Praça Monumental Barroca de Santo Antão do Tojal (Loures) (**)
O Conjunto Monumental de Santo Antão do Tojal: o Barroco teatral da corte no Termo de Lisboa
Ensaio sobre a cenografia do poder e as metamorfoses do espaço rústico
Em Santo Antão do Tojal, a arquitetura e a cenografia do Barroco não se instalaram no tecido denso da cidade olisiponense; antes, deslocaram-se para o espaço campestre do seu Termo, investindo-o com a escala e a ambição de uma verdadeira corte romana. Sobre uma antiga quinta de recreio dos prelados lisbonenses, a vontade de representação do primeiro Patriarca de Lisboa e o génio cenográfico de um arquiteto italiano compuseram um praça monumental — congregando palácio, igreja, aqueduto e chafarizes —, cuja teatralidade surpreende até hoje quem ali chega sem aviso. Classificado na sua integridade como Imóvel de Interesse Público, o conjunto é uma das mais fascinantes e complexas expressões da transposição da cultura cortesã joanina para o mundo rural.
A gênese da «Quinta dos Bispos»: do domínio medieval à afirmação renascentista
A origem do sítio afunda-se na Idade Média. Entre 1290 e 1293, o bispo de Lisboa D. Domingos Jardo adquiriu a chamada Quinta de Pêro de Viegas por quantia substancial. O local já ostentava centralidade espiritual, pois a documentação atesta a existência de uma capela ou igreja no lugar logo em 1291.
A dignificação do paço episcopal acelerou no Período Moderno. Em 1554, o arcebispo D. Fernando de Vasconcelos e Meneses empreendeu uma vasta reforma no palácio e no templo anexo. Mais tarde, no período da União Ibérica, entre 1586 e 1625, D. Miguel de Castro concluiu novas reestruturações, firmando a importância do Tojal como estância de repouso e abastecimento da mitra.
O Patriarca D. Tomás de Almeida e o arquiteto António Canevari (1728–1732)
A praça monumental que hoje contemplamos é fruto de uma campanha fulgurante ocorrida entre 1728 e 1732. Elevado à dignidade patriarcal em 1717, D. Tomás de Almeida encarregou-se de transformar a ultrapassada quinta agrícola numa sumptuosa residência de verão. Para tal, encomendou a reconstrução do palácio, a construção de raiz de um aqueduto, a edificação de um soberbo palácio-fonte e a criação de uma praça pública ao arquiteto italiano António Canevari (Roma, 1681 – Nápoles, 1764).
Canevari é uma figura de fascinante. Embora a tradição historiográfica e as narrativas locais sustentem que veio a Portugal a convite direto de D. João V para intervir no Aqueduto das Águas Livres — sabendo-se documentalmente que permaneceu no reino entre 1728 e 1732 e dirigiu as obras do aqueduto olisiponense durante sete meses —, o documento desse convite régio permanece esquivo. Contudo, o seu magistério em Portugal deixou marcas estruturantes: aos leitores formados ou atentos ao património de Coimbra cumpre recordar que é precisamente de António Canevari o arrojado projeto da célebre Torre da Universidade de Coimbra (a «Cabra»), erguida entre 1728 e 1733, marco maior do Barroco português.
A estrutura do Palácio e a poética do programa azulejar
O palácio desenha-se numa elegante planta em U, fechada por um muro duplo que funciona como mirante sobre a paisagem, adossando-se-lhe a igreja paroquial, à qual se liga interiormente por uma tribuna elevada. Antes das transformações empreendidas por D. Tomás de Almeida, o edifício apresentava uma modesta tipologia em L.
O interior do andar nobre constitui um verdadeiro poema em azulejaria de grande aparato:
-Escadaria de Honra: Acolhe o visitante com expressivas figuras de convite — porteiros e alabardeiros em azul e cobalto, com realces em amarelo de antimónio a simular os passamanes de ouro dos trajes de gala do Século das Luzes.
-Andar Nobre: Os salões desdobram-se em programas iconográficos alegóricos representando as Quatro Estações, os Quatro Elementos, as Artes Liberais e uma vibrante devoção à Imaculada Conceição.
-Sala das Bênçãos: Integralmente revestida a Mármore e rasgada por uma varanda sobre a praça, é a peça de mais pura e erudita filiação italiana. Daqui o Patriarca assistia às celebrações litúrgicas e abençoava o povo, o campo e os sinos recém-fundidos.
O percurso da água e a cenografia dos jardins
Antes das obras de 1728, a quinta não passava de uma exploração agrícola vocacionada para o sustento da mesa episcopal. A intervenção de Canevari converteu o espaço exterior num jardim de deleite: um recinto retangular desenhado por alamedas, muretes ornamentados com azulejos de albarradas, dois tanques com grinaldas em relevo, dous pombais circulares e bancos de espaldar figurando Santo António e alegorias da Primavera.
No plano hidráulico, o aqueduto de 1728 desenvolve-se ao longo de cerca de dois quilómetros, combinando um troço subterrâneo em Pinteús com uma monumental arcaria de volta perfeita. Os seus pilares vão-se estreitando à medida que se aproximam da povoação, culminando num espetacular Palácio-Fonte equipado com escadaria em leque, carrancas carrancudas, fogaréus em pedra e as armas esculpidas de D. Tomás de Almeida. Aventou-se a hipótese de este espaço servir de apoio aos percursos da família real nas viagens para Mafra — e de o Patriarca acalentar a ambição de articular cenograficamente o Tojal com o paço régio —, intuição verosímil, mas carecida de comprovação documental.
Completa o sistema o Chafariz dos Arcos, peça de comovente devoção popular que exibe uma inscrição latina solicitando uma oração pelas almas do Purgatório em troca da água límpida, encimada por um baixo-relevo alusivo às chamas purificadoras.




