Passadiços de Loures nas Reserva Natural do Estuário do rio Tejo (***)

Os Passadiços de Loures e a Paisagem Aluvial do Estuário do Tejo

Ensaio de Geografia Física, Ecologia e Memória Terrestre

Caminhar sobre a estrutura de madeira dos Passadiços de Loures é aventurar-se numa experiência de fronteira física e biológica: é andar sobre a lama que se faz paisagem. Ali, onde o rio perde o seu ímpeto fluvial e se entrega às flutuações da maré, as estacas de madeira elevam o visitante sem lhe molhar os pés, permitindo a contemplação íntima de uma das zonas húmidas mais férteis e complexas de toda a Europa Ocidental.

A arquitetura do percurso e a engenharia do solo aluvial

Inaugurado a 7 de setembro de 2023, o Percurso Ribeirinho de Loures desenvolve-se em passadiço e iremos fazer apenas 5 125 metros de extensão, apresentando uma largura contínua de 3,5 metros que se alarga para 4,5 metros no ponto contemplativo conhecido como «Volta do Tejo». Nascendo na confluência histórica do rio Trancão com o estuário, junto à ponte ciclopedonal, o traçado estende-se até Santa Iria da Azóia, ligando-se em contínuo ao Parque Linear Ribeirinho de Vila Franca de Xira.

A materialização desta artéria pedagógica e ecológica representou um investimento global de cerca de 13 milhões de euros (com 11 milhões suportados pela autarquia e 2 milhões através de fundos comunitários), exigindo uma engenharia perfeitamente adaptada às fraquezas e instabilidades da geologia de esteiro.

A complexidade geotécnica do leito estuarino — composto por vazas profundas de deposição holocénica — obrigou a sucessivas recalibrações do projeto inicial. No vale inferior, a espessura das aluviões do Tejo pode atingir impressionantes 70 metros de profundidade, impondo a cravação de milhares de pilares para fixar a plataforma sobre um solo semiconsolidado.

Geofísica do vale afogado: a dinâmica holocénica e a falha ativa

A fisionomia do Baixo Tejo é o resultado de uma longa e incessante história de transgressões marinhas e acumulações aluvionares. O atual estuário configura um verdadeiro vale afogado, inundado pela subida do nível do mar durante a transgressão holocénica pós-glaciar. Sondagens geológicas executadas na região de Vila Franca de Xira datam a fixação das primeiras condições estuarinas de há cerca de 11 500 anos, registando uma taxa de acumulação sedimentar na planície aluvial de cerca de 1,3 mm por ano.

O vale do Tejo não é uma entidade estática, mas uma artéria geotectónica viva. A Zona de Falha do Vale Inferior do Tejo (estendendo-se por mais de 125 km) afeta sedimentos quaternários com menos de 20 000 anos, sendo identificada como a fonte geológica do devastador Sismo de 26 de janeiro de 1531 (magnitude estimada entre 6,5 e 7,0, com epicentro no eixo Vila Franca de Xira-Azambuja).

O ecossistema do sapal: habitats, avifauna e riqueza botânica

Numa leitura atenta da vida vegetal e animal—, a paisagem do estuário revela-se não como uma esteira monótona de lama, mas como um mosaico dinâmico de ecótonos em permanente mutação.

Zona do HabitatDinâmica da MaréVegetação & Fauna Características
Vaza a Descoberto (Mudflats)Exposta durante a baixa-marTapetes de microalgas, vermes poliquetas e moluscos com zona de alimentação intensiva de aves limícolas.
Águas EstuarinasCobertas na preia-marMaternidade e viveiro de peixes (robalos, linguados, manguaias) e moluscos.
Sapal Primário & SecundárioInundação periódica pelas águas salobrasFlora halófita especializada

A integridade deste património natural motivou a criação da Reserva Natural do Estuário do Tejo em 1976 (abrangendo 14 560 hectares), vindo a ser reconhecida internacionalmente como Sítio Ramsar desde 24 de novembro de 1980 e integrando a Zona de Proteção Especial (ZPE) para a avifauna.

Conforme os censos do ICNF, mais de 245 espécies de aves frequentam este ecossistema, albergando contingentes invernais que ultrapassam as 120 000 aves aquáticas. Enquanto os flamingos pintam a paisagem de rosa durante quase todo o ano, o alfaiate , com o seu bico arqueado para cima em busca de minúsculos crustáceos no lodo, permanece como o símbolo biológico incontestável do sapal do Tejo.

O fio da história e da literatura: do rio Trancão ao Memorial do Convento

O início do passadiço na foz do Trancão estabelece uma ponte direta entre a ecologia do estuário e a memória histórica. Foi por estas mesmas águas salobras que, em 1730, navegaram os batéis e embarcações que subiam em direção ao Esteio da Princesa, transportando tijolos, pedra e os monumentais sinos destinados à basílica do Convento de Mafra, no Tojal.

É esta mesma geografia aquática que José Saramago imortalizou em O Memorial do Convento. Ao percorrer estes passadiços de madeira sobre as vazinhas de Loures, o caminhante pisa o limiar do ecossistema e, simultaneamente, o cenário geográfico onde arrancou a viagem dos sinos e o suor dos boieiros. Entre o voo das garças e o farfalhar da vegetação halófita, a natureza do estuário e a história do reino reencontram-se na mesma paisagem viva.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top