse milagre.

2-Afirmação identitária cristã: A lenda reforça a ideia de que a fé cristã prevalece sobre a adversidade, mesmo quando as circunstâncias parecem desesperadas. A vitória sobre os mouros é apresentada como fruto da fé e não da força militar.

3-Ligação entre Montemor-o-Velho e Seiça: A lenda estabelece uma geografia sagrada que liga o castelo de Montemor-o-Velho (cenário do cerco) à capela de Seiça (local da vitória e do milagre), criando um eixo devocional e territorial.

4-Memória coletiva e fundação do Mosteiro: A lenda justifica não apenas a capela, mas também a fundação do Mosteiro de Santa Maria de Seiça, atribuída a D. Afonso Henriques como cumprimento de uma promessa.

A realidade histórica

Em 878, Hermenegildo Guterres, um dos homens mais poderosos da corte de Afonso III das Astúrias, foi salvar a cidade do Porto que estava cercada pelos homens do Emir de Córdova, Maomé I. Com a vitória de Hermenegildo, este veio a conquistar território até à região de Coimbra e Montemor-o-Velho, consolidando a fronteira cristã na linha do Mondego. O célebre Almançor, O Vitorioso, de seu nome Abu Amir Muhammad, atacou Montemor-o-Velho em 990 e 1001, tendo ficado na posse do califado de Córdova e da taifa de Badajoz até 1065, quando Fernando Magno (Fernando I de Leão) conquistou definitivamente Coimbra e a linha do Mondego.

A lenda do abade João amalgama, portanto, memórias de múltiplos cercos e reconquistas ao longo dos séculos IX-XI, projetando-as numa narrativa única e miraculosa que serve os propósitos devocionais e identitários do local. A figura de Hermenegildo Guterres, magnate asturiano de grande poder, representa a realidade político-militar da Reconquista, enquanto a lenda do abade João encarna a memória devocional e fundacional do espaço sacro de Seiça.

Os Azulejos Marianos

Ao longo dos azulejos da Virgem Maria podem ver-se episódios da vida da Virgem e os seus símbolos, que representam os atributos espirituais, virtudes e a pureza de Maria:

Rosa Mística: Simboliza a rainha das flores e a forma mais bela e perfeita da virtude espiritual.

Torre de Davi e Torre de Marfim: A primeira representa a Virgem como fortaleza de proteção para os fiéis; a segunda simboliza a sua nobreza, equilíbrio, força e pureza imaculada.

Vaso Espiritual, Vaso Honorífico e Vaso Insigne de Devoção: Representam a sua consagração total a Deus, a manutenção da fé e a pureza de coração.

Arca da Aliança: Assim como a arca guardava a antiga lei, Maria guardou e ofereceu à humanidade Jesus, a Nova Aliança.

Espelho de Justiça: Simboliza Maria como reflexo perfeito da santidade, virtude e justiça divina.

-Sede da Sabedoria: Representa-a como o sacrário que acolheu no seu ventre o próprio Jesus, a Sabedoria Encarnada.

Causa de Nossa Alegria: Celebra Maria como aquela que trouxe ao mundo Jesus, a verdadeira fonte de alegria e salvação.

Porta do Céu: Simboliza que, através de Maria, Deus veio ao mundo e os homens alcançam a salvação.

Estrela da Manhã: Maria é vista como a estrela que anuncia o nascimento de Jesus, o “Sol da Justiça”.

A Virgem do Ó e o Anjo da Anunciação em Santa Maria da Alcáçova (Montemor-o-Velho)

Na Igreja de Santa Maria da Alcáçova, situada no interior do Castelo de Montemor-o-Velho, destaca-se o conjunto escultórico da Virgem do Ó e do Anjo da Anunciação, ambos do século XIV, atribuídos a Mestre Pero (c. 1330–1340). A Virgem do Ó é uma imagem da Virgem grávida, representada na expectação do nascimento de Jesus — tema iconográfico que gozou de grande devoção em Portugal e Espanha durante o gótico, originado no século VII durante o X Concílio de Toledo, quando foi decretada a celebração da “expectação da Virgem”.

De particular interesse, e ligado à lenda local dos degolados, a imagem da Virgem do Ó em Santa Maria da Alcáçova tem um corte no pescoço — uma invocação extraordinária que associa a escultura gótica às vicissitudes históricas do local. Esta marca pode ser interpretada como uma referência simbólica ao martírio e à redenção que a lenda dos degolados encarna, transformando a imagem mariana numa testemunha permanente do sacrifício e da ressurreição.

A Imagem de Nossa Senhora com o Menino na Capela de Seiça

Na Capela de Nossa Senhora de Seiça, o retábulo acolhe uma imagem de Nossa Senhora com o Menino em calcário, do século XIV — contemporânea da oficina de Mestre Pero

Não existe, até à data, qualquer documentação que identifique o modelo real (uma mulher concreta) que serviu de inspiração para as Vírgenes do Ó e com o Menino de Mestre Pero.

Contudo, a proximidade de Mestre Pero à corte de D. Isabel de Aragão — a Rainha Santa — e o facto de a sua primeira obra atribuída em Portugal ser o túmulo da própria rainha (c. 1326–1330).

A hipótese mais prudente, do ponto de vista historiográfico, é que as Vírgenes de Mestre Pero resultam da síntese de modelos formais importados (tipologia de rosto oval, nariz fino, olhos amendoados, gestos delicados, vestes pregueadas em S) com a devoção mariana específica do contexto português, eventualmente influenciada pela figura da Rainha Santa como paradigma de virtude feminina.

A Capela de Nossa Senhora de Seiça está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1970, reconhecendo o seu valor histórico, arquitetónico e devocional como um dos mais singulares santuários marianos do centro de Portugal.

A Grande Festa de 15 de agosto

Anteriormente existia a tradição de contornar com animais recuperados de doenças, graças a promessas feitas a Santa Maria de Seiça. A 15 de Agosto era habitual ver proprietários de gado a darem várias voltas à capela, conforme a promessa feita.

 Festa de Agosto

A festa de agosto na Capela de Seiça é uma das mais antigas e significativas romarias marianas da região do Baixo Mondego e da Figueira da Foz. Integra-se numa longa tradição de peregrinação que remonta, pelo menos, à Idade Média, quando o local já era venerado como santuário mariano ligado à lenda do abade João e ao milagre dos degolados ressuscitados.

Características da Romaria

A festa congrega fiéis de toda a região — da Figueira da Foz, de Montemor-o-Velho, de Coimbra e de localidades mais distantes — que se deslocam à capela para:

Assistir às celebrações litúrgicas em honra de Nossa Senhora de Seiça;

Participar na procissão com a imagem da Virgem pelos arredores da capela;

Cumprir promessas e deixar ex-votos (tradição que, como referido, era muito intensa até meados dos anos 80 do século XX);

Partilhar convívio social num ambiente de arraial, com música, gastronomia local e vendas de artesanato.

O caráter de capela de peregrinação — com as portas e janelas térreas desenhadas para tornar visível o altar mesmo do exterior — torna-se particularmente evidente durante a festa, quando a assistência ultrapassa a capacidade do pequeno espaço interior, e os fiéis participam nos ofícios litúrgicos desde o alpendre octogonal e do adro circundante.

Significado e Continuidade

A festa de agosto em Seiça mantém viva uma memória devocional secular. A ligação entre a capela e o Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Seiça, situado em frente, reforça o caráter de eixo sacro do vale: de um lado, a austeridade monástica cisterciense; do outro, a efusão popular da romaria mariana. Esta dualidade — monástica e popular, eremítica e festiva — é constitutiva do lugar.

A romaria de agosto é, assim, tanto uma celebração religiosa como um ato de afirmação identitária local. Os peregrinos renovam anualmente o vínculo com o santuário, com a lenda do abade João e com a Virgem de Seiça, perpetuando uma tradição que sobreviveu à ruína da ermida original (1590), à reconstrução barroca (1602), à supressão do mosteiro (1555), à extinção das ordens religiosas (1834) e à transformação industrial do mosteiro em fábrica de arroz (século XX).

O Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Seiça

Localização e o Papel da Água

O Mosteiro de Santa Maria de Seiça, muito próximo da capela, localiza-se perto de um curso de água perene de pequena dimensão, afluente do estuário do Mondego. Esta localização não é casual: obedece a um dos princípios fundadores da Ordem de Cister, que impunha a fixação dos mosteiros junto a cursos de água perenes, mas afastados de rios caudalosos e grandes.

A água era, para os cistercienses, um elemento de tripla dimensão: ritual, simbólica e funcional. Ritualmente, servia para as abluções litúrgicas e para o banho semanal prescrito pela Regra de São Bento. Simbolicamente, a água purificadora evocava a regeneração espiritual e o batismo. Funcionalmente, era indispensável para a irrigação dos hortos, para a piscicultura (os cistercienses eram pioneiros na criação de peixes em tanques), para a movimentação de moinhos e para as canalizações internas do mosteiro. A escolha de ribeiras e pequenos rios perenes, em vez de grandes rios caudalosos, respondia a uma lógica de autossuficiência e controlo: um curso de água moderado podia ser canalizado, represado e aproveitado sem os riscos de cheias devastadoras que um rio grande impunha. Além disso, a proximidade da água funcionava como marca de fronteira e como elemento de isolamento, consonante com o ideal cisterciense de recolhimento e austeridade.

A ribeira de Seiça, com as suas águas calmas e perenes, oferecia condições ideais para este modelo. O mosteiro beneficiava ainda da proximidade do estuário do Mondego, o que lhe permitia aceder a vias fluviais de comunicação e ao comércio.

Fundação e Cronologia Documental do Mosteiro

A origem do cenóbio de Seiça é envolta na lenda do abade João de Lorvão. Contudo, do ponto de vista documental, a mais antiga referência escrita ao mosteiro data de 1162, quando o abade Martinho comparece na outorga de uma carta de isenção dos direitos episcopais dada aos Crúzios pelo Bispo D. Miguel Salomão. Em 1175, D. Afonso Henriques emite carta de doação do couto de Barra a D. Pelágio Egas (ou Paio Egas), abade de Santa Maria de Seiça. Nesta fase, o mosteiro parece ter estado ligado a uma comunidade de Crúzios — monges que seguiam a Regra de Santo Agostinho e que eram comuns na região de Coimbra durante o período da Reconquista.

A doação régia de 1175 revela a estratégia de D. Afonso Henriques: o mosteiro situava-se numa posição estratégica na “fronteira mourama”, com a costa marítima às costas, e funcionava como ponto de fixação de povoadores e de organização territorial numa região recém-conquistada e ainda pouco povoada. A junção de um mosteiro à Ordem de Cister visou impulsionar o povoamento, aproveitar o solo e consolidar a presença cristã no território.

Em março de 1195, D. Sancho I emitiu carta em Leiria que colocou o Mosteiro de Seiça sob a proteção e alçada do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, a maior abadia cisterciense do reino. Esta carta contou com a presença e aprovação do Arcebispo de Braga e dos bispos de Lisboa, Évora, Lamego, Coimbra e Viseu. A partir desta data, Seiça passou a albergar uma comunidade de monges brancos cistercienses, filiados à poderosa abadia de Alcobaça.

A Ordem de Cister e a sua Relação com a Água

A Ordem de Cister, fundada em 1098 em Cîteaux, na Borgonha, por São Roberto de Molesme, estabeleceu desde o início uma relação privilegiada com a água. A existência de um curso de água era condição essencial para a fixação de qualquer mosteiro da Ordem. Por isso, muitos mosteiros cistercienses têm nomes associados à água: Fontaine-Guérard, Fontenay, Fontenelle (França), Fountain (Inglaterra), ou, em Portugal, Alcobaça (do árabe al-Qubba, mas com conotações hidricas locais).

A água simbolizava a pureza, a sobriedade e a regeneração — valores centrais da espiritualidade cisterciense. O hábito branco-cru dos monges, em lã grosseira, era em si mesmo uma metáfora de claridade e de renúncia, e a água que o lavava reforçava essa simbologia. Além disso, os cistercienses eram pioneiros em técnicas hidráulicas: construíam aquedutos, canalizações, tanques de piscicultura, moinhos e sistemas de drenagem, competências que transmitiam aos colonos das terras circundantes, tornando as regiões onde se instalavam entre as mais produtivas do reino.

A Ordem de Cister Substituí a Ordem de Cluny em Portugal

A Ordem de Cluny, fundada em 910 na Borgonha, tinha sido, durante o século XI, a mais poderosa e influente ordem monástica da cristandade ocidental. Os monges de Cluny, conhecidos como monges negros pelo hábito escuro, promoviam uma liturgia sumptuosa, com longos ofícios, música polifónica e grande ostentação decorativa. Os mosteiros cluniacenses acumulavam riquezas, terras e privilégios, tornando-se centros de poder económico e político.

No entanto, a partir do final do século XI, a Ordem de Cluny entrou em declínio espiritual e institucional. O seu relaxamento nos costumes, a acumulação de bens materiais, a dependência de rendas e dízimos (em vez do trabalho manual), e a distância crescente do ideal eremítico de São Bento levaram a uma crise de credibilidade. Foi neste contexto que, em 1098, um grupo de monges liderados por Roberto de Molesme deixou a congregação de Cluny para fundar, em Cîteaux, uma nova experiência monástica baseada no retorno rigoroso à Regra de São Bento, na pobreza, na solidão e no trabalho manual.

A Ordem de Cister propunha-se como uma reforma radical de Cluny. Os seus princípios fundamentais eram três:

-Solidão: os mosteiros deviam ser construídos em locais afastados, “no deserto”, longe das cidades e do mundo;

-Pobreza: renúncia a bens materiais, às rendas, aos dízimos e às doações ostentosas;

-Trabalho manual: os monges deviam trabalhar com as próprias mãos, cultivando a terra e produzindo o necessário para a subsistência.

Estes princípios, combinados com uma organização centralizada (o Capítulo Geral anual, a Carta da Caridade de 1119, o sistema de filiação abacial), tornaram Cister numa máquina de eficiência espiritual, económica e política.

A Expansão em Portugal

Em Portugal, a Ordem de Cister encontrou terreno fértil. D. Afonso Henriques, o primeiro rei, precisava de instrumentos para povoar e organizar territorialmente as regiões recém-conquistadas ao sul do rio Douro e, sobretudo, na linha do Mondego. Os monges brancos ofereciam exatamente isso: eram pioneiros de povoamento, traziam conhecimentos agrícolas avançados (arroteamento, drenagem de solos, hidráulica, piscicultura), e a sua presença legitimava politicamente a posse cristã do território.

A primeira fixação cisterciense em Portugal deu-se em São Cristóvão de Lafões (c. 1138) ou em São João de Tarouca (1144). D. Afonso Henriques concedeu carta de couto a Tarouca em 1144, recompensando o apoio dos monges junto do Papa Eugénio III (antigo monge cisterciense) para o reconhecimento da independência do Condado Portucalense. Em 1153, o rei doou diretamente a Bernardo de Claraval a carta de couto de Alcobaça, e a construção daquela que viria a ser a maior abadia cisterciense do reino iniciou-se em 1178.

Durante o reinado de D. Afonso Henriques, a fundação de mosteiros cistercienses foi intensa: Tarouca (1144), Alcobaça (1153/1178), Lorvão (reformado para Cister), Celas, Arouca, São Bento de Cástris (Évora), entre outros. A Ordem de Cister tornou-se, durante o século XII, uma ordem muito poderosa, devido sobretudo à riqueza e ao prestígio de Alcobaça, que foi também o centro artístico e intelectual da Ordem.

Já no reinado de D. Sancho I, o estabelecimento de comunidades cistercienses diminuiu significativamente. Registam-se apenas duas novas filiações de mosteiros em Alcobaça: Santa Maria de Maceira Dão (1188) e Santa Maria de Seiça (1195). Este abrandamento não significou um declínio da Ordem, mas sim uma saturação do espaço — as principais regiões a povoar já estavam cobertas, e a atenção régia deslocou-se para outras ordens (Templários, Hospitalários) e para a consolidação institucional das fundações existentes.

O que Aconteceu a Cluny em Portugal

A Ordem de Cluny não desapareceu abruptamente de Portugal. Contudo, a sua influência foi gradualmente eclipsada pela de Cister, por várias razões:

A aliança política: D. Afonso Henriques e a sua corte apostaram decididamente nos cistercienses como parceiros na Reconquista e no povoamento. Os monges brancos eram vistos como mais eficientes e mais alinhados com os objetivos do novo reino.

O modelo económico: enquanto Cluny dependia de rendas, dízimos e doações, Cister produzia riqueza através do trabalho manual e da exploração agrícola, gerando desenvolvimento local e fixação de populações — exatamente o que o reino precisava.

O prestígio de Bernardo de Claraval: a figura de São Bernardo, o maior propagandista de Cister, exercia uma influência imensa em toda a cristandade. O facto de o Papa Eugénio III ser cisterciense reforçou ainda mais a posição da Ordem.

Assim, Cister substituiu Cluny como a ordem hegemónica em Portugal durante o século XII, não por extinção desta última, mas por suplantação funcional e política. Cluny manteve as suas casas, mas perdeu a capacidade de expansão e de influência que outrora detivera. O século XII foi, de facto, o século dos monges brancos em Portugal, como o século XI tinha sido o dos monges negros.

O Papel de Seiça na Reorganização Territorial

O Mosteiro de Santa Maria de Seiça foi fundamental na reorganização territorial e social das povoações do estuário do Mondego. Os monges cistercienses introduziram técnicas agrícolas avançadas: desbravamento de terras, drenagem de solos húmidos, arroteamento, cultivo sistematizado e exploração dos recursos hídricos da ribeira. Estes conhecimentos, transmitidos aos colonos da região, transformaram o vale de Seiça numa das áreas mais produtivas do reino, com especial destaque para a agricultura, a piscicultura e, mais tarde, o arrozal.

A proximidade do mosteiro com a Capela de Nossa Senhora de Seiça (fundada segundo a lenda em 850, reconstruída em 1602) criou um eixo devocional e económico que articulava a vida monástica com a piedade popular. Os monges administravam as terras, os conversos trabalhavam nos campos, e a capela funcionava como centro de peregrinação, atraindo fiéis e gerando movimento económico.

Declínio, Extinção e Reabilitação do Mosteiro

Protegido pela Coroa ao longo da Idade Média, o Mosteiro de Seiça foi suprimido por D. João III em 1555, devido a desentendimentos constantes com a casa-mãe de Alcobaça. Os seus bens foram destinados à Ordem de Cristo, para a edificação de um novo mosteiro em Carnide (Lisboa). Em 1560, D. Sebastião restituiu o mosteiro à alçada de Alcobaça, através da Bula de Pio IV “Hodie a nobis emanarunt littere”. Em 1567 foi criada a Congregação de Santa Maria de Alcobaça, que procedeu à reconstrução do mosteiro segundo projeto de Mateus Rodrigues, com início em 1572. A igreja medieval foi derrubada em 1672 para dar lugar ao templo maneirista que hoje conhecemos.

Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834, o conjunto arquitetónico foi apropriado pelo Estado e posteriormente vendido a particulares. Em 1895 foi vendido novamente, e no início do século XX até 1976 funcionou ali uma fábrica de descasque de arroz, cujos vestígios ainda são visíveis. A grande chaminé industrial que ladeia o mosteiro testemunha essa fase de reaproveitamento profano.

O Capela de Nossa Senhora de Seiça e Mosteiro de Ceiça

História e Cronologia da Capela

A Capela de Nossa Senhora de Seiça, também designada Capela de Nossa Senhora da Ceiça, localiza-se no lugar de Seiça, freguesia de Paião, concelho da Figueira da Foz. Classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1970, encontra-se situada num vale encaixado, em frente ao Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Seiça, com o qual partilha uma ligação histórica e devocional profunda.

A tradição atribui a fundação de uma ermida no local ao ano de 850, ligando-a à lenda do abade João, do Mosteiro do Lorvão. Contudo, do ponto de vista historiográfico, nada resta da primitiva ermida, que ruiu em 1590. No seu lugar foi erguida, em 1602, por iniciativa de Frei Manuel das Chagas, a capela que hoje conhecemos, cuja memória subsiste no lintel da porta. A cronologia de 850 deve ser entendida como uma datação tradicional e não como um dado arqueológico ou documental comprovado. A referência à reconstrução nos reinados de D. Afonso Henriques ou D. Sancho I carece de confirmação documental direta, embora seja plausível dada a importância do local como eixo de peregrinação.

Arquitetura da Capela

De planta centralizada, a capela exibe um traçado octogonal, repetido no alpendre, mais baixo, que percorre todo o perímetro da ermida. Este alpendre, sustentado por colunas dóricas apoiadas no muro, divide o alçado em dois registos — no primeiro, rasga-se a porta de entrada e janelas de secção retangular; no segundo, abrem-se janelas em cada um dos lados do polígono.

As portas e janelas térreas foram desenhadas de modo a tornar visível o altar, funcionando como uma espécie de prolongamento do espaço interno — característica típica das capelas de peregrinação, permitindo a assistência litúrgica a fiéis no exterior.

Interior e Património Artístico da Capela

No interior, encontra-se uma lápide comemorativa da história do Abade João, bem como uma série de pinturas do século XVIII, com legendas, ilustrativas dos episódios lendários:

-Montemor cercada pelos mouros;

-Degolação de mulheres e crianças pelo abade João e companheiros;

-Combate com os mouros;

-Notícia da ressurreição dos degolados;

-Criado de D. Afonso Henriques caindo do cavalo;

-Cura miraculosa do mesmo criado;

-Eremita e o rei que lhe promete fundar o mosteiro.

No retábulo, destaca-se a imagem de Nossa Senhora com o Menino, escultura do século XIV em calcário, de grande valor artístico e devocional do mestre pero, trata-se de uma representação gótica que testemunha a antiguidade do culto mariano no local, anterior à reconstrução barroca de 1602. As paredes estão revestidas a azulejos barrocos, que prolongam a iconografia mariana ao representar emblemas da Virgem, executados em Coimbra.

Ainda hoje se verifica uma intensa devoção popular à Virgem e ao Menino, manifesta através de ex-votos diversos (braços, pernas, corpos de cera, retábulos de madeira, fotografias, dedicatórias, placas), entretanto retirados.

A Lenda do Abade João: Análise Historiográfica

A lenda do abade João remonta ao século IX e encontra-se ligada ao castelo de Montemor-o-Velho. Segundo a tradição, a defesa da fortaleza foi entregue a um monge guerreiro, João de Lorvão, abade do Mosteiro do Lorvão. Cercado por um exército muçulmano, com a situação a tornar-se desesperada (esgotamento de água e alimentos), os cristãos decidiram realizar um último ataque. Para evitar que as mulheres, crianças e velhos fossem feitos escravos, foi decidido degolá-los. Após a tarefa, os cavaleiros saíram para o combate e, surpreendentemente, venceram os muçulmanos, destruindo-os no local onde hoje se ergue a capela de Seiça. Em desespero por terem morto os seus familiares, chegou-lhes a notícia de que os degolados tinham ressuscitado — milagre em honra do qual foi construída a capela.

Significado da Lenda

Do ponto de vista historiográfico, a lenda do abade João deve ser interpretada como um mito fundador com múltiplas camadas de significado:

1-Justificação do sacrifício e redenção: A degolação dos inocentes, seguida da ressurreição, funciona como uma narrativa teológica que transforma um ato de desespero num milagre de misericórdia divina. A Virgem Maria, a quem a capela é dedicada, aparece como mediadora desse milagre.

2-Afirmação identitária cristã: A lenda reforça a ideia de que a fé cristã prevalece sobre a adversidade, mesmo quando as circunstâncias parecem desesperadas. A vitória sobre os mouros é apresentada como fruto da fé e não da força militar.

3-Ligação entre Montemor-o-Velho e Seiça: A lenda estabelece uma geografia sagrada que liga o castelo de Montemor-o-Velho (cenário do cerco) à capela de Seiça (local da vitória e do milagre), criando um eixo devocional e territorial.

4-Memória coletiva e fundação do Mosteiro: A lenda justifica não apenas a capela, mas também a fundação do Mosteiro de Santa Maria de Seiça, atribuída a D. Afonso Henriques como cumprimento de uma promessa.

A realidade histórica

Em 878, Hermenegildo Guterres, um dos homens mais poderosos da corte de Afonso III das Astúrias, foi salvar a cidade do Porto que estava cercada pelos homens do Emir de Córdova, Maomé I. Com a vitória de Hermenegildo, este veio a conquistar território até à região de Coimbra e Montemor-o-Velho, consolidando a fronteira cristã na linha do Mondego. O célebre Almançor, O Vitorioso, de seu nome Abu Amir Muhammad, atacou Montemor-o-Velho em 990 e 1001, tendo ficado na posse do califado de Córdova e da taifa de Badajoz até 1065, quando Fernando Magno (Fernando I de Leão) conquistou definitivamente Coimbra e a linha do Mondego.

A lenda do abade João amalgama, portanto, memórias de múltiplos cercos e reconquistas ao longo dos séculos IX-XI, projetando-as numa narrativa única e miraculosa que serve os propósitos devocionais e identitários do local. A figura de Hermenegildo Guterres, magnate asturiano de grande poder, representa a realidade político-militar da Reconquista, enquanto a lenda do abade João encarna a memória devocional e fundacional do espaço sacro de Seiça.

Os Azulejos Marianos

Ao longo dos azulejos da Virgem Maria podem ver-se episódios da vida da Virgem e os seus símbolos, que representam os atributos espirituais, virtudes e a pureza de Maria:

Rosa Mística: Simboliza a rainha das flores e a forma mais bela e perfeita da virtude espiritual.

Torre de Davi e Torre de Marfim: A primeira representa a Virgem como fortaleza de proteção para os fiéis; a segunda simboliza a sua nobreza, equilíbrio, força e pureza imaculada.

Vaso Espiritual, Vaso Honorífico e Vaso Insigne de Devoção: Representam a sua consagração total a Deus, a manutenção da fé e a pureza de coração.

Arca da Aliança: Assim como a arca guardava a antiga lei, Maria guardou e ofereceu à humanidade Jesus, a Nova Aliança.

Espelho de Justiça: Simboliza Maria como reflexo perfeito da santidade, virtude e justiça divina.

-Sede da Sabedoria: Representa-a como o sacrário que acolheu no seu ventre o próprio Jesus, a Sabedoria Encarnada.

Causa de Nossa Alegria: Celebra Maria como aquela que trouxe ao mundo Jesus, a verdadeira fonte de alegria e salvação.

Porta do Céu: Simboliza que, através de Maria, Deus veio ao mundo e os homens alcançam a salvação.

Estrela da Manhã: Maria é vista como a estrela que anuncia o nascimento de Jesus, o “Sol da Justiça”.

A Virgem do Ó e o Anjo da Anunciação em Santa Maria da Alcáçova (Montemor-o-Velho)

Na Igreja de Santa Maria da Alcáçova, situada no interior do Castelo de Montemor-o-Velho, destaca-se o conjunto escultórico da Virgem do Ó e do Anjo da Anunciação, ambos do século XIV, atribuídos a Mestre Pero (c. 1330–1340). A Virgem do Ó é uma imagem da Virgem grávida, representada na expectação do nascimento de Jesus — tema iconográfico que gozou de grande devoção em Portugal e Espanha durante o gótico, originado no século VII durante o X Concílio de Toledo, quando foi decretada a celebração da “expectação da Virgem”.

De particular interesse, e ligado à lenda local dos degolados, a imagem da Virgem do Ó em Santa Maria da Alcáçova tem um corte no pescoço — uma invocação extraordinária que associa a escultura gótica às vicissitudes históricas do local. Esta marca pode ser interpretada como uma referência simbólica ao martírio e à redenção que a lenda dos degolados encarna, transformando a imagem mariana numa testemunha permanente do sacrifício e da ressurreição.

A Imagem de Nossa Senhora com o Menino na Capela de Seiça

Na Capela de Nossa Senhora de Seiça, o retábulo acolhe uma imagem de Nossa Senhora com o Menino em calcário, do século XIV — contemporânea da oficina de Mestre Pero

Não existe, até à data, qualquer documentação que identifique o modelo real (uma mulher concreta) que serviu de inspiração para as Vírgenes do Ó e com o Menino de Mestre Pero.

Contudo, a proximidade de Mestre Pero à corte de D. Isabel de Aragão — a Rainha Santa — e o facto de a sua primeira obra atribuída em Portugal ser o túmulo da própria rainha (c. 1326–1330).

A hipótese mais prudente, do ponto de vista historiográfico, é que as Vírgenes de Mestre Pero resultam da síntese de modelos formais importados (tipologia de rosto oval, nariz fino, olhos amendoados, gestos delicados, vestes pregueadas em S) com a devoção mariana específica do contexto português, eventualmente influenciada pela figura da Rainha Santa como paradigma de virtude feminina.

A Capela de Nossa Senhora de Seiça está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1970, reconhecendo o seu valor histórico, arquitetónico e devocional como um dos mais singulares santuários marianos do centro de Portugal.

A Grande Festa de 15 de agosto

Anteriormente existia a tradição de contornar com animais recuperados de doenças, graças a promessas feitas a Santa Maria de Seiça. A 15 de Agosto era habitual ver proprietários de gado a darem várias voltas à capela, conforme a promessa feita.

 Festa de Agosto

A festa de agosto na Capela de Seiça é uma das mais antigas e significativas romarias marianas da região do Baixo Mondego e da Figueira da Foz. Integra-se numa longa tradição de peregrinação que remonta, pelo menos, à Idade Média, quando o local já era venerado como santuário mariano ligado à lenda do abade João e ao milagre dos degolados ressuscitados.

Características da Romaria

A festa congrega fiéis de toda a região — da Figueira da Foz, de Montemor-o-Velho, de Coimbra e de localidades mais distantes — que se deslocam à capela para:

Assistir às celebrações litúrgicas em honra de Nossa Senhora de Seiça;

Participar na procissão com a imagem da Virgem pelos arredores da capela;

Cumprir promessas e deixar ex-votos (tradição que, como referido, era muito intensa até meados dos anos 80 do século XX);

Partilhar convívio social num ambiente de arraial, com música, gastronomia local e vendas de artesanato.

O caráter de capela de peregrinação — com as portas e janelas térreas desenhadas para tornar visível o altar mesmo do exterior — torna-se particularmente evidente durante a festa, quando a assistência ultrapassa a capacidade do pequeno espaço interior, e os fiéis participam nos ofícios litúrgicos desde o alpendre octogonal e do adro circundante.

Significado e Continuidade

A festa de agosto em Seiça mantém viva uma memória devocional secular. A ligação entre a capela e o Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Seiça, situado em frente, reforça o caráter de eixo sacro do vale: de um lado, a austeridade monástica cisterciense; do outro, a efusão popular da romaria mariana. Esta dualidade — monástica e popular, eremítica e festiva — é constitutiva do lugar.

A romaria de agosto é, assim, tanto uma celebração religiosa como um ato de afirmação identitária local. Os peregrinos renovam anualmente o vínculo com o santuário, com a lenda do abade João e com a Virgem de Seiça, perpetuando uma tradição que sobreviveu à ruína da ermida original (1590), à reconstrução barroca (1602), à supressão do mosteiro (1555), à extinção das ordens religiosas (1834) e à transformação industrial do mosteiro em fábrica de arroz (século XX).

O Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Seiça

Localização e o Papel da Água

O Mosteiro de Santa Maria de Seiça, muito próximo da capela, localiza-se perto de um curso de água perene de pequena dimensão, afluente do estuário do Mondego. Esta localização não é casual: obedece a um dos princípios fundadores da Ordem de Cister, que impunha a fixação dos mosteiros junto a cursos de água perenes, mas afastados de rios caudalosos e grandes.

A água era, para os cistercienses, um elemento de tripla dimensão: ritual, simbólica e funcional. Ritualmente, servia para as abluções litúrgicas e para o banho semanal prescrito pela Regra de São Bento. Simbolicamente, a água purificadora evocava a regeneração espiritual e o batismo. Funcionalmente, era indispensável para a irrigação dos hortos, para a piscicultura (os cistercienses eram pioneiros na criação de peixes em tanques), para a movimentação de moinhos e para as canalizações internas do mosteiro. A escolha de ribeiras e pequenos rios perenes, em vez de grandes rios caudalosos, respondia a uma lógica de autossuficiência e controlo: um curso de água moderado podia ser canalizado, represado e aproveitado sem os riscos de cheias devastadoras que um rio grande impunha. Além disso, a proximidade da água funcionava como marca de fronteira e como elemento de isolamento, consonante com o ideal cisterciense de recolhimento e austeridade.

A ribeira de Seiça, com as suas águas calmas e perenes, oferecia condições ideais para este modelo. O mosteiro beneficiava ainda da proximidade do estuário do Mondego, o que lhe permitia aceder a vias fluviais de comunicação e ao comércio.

Fundação e Cronologia Documental do Mosteiro

A origem do cenóbio de Seiça é envolta na lenda do abade João de Lorvão. Contudo, do ponto de vista documental, a mais antiga referência escrita ao mosteiro data de 1162, quando o abade Martinho comparece na outorga de uma carta de isenção dos direitos episcopais dada aos Crúzios pelo Bispo D. Miguel Salomão. Em 1175, D. Afonso Henriques emite carta de doação do couto de Barra a D. Pelágio Egas (ou Paio Egas), abade de Santa Maria de Seiça. Nesta fase, o mosteiro parece ter estado ligado a uma comunidade de Crúzios — monges que seguiam a Regra de Santo Agostinho e que eram comuns na região de Coimbra durante o período da Reconquista.

A doação régia de 1175 revela a estratégia de D. Afonso Henriques: o mosteiro situava-se numa posição estratégica na “fronteira mourama”, com a costa marítima às costas, e funcionava como ponto de fixação de povoadores e de organização territorial numa região recém-conquistada e ainda pouco povoada. A junção de um mosteiro à Ordem de Cister visou impulsionar o povoamento, aproveitar o solo e consolidar a presença cristã no território.

Em março de 1195, D. Sancho I emitiu carta em Leiria que colocou o Mosteiro de Seiça sob a proteção e alçada do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, a maior abadia cisterciense do reino. Esta carta contou com a presença e aprovação do Arcebispo de Braga e dos bispos de Lisboa, Évora, Lamego, Coimbra e Viseu. A partir desta data, Seiça passou a albergar uma comunidade de monges brancos cistercienses, filiados à poderosa abadia de Alcobaça.

A Ordem de Cister e a sua Relação com a Água

A Ordem de Cister, fundada em 1098 em Cîteaux, na Borgonha, por São Roberto de Molesme, estabeleceu desde o início uma relação privilegiada com a água. A existência de um curso de água era condição essencial para a fixação de qualquer mosteiro da Ordem. Por isso, muitos mosteiros cistercienses têm nomes associados à água: Fontaine-Guérard, Fontenay, Fontenelle (França), Fountain (Inglaterra), ou, em Portugal, Alcobaça (do árabe al-Qubba, mas com conotações hidricas locais).

A água simbolizava a pureza, a sobriedade e a regeneração — valores centrais da espiritualidade cisterciense. O hábito branco-cru dos monges, em lã grosseira, era em si mesmo uma metáfora de claridade e de renúncia, e a água que o lavava reforçava essa simbologia. Além disso, os cistercienses eram pioneiros em técnicas hidráulicas: construíam aquedutos, canalizações, tanques de piscicultura, moinhos e sistemas de drenagem, competências que transmitiam aos colonos das terras circundantes, tornando as regiões onde se instalavam entre as mais produtivas do reino.

A Ordem de Cister Substituí a Ordem de Cluny em Portugal

A Ordem de Cluny, fundada em 910 na Borgonha, tinha sido, durante o século XI, a mais poderosa e influente ordem monástica da cristandade ocidental. Os monges de Cluny, conhecidos como monges negros pelo hábito escuro, promoviam uma liturgia sumptuosa, com longos ofícios, música polifónica e grande ostentação decorativa. Os mosteiros cluniacenses acumulavam riquezas, terras e privilégios, tornando-se centros de poder económico e político.

No entanto, a partir do final do século XI, a Ordem de Cluny entrou em declínio espiritual e institucional. O seu relaxamento nos costumes, a acumulação de bens materiais, a dependência de rendas e dízimos (em vez do trabalho manual), e a distância crescente do ideal eremítico de São Bento levaram a uma crise de credibilidade. Foi neste contexto que, em 1098, um grupo de monges liderados por Roberto de Molesme deixou a congregação de Cluny para fundar, em Cîteaux, uma nova experiência monástica baseada no retorno rigoroso à Regra de São Bento, na pobreza, na solidão e no trabalho manual.

A Ordem de Cister propunha-se como uma reforma radical de Cluny. Os seus princípios fundamentais eram três:

-Solidão: os mosteiros deviam ser construídos em locais afastados, “no deserto”, longe das cidades e do mundo;

-Pobreza: renúncia a bens materiais, às rendas, aos dízimos e às doações ostentosas;

-Trabalho manual: os monges deviam trabalhar com as próprias mãos, cultivando a terra e produzindo o necessário para a subsistência.

Estes princípios, combinados com uma organização centralizada (o Capítulo Geral anual, a Carta da Caridade de 1119, o sistema de filiação abacial), tornaram Cister numa máquina de eficiência espiritual, económica e política.

A Expansão em Portugal

Em Portugal, a Ordem de Cister encontrou terreno fértil. D. Afonso Henriques, o primeiro rei, precisava de instrumentos para povoar e organizar territorialmente as regiões recém-conquistadas ao sul do rio Douro e, sobretudo, na linha do Mondego. Os monges brancos ofereciam exatamente isso: eram pioneiros de povoamento, traziam conhecimentos agrícolas avançados (arroteamento, drenagem de solos, hidráulica, piscicultura), e a sua presença legitimava politicamente a posse cristã do território.

A primeira fixação cisterciense em Portugal deu-se em São Cristóvão de Lafões (c. 1138) ou em São João de Tarouca (1144). D. Afonso Henriques concedeu carta de couto a Tarouca em 1144, recompensando o apoio dos monges junto do Papa Eugénio III (antigo monge cisterciense) para o reconhecimento da independência do Condado Portucalense. Em 1153, o rei doou diretamente a Bernardo de Claraval a carta de couto de Alcobaça, e a construção daquela que viria a ser a maior abadia cisterciense do reino iniciou-se em 1178.

Durante o reinado de D. Afonso Henriques, a fundação de mosteiros cistercienses foi intensa: Tarouca (1144), Alcobaça (1153/1178), Lorvão (reformado para Cister), Celas, Arouca, São Bento de Cástris (Évora), entre outros. A Ordem de Cister tornou-se, durante o século XII, uma ordem muito poderosa, devido sobretudo à riqueza e ao prestígio de Alcobaça, que foi também o centro artístico e intelectual da Ordem.

Já no reinado de D. Sancho I, o estabelecimento de comunidades cistercienses diminuiu significativamente. Registam-se apenas duas novas filiações de mosteiros em Alcobaça: Santa Maria de Maceira Dão (1188) e Santa Maria de Seiça (1195). Este abrandamento não significou um declínio da Ordem, mas sim uma saturação do espaço — as principais regiões a povoar já estavam cobertas, e a atenção régia deslocou-se para outras ordens (Templários, Hospitalários) e para a consolidação institucional das fundações existentes.

O que Aconteceu a Cluny em Portugal

A Ordem de Cluny não desapareceu abruptamente de Portugal. Contudo, a sua influência foi gradualmente eclipsada pela de Cister, por várias razões:

A aliança política: D. Afonso Henriques e a sua corte apostaram decididamente nos cistercienses como parceiros na Reconquista e no povoamento. Os monges brancos eram vistos como mais eficientes e mais alinhados com os objetivos do novo reino.

O modelo económico: enquanto Cluny dependia de rendas, dízimos e doações, Cister produzia riqueza através do trabalho manual e da exploração agrícola, gerando desenvolvimento local e fixação de populações — exatamente o que o reino precisava.

O prestígio de Bernardo de Claraval: a figura de São Bernardo, o maior propagandista de Cister, exercia uma influência imensa em toda a cristandade. O facto de o Papa Eugénio III ser cisterciense reforçou ainda mais a posição da Ordem.

Assim, Cister substituiu Cluny como a ordem hegemónica em Portugal durante o século XII, não por extinção desta última, mas por suplantação funcional e política. Cluny manteve as suas casas, mas perdeu a capacidade de expansão e de influência que outrora detivera. O século XII foi, de facto, o século dos monges brancos em Portugal, como o século XI tinha sido o dos monges negros.

O Papel de Seiça na Reorganização Territorial

O Mosteiro de Santa Maria de Seiça foi fundamental na reorganização territorial e social das povoações do estuário do Mondego. Os monges cistercienses introduziram técnicas agrícolas avançadas: desbravamento de terras, drenagem de solos húmidos, arroteamento, cultivo sistematizado e exploração dos recursos hídricos da ribeira. Estes conhecimentos, transmitidos aos colonos da região, transformaram o vale de Seiça numa das áreas mais produtivas do reino, com especial destaque para a agricultura, a piscicultura e, mais tarde, o arrozal.

A proximidade do mosteiro com a Capela de Nossa Senhora de Seiça (fundada segundo a lenda em 850, reconstruída em 1602) criou um eixo devocional e económico que articulava a vida monástica com a piedade popular. Os monges administravam as terras, os conversos trabalhavam nos campos, e a capela funcionava como centro de peregrinação, atraindo fiéis e gerando movimento económico.

Declínio, Extinção e Reabilitação do Mosteiro

Protegido pela Coroa ao longo da Idade Média, o Mosteiro de Seiça foi suprimido por D. João III em 1555, devido a desentendimentos constantes com a casa-mãe de Alcobaça. Os seus bens foram destinados à Ordem de Cristo, para a edificação de um novo mosteiro em Carnide (Lisboa). Em 1560, D. Sebastião restituiu o mosteiro à alçada de Alcobaça, através da Bula de Pio IV “Hodie a nobis emanarunt littere”. Em 1567 foi criada a Congregação de Santa Maria de Alcobaça, que procedeu à reconstrução do mosteiro segundo projeto de Mateus Rodrigues, com início em 1572. A igreja medieval foi derrubada em 1672 para dar lugar ao templo maneirista que hoje conhecemos.

Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834, o conjunto arquitetónico foi apropriado pelo Estado e posteriormente vendido a particulares. Em 1895 foi vendido novamente, e no início do século XX até 1976 funcionou ali uma fábrica de descasque de arroz, cujos vestígios ainda são visíveis. A grande chaminé industrial que ladeia o mosteiro testemunha essa fase de reaproveitamento profano.

O Mosteiro de Santa Maria de Seiça esteve classificado como Imóvel de Interesse Público desde 2002 e foi reclassificado como Monumento Nacional pelo Decreto-Lei 13/2023, de 7 de julho. Em janeiro de 2024 foram inauguradas as obras de reabilitação e consolidação, sob responsabilidade do Município da Figueira da Foz, com financiamento do Programa Centro 2020.

O Mosteiro de Santa Maria de Seiça é um testemunho exemplar da estratégia cisterciense de povoamento e desenvolvimento territorial em Portugal. A sua localização junto à ribeira de Seiça obedeceu aos princípios de isolamento, autossuficiência e aproveitamento hídrico que definiam a Ordem. A sua filiação a Alcobaça, inseriu-o na mais poderosa rede monástica do reino. E o seu papel na reorganização agrícola e social do estuário do Mondego demonstra como a Ordem de Cister, suplantando gradualmente a de Cluny, se tornou o principal instrumento de colonização e afirmação do Reino de Portugal durante os séculos XII e XIII.do Programa Centro 2020.

O Mosteiro de Santa Maria de Seiça é um testemunho exemplar da estratégia cisterciense de povoamento e desenvolvimento territorial em Portugal. A sua localização junto à ribeira de Seiça obedeceu aos princípios de isolamento, autossuficiência e aproveitamento hídrico que definiam a Ordem. A sua filiação a Alcobaça, inseriu-o na mais poderosa rede monástica do reino. E o seu papel na reorganização agrícola e social do estuário do Mondego demonstra como a Ordem de Cister, suplantando gradualmente a de Cluny, se tornou o principal instrumento de colonização e afirmação do Reino de Portugal durante os séculos XII e XIII.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top