Onde a Planície se faz Prece: O Santuário de Nossa Senhora d’Aires
Há lugares que parecem guardar o hálito de todos os que por lá passaram. O Santuário de Nossa Senhora d’Aires, a dois passos de Viana do Alentejo, é um desses prodígios. Não é apenas uma igreja; é uma estratigrafia de fé, onde o barroco exuberante assenta as patas sobre o lombo de um passado romano.
Ao folhear as páginas da memória do Santuário de Nossa Senhora d’Aires, percebemos que este não é um lugar estático, pregado ao chão. É, antes de tudo, um nó cego de caminhos, um “porto de abrigo” no meio da imensidão da planície.
Desde tempos imemoriais, o santuário tem sido o ponto de encontro de uma geografia da alma que não conhece fronteiras administrativas. Quando o sol de setembro e outubro começa a perder a sua fúria, as estradas de terra enchiam-se — e enchem-se ainda — de uma fé que caminha.
Vêm de todo o lado. Chegam grupos de Alvito, e da beira-mar de Alcácer do Sal. Sobem da Vidigueira, da Cuba, de Beja e de Vila de Frades, trazendo consigo o cheiro do barro e do vinho novo. Cruzam-se com os romeiros do Torrão, de Montemor-o-Novo e da monumental Évora.
É um formigueiro humano que transforma o santuário nuns microcosmos do Alentejo. Alias é a maior romaria do AlentejoAires não é apenas um destino; é o abraço de uma região inteira que aqui se vem reconhecer.
Se fecharmos os olhos, quase ouvimos o chiar dos carros de bois e o tropel dos cavalos que, vindos da Moita pela antiga Canada Real, trazem o Ribatejo a beijar o Alentejo.
O Chão que os Romanos Pisaram
Antes da Virgem, houve Marte ou talvez Mercúrio. O santuário atual esconde um vicus romano do século II d.C.
Não precisamos de escavar muito para ver a História: ali mesmo, nos pilares do muro do adro, estão cravadas duas aras romanas. Inscrições em latim que hoje servem de suporte ao sagrado cristão.
As duas aras que hoje vemos “recicladas” nos pilares do adro são pequenos altares de pedra. Para o romano, a religião era um contrato: “Dou para que me dês”.
Embora o tempo tenha gasto o mármore, estas inscrições seguiam uma fórmula rígida e as pessoas que o fizeram cumpriram o voto de livre vontade e por merecimento.
Ao estarem integradas no santuário cristão, elas lembram-nos que aquele pedaço de solo alentejano é “magnético”. Os romanos não escolheram aquele cruzamento de vias por acaso; ali sentia-se a pulsação da terra, mas também porque estavam entre duas grandes cidades romanas, Évora e Beja.
Mas mesmo ao lado encontra-se um grandioso templo romano em ruínas.
A identidade deste lugar é feita de camadas: o templo romano, o eco visigótico e a memória árabe que por ali terá deixado rasto a partir do século VII.
O Barroco que se faz Espetáculo
O templo que vemos hoje, classificado como Monumento Nacional, é uma joia setecentista construído a partir de um pedido a virgem para cessar uma epidemia. O projeto é do Padre João Baptista, um oratoriano com mãos de arquiteto, e as obras, que se estenderam de 1743 a 1804, contaram com a perícia de Manuel Gomes.
Olhar para a fachada é ver o reflexo de Mafra na planície. É um Barroco de “erudição onde o nártex e as torres sineiras dialogam com a Basílica de São Pedro em Roma. E aquele zimbório? Uma coroa que vigia o horizonte alentejano, prometendo proteção a quem chega cansado da poeira do caminho.
No interior, o coração bate mais depressa perante o baldaquino. É uma estrutura monumental em talha dourada, obra do mestre João de Almeida Negrão. Só encontra rival em São Vicente de Fora, em Lisboa. No centro, resguardada pelo vidro, a imagem da Senhora da Piedade (Nossa Senhora d’Aires), uma peça gótica em pedra de Ançã do século XV. Pequenina, mas com um poder de atração que moveu multidões.
Os milagres da Nossa Senhora de Aires
O Achamento: O Pote e a Charrua
A lenda principal — que, aliás, está gravada em latim na própria portada da igreja para que ninguém se esqueça — conta que tudo começou com um gesto de trabalho. Um lavrador andava a arar o campo (num daqueles dias de sol que fazem estalar o xisto) quando a relha da sua charrua bateu em algo duro.
Não era uma pedra. Era um pote de barro.
Lá dentro, escondida sabe-se lá por quantos séculos para ser protegida das “razias” ou das guerras, estava a imagem da Virgem. É a clássica imagem da Pietá: a Mãe com o Filho morto nos braços. Diz a voz do povo que a imagem que hoje vemos no altar é essa mesma que saiu da terra. Do ponto de vista da História da Arte, trata-se de uma peça gótica de influência tardia, em pedra de Ançã, mas para o povo de Viana, ela é uma sobrevivente.
O Milagre da Peste (1748)
Se o aparecimento é lendário, o “milagre” que deu escala ao Santuário é um facto histórico documentado.
Em 1748, Évora vivia dias de terror. Uma epidemia de peste (ou “contágio”, como se dizia na época) estava a dizimar a população. Os comerciantes da cidade, num ato de desespero e fé, fizeram um voto: se a Senhora d’Aires afastasse a doença, eles organizariam uma festa grandiosa e ajudariam a dignificar o local.
A epidemia cedeu. O “milagre” foi a sobrevivência de uma cidade. O resultado?
A construção do imponente santuário barroco que hoje vemos (substituindo a velha ermida).
A criação da Feira Franca por alvará real, para que o comércio e a fé pudessem andar de mãos dadas — uma simbiose muito portuguesa.
A Cura dos Animais
Há ainda uma dimensão muito “terrena” nestes milagres. Como Nossa Senhora d’Aires se tornou a padroeira dos animais, os lavradores vinham (e vêm!) pedir cura para o gado. O milagre aqui é a continuidade da vida no campo. Os cavalos que hoje entram no adro na Romaria a Cavalo são os herdeiros desses pedidos de proteção contra as pestes que atacavam as montadas e os bois de lavoura.
É curioso, não acha? A Senhora d’Aires não faz milagres abstratos. Ela responde ao que dói: à doença do corpo, à falta de gado, à sobrevivência na terra dura. É uma religiosidade moldada pela necessidade de dominar uma natureza que nem sempre é generosa.
A Casa dos Milagres e a Fé Viva
Se quer sentir o pulso à alma portuguesa, entre na Casa dos Milagres. É um dos museus de arte popular mais viscerais do país.
-Tranças de cabelo cortadas em promessa.
-Vestidos de noiva que contam histórias de amor e aflição.
-Ex-votos pintados que são verdadeiras bandas desenhadas da salvação.
Se as aras são o protocolo, os ex-votos são a confissão. Na Casa dos Milagres, as paredes não têm espaço vazio. É uma explosão de “antropologia viva”.
Cada objeto ali depositado é um símbolo carregado de significado:
As Pinturas (Tábuas Votivas): São pequenas narrativas visuais. Geralmente mostram o drama (um naufrágio, uma queda de um cavalo, uma doença na cama) e, no canto superior, a Virgem d’Aires a pairar entre nuvens. O símbolo aqui é a intervenção. O fiel diz: “Eu estava perdido no caos, e a Ordem (o Divino) resgatou-me”.
As Ceras (Membros do Corpo): Braços, pernas, cabeças ou corações em cera. É a simbologia da metonímia. Onde dói, a fé toca. Se a perna curou, a perna de cera fica ali como testemunho material da cura. É quase uma “geografia do corpo” estendida nas paredes.
Objetos de Vida (Tranças e Vestidos): Aqui entramos no domínio do sacrifício pessoal. Cortar o cabelo ou entregar o vestido de noiva simboliza a entrega da identidade. É o despojar de algo precioso para agradecer a sobrevivência.
Em 1748, quando a peste assolava Évora, foram os comerciantes que prometeram à Senhora uma festa se o mal parasse. O mal parou, e a Feira Franca nasceu por alvará do Marquês de Pombal em 1751.
Pensar o Ontem para Ver o Amanhã
O que será do Santuário d’Aires no futuro? A Romaria a Cavalo, retomada em 2001, é o sinal de que a tradição não é uma peça de museu apanhada pelo pó. É uma herança viva. O Alentejo, esta terra de vasta área e isolamento encontra aqui o seu ponto de confluência.
No fundo, este complexo religioso é o testemunho de que o homem precisa de marcos no deserto. Seja sob a égide de Roma, do Crescente ou da Cruz, o importante é o encontro.
Se fecharmos os olhos, quase ouvimos o chiar dos carros de bois e o tropel dos cavalos que, vindos da Moita pela antiga Canada Real, trazem o Ribatejo a beijar o Alentejo.




