Palácio fortificado do Alvito (**)

Entrar em Alvito verificamos que é dominada por uma silhueta que engana o olhar menos atento. À primeira vista, parece um castelo de fronteira, rude e bélico. Mas, se apurarmos o sentido, percebemos que estamos perante algo muito mais sofisticado: um palácio que decidiu vestir uma armadura para impressionar a vizinhança.

O Castelo de Alvito é, na verdade, um solar fortificado. Foi mandado erguer pelos Barões de Alvito no final do século XV, atravessando os reinados de D. João II e D. Manuel I. É curioso como o poder, naquela época, precisava de se afirmar através da pedra. A identidade destas muralhas reflete a transição de um mundo medieval, onde a defesa era a angústia de cada dia, para um Renascimento onde o conforto e a ostentação começavam a ganhar o seu espaço.

Antes deste monumento, já ali existia um paço fortificado, mas o tempo e a necessidade de material de construção para outros imóveis acabaram por ditar o seu fim.

Este antigo paço pertencia a Estevão Anes, Chanceler-mor de dom Afonso III, que quando faleceu em 1279 deixou em testamento a vila, incluindo o paço, ao Convento da Santíssima Trindade, em Santarém. Alvito regressou à posse da coroa em 1283, e em 1472 sabe-se que o paço estava devoluto, sendo aproveitado como material de construção para outros imóveis.

Foi em 1481 que D. Afonso V deu licença a João Fernandes da Silveira para erguer a nova fortaleza, justificando que castelos “honram o Reino”. E honram mesmo. Mas a obra só arrancou treze anos depois, já com o filho do barão, D. Diogo Lobo, a meter mãos à obra.

Olhem bem para aquelas torres. Três circulares e uma oval. Porquê uma oval? Talvez o mestre-de-obras estivesse num dia mais criativo. E não se deixem enganar: este foi um dos últimos castelos em Portugal a ter uma torre de menagem, um “fóssil vivo” da tradição medieval em pleno amanhecer manuelino.

O que me fascina verdadeiramente aqui é o diálogo de estilos. Temos o gótico austero a dar o braço ao manuelino exuberante, tudo isto temperado por uma herança islâmica que se sente nos arcos em ferradura e nas janelas do piso nobre. É a prova de que a cultura portuguesa é feita de misturas, de mãos que sabiam esculpir a argamassa e o tijolo como se fosse renda.

A história correu pelas salas: aqui nasceu o príncipe D. Manuel em 1531, fugido da peste que assolava Évora. O castelo sobreviveu ao sismo de 1755 sem um arranhão — sorte de barão! — mas não sobreviveu às crises financeiras do século XIX, acabando vendido à Casa Real. Depois de ser Monumento Nacional em 1910 e até de servir de sede a uma comissão de moradores em 1975, renasceu como Pousada em 1993.

E que bom que assim é! O património que não se vive, morre. No pátio interior, onde outrora se ouviam cavalos e ordens militares, respira-se agora o silêncio de um Alentejo que sabe receber. As hortas, o laranjal e as vinhas, recriados com a sensibilidade de Ribeiro Telles, trazem-nos de volta à terra, ao cheiro do barro e da folha de laranjeira.

Hoje, a Pousada é um hotel. O complexo mostra que o progresso não precisa de ser inimigo da memória.

Se passarem por lá, reparem na oliveira milenar ali perto. Ela viu os barões, viu os reis, viu as crises e vê-nos agora a nós, apressados com os nossos ecrãs. Ela sabe o que nós às vezes esquecemos: que a beleza, como este castelo, exige tempo e camadas para ser compreendida. O Castelo de Alvito ensina-nos que o futuro do nosso passado passa por esta capacidade de adaptação. Vale a pena a visita? Pois claro que sim! Nem que seja para sentir, por um bocado, que a História ainda respira entre as gárgulas e o vento da planície.

O Pelourinho

Se recuarmos uns passos no Largo do Castelo, os nossos olhos cruzam-se com o Pelourinho. Estão ali, frente a frente, como dois velhos compadres que guardam os segredos da vila. Erguido após o Foral Novo de D. Manuel em 1516, este monumento é o símbolo da autonomia e da justiça local.

Teve uma vida atribulada, coitado. Foi apeado e desmembrado em 1890, perdendo-se o fuste original no processo. Mas a sua importância era tal que o próprio Rei D. Carlos, homem de pincéis e de mar, o imortalizou numa aguarela em 1884, pouco antes do seu desterro temporário. Hoje, na Praça da República (a antiga Praça da Rainha), exibe o seu remate cónico com estrias helicoidais e boleados manuelinos. Falta-lhe o fuste, é certo, mas mantém a dignidade de quem viu passar séculos de sentenças e pregões.

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