Igreja da Nossa Senhora da Assunção, matriz de Loures (*)

Igreja de Nossa Senhora da Assunção-Matriz de Loures (*)

Por uma hermenêutica da imagem e do espaço sacro

Quem chega ao largo da Igreja Matriz de Loures não encontra uma fachada de sobressalto decorativo nem de cenografia barroca ostensiva. Depara-se, antes, com um volume de gravidade sóbria, quase austera, filiado no espírito pragmático da arquitetura chã que marcou o Portugal pós-Tridentino da segunda metade do século XVI. Trata-se de uma arquitetura de contenção formal, depurada de ornatos supérfluos, onde a dignidade do templo se afirma na proporção dos volumes e na clareza dos alinhamentos.

É, todavia, no seu interior — e nas consecutivas camadas históricas, estéticas e devocionais que o tempo ali foi sedimentando — que a Igreja de Nossa Senhora da Assunção se revela como um dos acervos mais fascinantes do património religioso do termo de Lisboa. Classificada como Monumento Nacional desde 1910, a Matriz de Loures guarda no seu espaço o reflexo das dinâmicas artísticas, das redes de patronato e dos programas dogmáticos que moldaram o país entre o Renascimento, a Contrarreforma e o apogeu Joanino.

A invenção da memória: o mito templário e a realidade documental

A tradição historiográfica local atribui persistentemente a fundação da primitiva matriz aos Cavaleiros da Ordem do Templo, que teriam recebido da mão de D. Afonso Henriques herdades nas regiões de Sintra e Loures na sequência do avanço reconquistador pós-1147.

Do hipotético templo românico nada sobreviveu no plano estrutural. Contudo, no pavimento da nave e em dependências do templo conservam-se lápides sepulcrais com a clássica cruz patea apensa, testemunhos lapidares de inegável valor simbólico e arqueológico. Embora inventários oitocentistas e bibliografia local proponham uma cronologia de fundação entre 1180 e 1220, e a elevação a matriz por volta de 1250, a crítica documental exige prudência: escasseiam provas diretas sobre a jurisdição templária da primitiva igreja paroquial.

Sabemos, porém, com firmeza documental, que a povoação de Loures gozava de expressiva relevância geoestratégica no século XII, surgindo explicitamente nomeada no Foral de Lisboa outorgado por D. Afonso Henriques em 1179 como terra limítrofe do termo olisiponense. Com a extinção da Ordem do Templo e a subsequente criação da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, em 1319, os bens e prerrogativas dos Templários no reino passaram para a esfera da nova milícia régia. O facto de a importante reforma da sacristia em 1562 ter sido executada sob a chancelaria e diretrizes da Ordem de Cristo confirma que o templo permaneceu atado a esta herança institucional e espiritual durante o Período Moderno.

A grande campanha maneirista (c. 1575–1600): laboratório da Contrarreforma

A fisionomia do templo atual resulta da vasta campanha de reconstrução empreendida em meados do século XVI. O templo ergueu-se de raiz segundo o paradigma da arquitetura chã, caracterizada por portais de inspiração erudita serliana, proporções geométricas rigorosas e pela edificação da torre sineira em 1620.

No interior, o espaço articula-se em três naves divididas por arcarias de volta perfeita sobre colunas de ordem toscana. Estas estruturas arquitetónicas recebem um sumptuoso programa decorativo de pintura a brutesco — com grinaldas, grotescos e motivos classicistas —, enquanto as coberturas de madeira ostentam caixotões pintados com composições hagiográficas, destacando-se a cena da Assunção da Virgem na nave central. As aparentes divergências cronológicas nas fontes — com relatórios do Património Cultural a apontarem para 1670 e os registos do SIPA a assinalarem campanhas de restauro e ornamentação em 1643 — revelam, na verdade, fases sucessivas de atualização do programa pictórico de ilusionismo e fingimentos ao longo do século XVII.

Uma galeria de mestres nos altares laterais

O valor patrimonial da Matriz de Loures atinge o seu cume no acervo de pintura de cavalete e de talha dos seus altares laterais, reunindo obras de alguns dos nomes mais proeminentes da arte portuguesa do Maneirismo e do Barroco:

-Diogo Teixeira (c. 1575): Autor do retábulo de Nossa Senhora da Conceição, uma das figuras cimeiras do Maneirismo lisboeta, mestre do rigor compositivo e do colorido denso.

-Simão Rodrigues (1595–1600): Responsável pelo retábulo de Nossa Senhora da Graça. O mestre, que paralelamente interveio em programas cenográficos da Contrarreforma como o da Igreja do Carmo em Coimbra, imprime às figuras um dinamismo anatómico e uma carga dramática alinhada com as prescrições do Concílio de Trento.

-Lourenço de Salzedo: Atribui-se-lhe a fascinante representação de Santa Maria Madalena.

Com forte erotismo sagrado, a figura exibe o peito entreaberto num equilíbrio entre a sensualidade penitente e o mistério da redenção do pecado.

André Reinoso e Bento Coelho da Silveira: O espaço acolhe ainda duas notáveis tábuas do século XVII, testemunhos da transição do Maneirismo tardio ao Proto-Barroco.

O retábulo-mor: a vanguarda romana e o apogeu Joanino

A grande joia do templo é o seu magnífico retábulo-mor de talha dourada e policromada, considerado um dos exemplares mais arrojados do Barroco Joanino em todo o distrito de Lisboa.

ElementoAutoria & CronologiaCaracterísticas Artísticas
Talha DouradaClaude Laprade e Mestre Bento da Fonseca de Azevedo (Contratos de 1716, 1718 e 1721)Escultura cenográfica de feição romana, com colunas salomónicas, anjos acroteriais e acentuada tridimensionalidade dramática.
Embrechados de MármoreManuel Francisco Botelho (1760)Lambris e revestimentos com embutidos polícromos de mármores da região, conferindo sumptuosidade tectónica.

A encomenda desta peça vanguardista não derivou da Coroa nem da alta nobreza, mas sim da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Loures. Composta predominantemente por uma elite camponesa e proprietários rurais do termo de Lisboa, esta confraria revelou meios financeiros notáveis e uma apurada erudição estético-devocional, contratando os melhores mestres entalhadores da capital para erguer uma obra inspirada na grande escultura de vanguarda romana.

Mutações, terramoto e as atribulações do século XX

A evolução da igreja foi marcada por profundas intervenções de renovação visual e por episódios de crise:

1708 (Campanha de estucagem): Num gesto de atualização do gosto, os antigos lambris de azulejos das naves foram removidos para dar lugar ao revestimento de estuque fresco, restando escassos, mas valiosos azulejos maneiristas junto ao portal do lado do Evangelho.

1755 (O Sismo de Lisboa): O Sismo de 1 de novembro de 1755 deve ter causado estragos consideráveis na estrutura do templo. As obras de consolidação e reconstrução prolongaram-se por quase três décadas, ficando concluídas em 1781.

1910–1936 (Classificação, secularização e perdas): Em 1910, a igreja foi elevada a Monumento Nacional. Contudo, com o advento da Primeira República e a promulgação da Lei da Separação do Estado das Igrejas (1911), o templo foi encerrado ao culto entre 1912 e 1931. Em 1936, no decurso de reestruturações urbanísticas e de critérios do património hoje questionáveis, procedeu-se à demolição da segunda torre — a célebre Torre do Relógio —, alterando de forma irreversível a volumetria exterior da fachada principal.

A Igreja Matriz de Loures permanece, assim, como uma síntese viva da História da Arte em Portugal: um monumento onde a sobriedade da arquitetura chã serve de invólucro a um do ótimo repositório de pintura maneirista, talha joanina e devoção popular da região olisiponense.

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