O Larouco: a montanha que era um deus
I. A montanha que não sabia onde acabava o país
Há montanhas que são fronteiras e é o caso do Larouco.
Quem sobe ao cume num dia limpo, e no alto destas serras os dias limpos são um regalo para os sentidos, vê o Gerês a sul, o Barroso a poente, a barragem dos Pisões lá em baixo e, para lá da linha que os cartógrafos desenharam, a Galiza, com o mesmo granito, o mesmo vento, as mesmas formas. A linha parte a montanha ao meio sem que a montanha dê por isso. É um planalto granítico alongado, com dez quilómetros de nordeste a sudoeste, o ponto mais alto do concelho de Montalegre e a grande varanda desta freguesia extrema.
A altitude é o primeiro exercício de humildade. A Câmara diz 1525 metros, os antigos diziam 1527, outras fontes dão 1535 e até 1536. Fique-se por cerca de 1525 metros e deixe-se o resto às conversas de cume.
A paisagem é um documento, por vezes o mais antigo que temos, e lido esse documento o Larouco diz-nos que a fronteira é uma convenção recente. As fronteiras medievais, de resto, não eram linhas de paisagem: eram linhas de força, feitas de forais, casamentos, guerras e esquecimentos.
II. O deus que tem rosto
Antes de ser fronteira, o Larouco foi morada de um deus, e não de um deus qualquer: de um deus que não se deixou apagar.
Era uma divindade pré-romana, e há aras romanas dedicadas a Larouco dos dois lados da serra, quase sempre com o epíteto Maximus, o título de Júpiter. O fenómeno tem nome técnico, sincretismo, mas a imagem é mais simples: o conquistador oferece ao deus da montanha o seu próprio título, e o deus aceita-o sem trocar de nome. A pedra regista a negociação. Um deus romano chamado Larouco prova que, na Antiguidade, ninguém tomava esta montanha por uma fronteira. Era um centro.
Em Vilar de Perdizes foi descoberta uma figura esculpida em relevo na rocha: um personagem antropomorfo, de masculinidade explícita, com um martelo numa das mãos. O falo fala de fertilidade; o martelo, de trovão ou de metalurgia, os atributos que a tradição lhe tem associado. Não está sozinho. A mesma zona guarda a ara votiva ao Deo Maximo, e a Monografia de Montalegre enumera um país de penedos escritos: o Penedo de Letra, em Gralhas, o Penedo dos Sinais, o Penedo da Ferradura, a Pedra Pinta.
III. A fronteira feita à mão
Portugal não nasceu de um tratado, mas de um processo, e o Larouco assistiu a ele do princípio ao fim.
No princípio não havia nada para ver: o território era um contínuo galaico-português, e o Barroso já aparece num testamento de São Rosendo, de 942. A primeira menção segura ao termo é galega, de 1100, a propósito de Tourém. Veio depois a cisão do século XII: a Galiza ficou presa a Leão, e Portugal viu-se entre dois vizinhos que falavam a sua língua. Em Zamora, em 1143, o imperador Afonso VII reconheceu Afonso Henriques como rei. No terreno, a resposta foi pedra: os castelos do Gerês, da Piconha, do Portelo, o de Montalegre. Tourém recebeu foral, em 1187. As Inquirições de 1258 deixaram-nos por escrito os limites da Terra do Barroso. E a 9 de junho de 1273 Afonso III elevou Montalegre a vila, cabeça das Terras de Barroso.
E o Tratado de Alcañices, de 1297, o marco que toda a gente cita, incidiu sobretudo na Beira e no Alentejo, sem que se conheça fonte que diga que alterou a linha do Barroso. A fronteira destas serras fixou-se por uso, por foral e por esquecimento, mais do que por um tratado famoso. Do Couto Misto de Rubiás, extinto no século XIX, fica apenas a referência, por apurar.
A lição que se leva do cume é esta: a fronteira é uma construção política recente sobre uma montanha cujo deus tinha aras dos dois lados.
IV. O relevo como processo
A serra pertence ao Maciço Antigo, e a sua espinha geológica tem nome próprio: a falha de Verín–Régua–Penacova, um desligamento tardi-hercínico de direção NNE–SSO, com cerca de 250 quilómetros. As serras mais expressivas alinham-se NNE–SSO e, entre elas, a tectónica fez cair blocos: o graben onde hoje repousa Chaves e o seu gémeo galego, Verín. A norte do Douro, as depressões que separam as serras minhotas do planalto transmontano seguem esta mesma falha. Esta falha levanta as Montanhas Ocidentais, desde o Caramulo ao Larouco é funda suficientemente para fazer brotar um vasto rol de águas minero medicinais maravilhosas.
O monte, esse, sempre teve uso. O padre Diogo Martins Pereira, nascido em Pincães em 1681, deixou manuscritos que descrevem as assembleias comunitárias: as vezeiras apascentadas sob regras próprias, as queimadas controladas, os medronheiros plantados nos montes para travar a erosão. Não é folclore inventado depois, é testemunho escrito. Quando, a 19 de abril de 2018, em Roma, a FAO certificou o sistema agro-silvo-pastoril do Barroso como Património Agrícola Mundial, o primeiro de Portugal, não estava a premiar uma curiosidade: estava a reconhecer séculos de regras escritas e muitos mais de prática.
E houve estradas. Na Antiguidade, o dinheiro romano subiu até aqui: doze denários em Penedones, cinco em Vila da Ponte, mais de três mil peças de bronze nas Minas da Borralha, mais de novecentas em Montalegre, além das aras a Larouco e a Júpiter. No Caminho de Santiago, Vilar de Perdizes chegou a ter hospital de peregrinos, e dois mapas galegos do início do século XVII incluem-no na rota quando excluem Bragança. Durante séculos, quem ia a Compostela passava ao pé do deus e não ao pé dos reis.
VI. O monte hoje
Hoje o cume serve outros rituais: provas internacionais de parapente. O mesmo vento que limpa a pedra serve agora de estrada. Em dezembro e janeiro cai neve nas cotas altas, e em outubro quem sobe deve levar um corta-vento. Aqui nasce o Cávado, na Fonte da Pipa. A serra e o Alto Cávado são biótopo CORINE.
«Observe quão poderosa foi a impressão desse deus na cultura local, que o seu nome sobreviveu na montanha por dois mil anos e chegou até nós, intato, até hoje.»
Um deus com nome de montanha, ou uma montanha com nome de deus: a arqueologia ainda não decidiu, e talvez nem faça falta. O que o Larouco ensina é que as paisagens duram mais do que as fronteiras, e que a identidade de um país se escreve primeiro em pedra, depois em forais e só muito depois em tratados. No alto do Larouco, com o vento a apagar as palavras à medida que se dizem, percebe-se que a linha da fronteira é a coisa mais recente da vista, e o deus, intato, a coisa mais antiga.




