Castelo de Mourão (**)

O Castelo de Mourão: Sentinela de Xisto sobre o Espelho de Água

Erguido na margem esquerda do rio Guadiana, o Castelo de Mourão daqui se avista um espetacular panorama.

Ao longe, a norte, o Castelo de Monsaraz acena-nos de outra crista. A leste, a Espanha espreita. No meio, o grande lençol de água da Barragem de Alqueva transformou a paisagem, trazendo um brilho novo ao antigo cenário de fronteira. Está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1957.

Um Passado de Embates e Recomeços

A história de Mourão é feita de silêncios e de estandartes ao vento. Pouco sabemos da sua génese, mas durante a Reconquista, o local deve ter sido um tabuleiro de xadrez entre cristãos e muçulmanos. Ficou vazio, despovoado — uma ferida aberta na paisagem.

A vida regressou pelas mãos da Ordem dos Hospitalários. Em 1226, o Prior Gonçalo Egas deu-lhe o primeiro foral. Imaginem a cena: cavaleiros e camponeses a tentar domar uma terra “irremediavelmente pobre” na sua agricultura, mas estrategicamente vital para o Reino. D. Sancho II e D. Afonso III deram continuidade a este esforço, pois sabiam que um país se faz de fronteiras sólidas.

O Toque dos Mestres: De D. Dinis aos Arruda

Sob o reinado de D. Dinis, o “Lavrador” que também foi mestre construtor, o castelo pode ter gsnjo nova robustez.

 A Torre de Menagem gótica ainda guarda a memória de D. Afonso IV, com a sua lápide de 1343 a recordar-nos que o poder, por mais absoluto que pareça, acaba sempre por se tornar pedra e inscrição assim sobre a porta da torre está uma lápide epigrafada e armoriada.

“era de mil ccc oitenta e i anos(= ano 1343) primo dia de março dom afonso o quarto rei de portugal mandou começar e fazer este castelo de mourão e o mestre que o fazia havia nome joão afonso qual rei foi filho do mui nobre rei dom denis e da rainha dona isabel aos quais deus perdoe o qual rei é casado com a rainha dona beatriz e havia por filho herdeiro o infante dom pedro”.

Ocorreu uma Batalha de Mourão e foi um confronto armado travado em Maio 1477 nas imediações de Mourão, no Alentejo, entre uma força portuguesa e outra castelhana no âmbito da Guerra de Sucessão de Castela.

Durante a Guerra da Sucessão de Castela, os Reis Católicos proclamaram-se reis de Portugal e tentaram nomear castelhanos para cargos portugueses, atribuindo terras portuguesas – algumas das quais fora da sua posse – a castelhanos. Prometeram também dar terras portuguesas a quem as tomasse, procurando sobretudo incentivar a sua conquista pelas grandes ordens militares de Castela: Santiago, Alcântara, Calatrava e Hospital.

Foram mesmo feitas doações de territórios do Império Português.

Enviaram também uma circular às cidades da Estremadura Espanhola com ordens expressas para atacar Portugal. No total, foram atacadas vinte e oito vilas raianas portuguesas, quase todas (vinte e três) no Alentejo.

Os cavaleiros da Ordem de Santiago que apoiava o reino vizinho foram derrotados e postos em fuga. Todos os redutos ocupados pelas tropas dos Reis Católicos em Portugal foram reconquistados pelas forças do Infante D. João, o Príncipe Perfeito, como Noudar ou Ouguela.

Mas em Mourão a batalha ocorreu assim. Esta é uma daquelas passagens da nossa história onde a astúcia — essa velha “manha” portuguesa de quem tem poucos recursos mas muita imaginação — vence a força bruta.

O Príncipe andava pelas ruas de Évora, de porta em porta, a tentar recrutar braços. Mas o povo, que não é parvo e conhece bem o peso do aço castelhano, esquivava-se. Sentia-se no ar aquele receio de quem sabe que o inimigo é muito forte. Foi então que, num rasgo, o futuro D. João II desenhou um estratagema de guerra digno dos antigos.

Enviou saudações ao Mestre de Santiago, informando-o de que estava em Évora e que não valia a pena o espanhol cansar-se a vir até ele; o próprio Príncipe iria ao seu encontro para a batalha. O Mestre, num gesto de cavalheirismo que o trairia, respondeu que seria mais cortês ser ele a visitar Sua Alteza. Prometeu estar às portas da cidade logo pela manhã. Mal ele sabia que o tabuleiro estava a ser montado.

Passava pouco da meia-noite quando o Bispo Garcia de Meneses partiu com 300 cavaleiros. A ordem era estranha, quase absurda: cavalgar em círculos, cruzar caminhos, bater o chão sem descanso durante toda a madrugada.

Ao romper da aurora, o cenário era dantesco para os batedores castelhanos. O rasto de milhares de cavalos cortava a terra. Parecia que um exército colossal tinha passado por ali. Alonso de Cárdenas, que trazia 2.000 lanças e os carros cheios de despojos, sentiu o frio na espinha. Onde estavam aqueles “milhares” de portugueses? O medo da emboscada, esse fantasma que persegue todos os capitães em terra alheia, fê-los dar meia-volta. Retirada imediata!

A retirada castelhana era apressada, quase uma fuga. Quando passavam por Mourão, Diogo de Castro e o audaz Rui Casco observavam de longe com apenas 150 lanças. Era o David contra o Golias, mas um Golias que já tremia.

Ao ver o exército inimigo a atravessar o rio, num momento de vulnerabilidade total, os portugueses não hesitaram. Atacaram a retaguarda com uma fúria fulminante. Imaginem o caos: o som da água batida pelos cavalos, os gritos, o pânico a espalhar-se como pólvora. Aquelas 2.000 lanças de Castela dispersaram-se como palha ao vento perante um punhado de homens decididos.

O balanço foi humilhante para a Ordem de Santiago: mais de cem cavaleiros capturados e um número incerto de baixas. Mas a maior vitória foi psicológica. A ofensiva castelhana morreu ali, entre as pegadas falsas de Évora e as águas de Mourão.

Ouguela ou Noudar também tiveram as suas históricas bélicas, mas ficará para os textos relacionados com aqueles pontos notáveis.

Com o episódio de Moura (ver texto sobre o seu castelo) 30 de abril de 1478 e a vitória do Príncipe Perfeito, ao chegar ao Verão de 1479, decorreram as negociações do Tratado das Alcáçovas, Portugal estava numa posição invejável. Enquanto os Reis Católicos tinham perdido todos os seus redutos em solo português, as nossas bandeiras ainda ondeavam em praças castelhanas como Tuy, Mérida e Medellín.

No tempo de D. Manuel I O “Livro das Fortalezas” de Duarte de Armas (1509) imortalizou a sua planta.

Mais tarde, os arquitetos Diogo e Francisco de Arruda — sim, os mesmos da Torre de Belém! — trouxeram a modernidade do século XVI. É nesta altura que surge a Igreja Matriz dentro do recinto. Um castelo que abriga uma igreja é a imagem perfeita da simbiose entre a espada e a cruz que marcou a nossa génese.

Mourão viveu momentos dramáticos em 1640. Pedro de Mendonça Furtado foi dos primeiros a hastear a bandeira de D. João IV. Para enfrentar  o inimigo e após ocupação Castelhana o  francês Nicolau de Langres , em 1658, redesenhou a defesa com baluartes e fossos, seguindo a lógica geométrica de Vauban.

Mas em 1657 tudo se complicava, aGuerra da Restauração foi mais um momento em que a “vontade de ser” portuguesa foi testada até ao limite. Em 1657, o Alentejo vivia dias de angústia. Mourão, essa sentinela de pedra debruçada sobre o Guadiana, estava prestes a viver o seu inverno mais sombrio.

Tudo começou com o baque de Olivença, em maio de 1657. Quando aquela praça-forte caiu nas mãos castelhanas, um calafrio percorreu o reino. A morte de D. João IV, meses antes, deixara uma sensação de vazio no trono, e o exército inimigo, liderado pelo Duque de San Germán, aproveitou a brecha.

Mourão sucumbiu logo a seguir. A perda destas “chaves do Alentejo” causou uma consternação profunda em Lisboa. Temia-se que a fronteira deixasse de ser um muro para se tornar uma passadeira para o invasor

Mas o destino das nações joga-se muitas vezes na capacidade de resistência do seu povo e na argúcia dos seus generais. No final de outubro de 1657, as forças portuguesas, num esforço de recuperação moral e militar, conseguiram retomar a praça de Mourão.

A História é um sistema de vasos comunicantes. Mourão foi salva, em parte, pelo que acontecia a milhares de quilómetros dali. A guerra franco-espanhola obrigou Castela a desviar o seu “músculo” militar para a frente dos Pirenéus. Portugal soube aproveitar esse momento em que o inimigo estava com o olhar dividido e após evento

Mourão é, por isso, mais do que um castelo: é um monumento à resiliência de um povo que, na hora do perigo, soube transformar o xisto em escudo.

A Igreja de Nossa Senhora das Candeias

Não se pode falar de Mourão sem olhar para a sua Igreja matriz. Remodelada no final do século XVII, a Igreja de Nossa Senhora das Candeias (ou do Tojal) nasceu das cinzas das guerras da Restauração e destruída em 1657.

Este templo, entalado entre as torres góticas, é um testemunho de resiliência. É engraçado pensar que, enquanto os generais planeavam baluartes, o povo mantinha a sua devoção a uma imagem da Virgem encontrada no mato. A fé, ao contrário das muralhas, não precisa de fossos para sobreviver.

Mourão ensina-nos três lições fundamentais:

-A Astúcia sobre a Força: A “Estratagema de Évora” e o golpe audaz de D. João II em 1478 recordam-nos que ser português foi, muitas vezes, saber jogar xadrez quando o adversário trazia apenas a espada. A inteligência estratégica foi o nosso verdadeiro baluarte.

-A Resiliência da Fronteira: Os eventos de 1478 e 1657, na Guerra da Restauração, mostram que a identidade nacional não se perde quando uma muralha cai, mas sim quando se perde a vontade de a recuperar. Mourão caiu, mas o seu regresso aos braços do reino é o símbolo da nossa persistência.

Imaginem o pôr-do-sol no Castelo de Mourão, onde o brilho do Alqueva reflete agora o que antes era apenas pó e caminho de invasores. O presente deu uma nova face a esta “peneplanície”, mas a sentinela continua lá.

A fronteira, afinal, não é onde o país acaba; é onde a nossa vontade de ser Portugal se afirma com mais força.

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