Igreja matriz de Alvito

Igreja da nossa Senhora da Anunciação (Alvito)

Alvito: Onde a Fé se Fez Fortaleza e a Arte se Fez Memória

Quando nos aproximamos da sua Igreja Matriz, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, a primeira sensação não é a de um convite piedoso, mas a de um respeito quase militar. Integra o estilo tardo-gótico alentejano, de inspiração mudéjar e manuelina

É um templo-fortaleza. Olhamos para aqueles merlões chanfrados e para os contrafortes robustos, rematados por coruchéus cónicos, e percebemos que ali a oração e a defesa caminhavam de mãos dadas.

Uma “Casca” de Guerreiro com Alma de Artista

O exterior engana o olhar menos atento. Parece rude, mas é de um refinamento tardo-gótico e manuelino fascinante.

O Portal: No meio daquela robustez, surge um portal renascentista, ladeado por contrafortes gigantes. É a elegância clássica a pedir licença à dureza medieval.

A Torre Sineira: Adossada à fachada Sul, a torre do século XVII guarda um relógio de sol em mármore. É o tempo alentejano ali marcado, sem pressas, numa pedra que já viu passar barões e chanceleres.

Esta tendência para “encastelar” igrejas não era um capricho. Em Alvito, tudo parece querer ser forte: o Castelo, a Ermida de São Sebastião e a Matriz. Era uma linguagem comum no Alentejo e na vizinha Viana.

O Interior: Um Mergulho na “Pintura que Resiste”

Ao cruzar o limiar, o peso da pedra transforma-se em luz. O interior, organizado em forma de cruz com três naves, é um verdadeiro compêndio de História da Arte.

Temos aqui frescos dos anos 1480 — Santiago, São Sebastião, Santo André. Figuras que sobreviveram escondidas, à espera que o tempo (ou os restauradores em 2021, que descobriram anjos músicos sob os azulejos) as devolvesse ao mundo. É das poucas pinturas tão recuadas que restam no país. Um milagre, digamos assim.

As paredes estão vestidas com azulejos seiscentistas, amarelos sobre branco, que trazem para dentro a luminosidade dos campos de agosto. No teto da capela-mor, trinta caixotões olham para nós. É quase um exercício de ordem cósmica sobre as nossas cabeças.

Uma História de Pedras e Afetos

A igreja que vemos hoje é uma “cebola” de estilos. A primeira semente foi lançada no século XIII, quando Estêvão Annes, chanceler de D. Afonso III, deixou estas terras aos religiosos da Trindade. Mas foi entre 1480 e 1554 que a vila cresceu, o dinheiro apareceu e a igreja acompanhou a pujança do primeiro Barão de Alvito, João Fernandes da Silveira.

Até o Cardeal D. Henrique meteu aqui a mão, mandando reconstruir a capela-mor no século XVI. Depois veio o maneirismo,  Barroco com a sua talha dourada, e os restauros do século XX.

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